Sem traumas

por Ana Luiza Goulart

12345Sei escrever crônicas, sei escrever artigo. Não sei escrever post. Quando me convidaram para contribuir com conteúdo para este blog eu logo entendi que teria que me virar muito para falar de algo interessante. Este espaço é feito por apaixonados, por entusiastas das Relações Internacionais e sinceramente, esta não sou eu.  Fiquem então, caros leitores, com as desventuras de uma graduada em RI que no fim das contas mudou de área mas, se pudesse voltar no tempo, não teria feito uma faculdade diferente.

12345No meio da graduação nos deparamos com escolhas e possibilidades de nos especializarmos de certa forma. África é muito sofrimento, América Latina é um saco, EUA é só jogo de opressão, Europa é muito batido e Oriente Médio não tinha horário que encaixasse na minha grade. Estudei China, pensei China, trabalhei China, escrevi China, amei China, fui pra China. Hoje não sei o nome do presidente da China. Ao concluir uma monografia cujo título é “Crença emocional, memória e trauma nas relações sino-japonesas: o Estupro de Nanquim” você tem dois caminhos a seguir:

  1. Aprofundar a sua pesquisa e mergulhar de cabeça no mundo acadêmico;
  2. Esquecer o nome do presidente da China.

12345Não há meio termo para o pós-estruturalismo* e quem usa teorias da psicanálise na monografia de RI é uma pessoa intensa, de extremos, de paixões.

            Acabo de concluir em dezembro o meu mestrado. Olha só! Fiz mestrado… Em gestão internacional do luxo no Instituto Francês da Moda. Em muitos casos esse tipo de decisão, mudar de área profissionalmente, carrega um gostinho de arrependimento: “Escolhi a faculdade errada”; “por que não fui estudar isso logo de cara?”; “Tarde demais?”.

12345Farei aqui uma afirmativa ousada: Em RI isso não pode acontecer. Para explicar, farei uma afirmativa ainda mais rebelde: RI não serve para nada na vida corriqueira de quem não faz parte dos processos de tomada de decisões dos atores do sistema, é inútil tentar entender os conflitos do mundo. Agora grito: O conhecimento não é servil! Nada do que você aprende precisa carregar uma utilidade prática, o conhecimento não tem que estar à serviço de algo ou alguém, além de fazer você, você mesmo. O que você sabe te define (a não confundir com “o que você não sabe te define”, essa sim é uma afirmativa arrogante e péssima) e ninguém sabe que caminho eu teria traçado se não tivesse estudado RI.

12345Quem fez RI pode fazer tudo porque quem estuda questões complexas de interações humanas mais complexas ainda aprende a pensar. Acho um saco sentir a obrigação de entender profundamente todos os lados de um conflito (estou numa fase que acho que RI se resume a conflitos), vivemos em uma era de inundação de informações, tudo é muito intenso e essa graduação aflorou em mim uma capacidade de análise crítica com diferentes lentes, e essa capacidade sim é servil e me é útil. Sou mais humana porque fiz RI, sou mais questionadora e mais tolerante porque fiz RI, descobri o que não me faz feliz porque fiz RI (e isso já é um grande passo rumo à descoberta da felicidade).

12345Existe um desencontro generalizado na definição da disciplina como graduação. Ao continuar “em humanas”, pude catar meu diploma e ir para o mestrado que escolhi; fazendo uso de uma retórica um tanto malandra, pode-se encaixar Relações Internacionais em qualquer requisito, e antes de me acusarem de descaração, lembro que para estudar o que te empolga você precisa de:

  1. um cérebro;
  2. saber estudar.

12345No caso, tenho os dois. Somos tão novos quando decidimos nossas graduações que seria uma ilusão ter que fazer da nossa formação a nossa profissão. Exitem os academicamente engajados, aqueles que se apaixonam pelo conteúdo além do processo e desenvolvem até um blog sobre o tema. Existem também aqueles que nada querem com o presidente da China mas não negam nunca de onde vieram e o como aprenderam a pensar o mundo de uma forma mais esperançosa.

            Atualmente, minha esperança é começar a trabalhar e me sentir mais dona do meu nariz, mas é um desafio sem preconceitos: pega qualquer um, seja lá sua formação.

            * Uma teoria bem louca muito baseada em abstração, representação e interpretação, buscando alternativas retóricas para o entendimento de construções sociais.

Ana Luiza é uma baiana otimista que vive de paixões. Ao completar 25 anos começou a entender porque o povo adora esconder a idade.

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Um comentário sobre “Sem traumas

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