O Celeiro da Europa e o Massacre de Holodomor.

por Louise Marie Hurel

12345Sentamos em uma cadeira como observadores e atores na peça da vida. Em nosso mundo, nossa microesfera de realidade, somos protagonistas, figurantes, diretores, produtores e assistentes ao mesmo tempo. Esse palco complexo e vivo, chamado vida, já presenciou momentos marcantes de bonança e de turbulência. Ficamos chocados e pasmos ao nos depararmos com atrocidades como o genocídio de Ruanda, Bósnia e a Armênia (que acabou de completar 100 anos). Todavia, poucos são os que conhecem a história de Holodomor. Sendo assim, o papel desse post é de trazer ao leitor a oportunidade de conectar com um caso grandemente desconhecido: o massacre de Holodomor, em 1933 na Ucrânia.

12345Ao longo de sua história a Ucrânia foi, e é, um território grandemente disputado. A Ucrânia é, por definição e por construção histórica, considerada uma fronteira. Sendo rica em cereais, o país se consolidava como uma fronteira entre países que buscavam acesso a grãos e alimentos. Além disso, desde o Império Rus de Kiev (800) até os dias de hoje vemos como a região é campo de influência russa (mesmo possuindo resistências e quiçá inimizades nessa relação). Com o Tratado de Pereiyaslav na década de 1650, a Ucrânia passou do domínio Polonês para a influência e dominação russa. A partir de então, as histórias da Ucrânia seriam grandemente vinculadas ao Império Russo. Mesmo em meio a tensões entre Rússia e Ucrânia, um dos momentos marcantes do desentendimento relacional entre ambos se deu em 1932-1933 com o massacre de Holodomor.

12345Mesmo sendo grandemente adorado e contemplado, Stalin utilizava a Ucrânia como provedora de autossuficiência alimentar do país (Rússia). O sistema, por ele implementado, foi o de promover uma coletivização da agricultura, fazendo com que houvesse maior controle por parte da grande Rússia, irmã soviética, na administração dos grãos. Parcelas da população se ergueram contra essa coletivização (provavelmente grande parte, pois dependiam do trabalho nas áreas de produção). Um processo brutal se deu nesse momento, famílias, crianças, mulheres e homens eram forçosamente tirados das terras (se não assassinados) e jogados em lugares remotos da Rússia.

12345Gradualmente, enquanto Stalin buscava sufocar o movimento (por vezes visto como) nacionalista, criava-se uma bolha artificial de fome no grande celeiro da Europa (Ucrânia) através da canalização cada vez maior da produção para a Rússia. Sufocando o espaço, sufocando o alimento, sufocando o ar, sufocando a vida. Estima-se que entre 3-4 milhões de pessoas morreram devido à fome – o equivalente a mais de um terço da população.

Até hoje Holodomor permanece esquecido, abafado, sufocado, apagado, desconhecido…

A Rússia não reconhece esse evento como genocídio…

A foto acima retrata a morte como um fato do cotidiano, como algo comum dentro da Ucrânia.

12345Seria esse ato tabelado como genocídio, me pergunto. Mesmo sabendo que uma das primeiras definições de genocídio surgiu com Raphael Lemkin em 1944 e a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio é de 1948, ao olharmos para o passado, identificamos esses resquícios do que foi posteriormente regulado (em certa medida) pela palavra genocídio.

12345Deixo, portanto, um poema de Manuel Bandeira para refletirmos sobre o esquecimento histórico e os gritos abafados, os relatos, o canibalismo, os nomes que nunca ouvimos falar…

A MORTE ABSOLUTA – Manuel Bandeira

 

Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.

 

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

A exangue máscara de cera,

Cercada de flores,

Que apodrecerão – felizes! – num dia,

Banhada de lágrimas

Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

 

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

 

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

A lembrança de uma sombra

Em nenhum coração, em nenhum pensamento,

Em nenhuma epiderme.

 

Morrer tão completamente

Que um dia ao lerem o teu nome num papel

Perguntem: “Quem foi?…”

 

Morrer mais completamente ainda,

– Sem deixar sequer esse nome.

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