Saber o que escrever, não saber o que escrever, “será que as pessoas se importam?” e política internacional

por Thaís Queiroz

Ufa! Que título grande. Mas é isso aí: temos um blog sobre Relações Internacionais, cada um escreve em um dia, chegou sua vez de novo. Sobre o que escrever?

Semana passada o período ensandecido de provas terminou e com isso o cérebro pôde descansar e voltar a pensar de maneira mais arejada. Com os ventos que sopram do sul (mesmo aqui não sendo Florianópolis – risos), refleti um pouco sobre “o que estou fazendo da vida”, o que consequentemente me levou a pensar “o que estou fazendo da vida com essa tal de RI”.

“AI SOCORRO!! O MUNDO TEM PROBLEMA DEMAIS, AS PESSOAS SE MATAM, TODO MUNDO SE ODEIA, CADÊ O AMOR?! SOCORRO, NÃO QUERO MAIS! PARA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER, POR FAVOR!” – Foi mais ou menos isso que o meu cérebro gritou em uma noite qualquer do período de provas, nas quais escrevi sobre violência, sobre consequências de processos de construção de identidades na vida das pessoas, sobre conflitos e resolução de conflitos… E também o simples fato de viver no Rio de Janeiro, que me faz, constantemente, ficar refletindo sobre essa imensa desigualdade social e essa quase que loucura que paira no ar (digo isso pensando mais especificamente em um homem de roupas rasgadas com o qual cruzei indo para o ensaio de ballet, que estava em pé no meio da calçada gritando muito forte palavras desconexas. – Mas também ao estresse que o mau funcionamento dos sistemas aqui nos leva a sentir).

Parece meio sem noção, mas foi mais ou menos nessa linha de pensamento (ou falta de linha, substituída por óbvio desespero) que comecei a refletir por que diabos eu escrevo em um blog. Cara, você tem um blog sobre Relações Internacionais com seus amigos. Mas O QUE isto ajuda a melhorar os problemas do mundo?! Ah, oui, a tal da serventia de tudo que se faz (que a linda da Ana Luiza descreveu em seu texto aqui). “É muito fácil ficar escrevendo no ar condicionado da biblioteca na Gávea enquanto o mundo está explodindo e as pessoas estão morrendo”. Sim, é bem fácil, na verdade.

Mas aí eu vejo um vídeo desse:

Este vídeo mostra pessoas que vão comprar camisetas por 2 euros, mas ao saberem que quem as faz é uma mulher, entre milhões, que trabalha 16 horas por dia para ganhar 13 centavos por hora, as pessoas desistem de comprar. Até aí “”“tudo normal””” para mim. O que me fez cair de novo em turbilhão de pensamentos foi a frase final, que diz “As pessoas ‘ligam’/se preocupam/se importam quando elas sabem” (No inglês, “People care when they know”). Será mesmo verdade? Pensei nas barbáries incontáveis que as notícias nos trazem diariamente. Na falta de noção que enxergamos todo dia na nossa frente, no viés bizarro que muitas análises da realidade tomam. Com tudo isso nos bombardeando o tempo todo, as pessoas continuam fazendo bizarrices que não consigo descrever!! Como é possível?! Mas aí pensei: com tudo isso nos bombardeando? Que as notícias nos trazem? Que enxergamos? — Ou que eu enxergo? Que me bombardeiam? Que são trazidas a mim?

Quanto sofrimento não causamos por desconhecimento? Quanto eu não faço de errado por não conhecer?

“AS PESSOAS SE IMPORTAM QUANDO ELAS SABEM”

..

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           Hoje me vi sentada no bosque da faculdade pensando “sobre o que escrever para o post desta quinta?”. Este não é um sentimento comum, devo registrar. Normalmente as ideias são múltiplas e o sentimento é mais o de ter que selecionar um tema entre vários. Mas hoje não, desta vez foi um sentimento de “não saber o que escrever”.

Será que as pessoas se importam?

         O momento de crise fez eu me questionar sobre isto. No entanto, depois de alguns desabafos com amigos – alô Furor -, percebi que as pessoas se importam, sim, com certas questões emblemáticas: trabalho análogo à escravidão na Indonésia, crianças passando fome na Etiópia, cenários de extrema seca no nordeste brasileiro ou na Somália. Sim, as pessoas se importam. Mas o quanto refletimos sobre outros cenários ao nosso redor? O quanto sabemos verdadeiramente a respeito deles? O quanto sabemos sobre o que está por trás de tantos casos? “Favelado!”, “Terrorista!”, “Bandido!, “Pivete!”. Será que paramos para enxergar quantas histórias existem detrás? Será que há uma reflexão sobre a conjuntura que levou àquilo?

        Foi aqui que percebi por que tantas vezes sei o que escrever. Desta vez, o sentimento foi de “não saber o que escrever”, mas há muitas vezes em que sabemos o que e sabemos o porquê. Nestas vezes, eu escrevo porque me importo. E porque sei que há muitos comigo, que também se importam. Mas que há muitos também que não se importam porque não sabem, assim como há muito com o que eu não me importo, simplesmente porque não sei.

         Então mesmo escrevendo do ar condicionado da Gávea, também estamos refletindo – o importante é não deixar esta reflexão morrer ali. É levar esta discussão para fora do ambiente universitário e para fora dos nossos computadores. Então mesmo hoje o sentimento tendo sido o de “não saber o que escrever”, escrevi para desabafar e para lembrar que política (internacional ou não) é feita no dia a dia, de pouquinho em pouquinho, nunca sozinho. E que é importante não a deixarmos presa em bolhas isoladas, mas que é importante discutirmos isto aqui neste ambiente também. A política é feita de gente como a gente, e a gente muda o mundo com uma coisa de cada vez. Só é preciso ter força de vontade.  E então? Vamos refletir?

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3 comentários sobre “Saber o que escrever, não saber o que escrever, “será que as pessoas se importam?” e política internacional

  1. Thaisinha, um moço que considero bastante foi um dos autores de uma página para informar sobre o que acontecia nos bastidores da greve da unesp de bauru. Ele achava que a única coisa que faltava às pessoas era informação e assim elas perceberiam a gravidade da situação e se mobilizariam. A página foi uma chuva de likes. É ótimo levar a informação, mas não passou muito disso. Infelizmente falta vontade, falta empatia. Mas não dá pra desanimar, se não a gente para de se mexer!

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    • Muito obrigada, Dani!
      É exatamente isso: não podemos jamais deixar de atuar e precisamos seguir firmes, com um passinho de cada vez, mas constante. E sei que tu fazes parte dessa mudança que a gente quer ver 😉
      A questão é continuar dando forças uns aos outros sempre, porque o caminho é longo e nada fácil! Mas vamos nessa 😉

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  2. Pingback: Reflexos e Reflexões | O Furor

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