Os talheres de metal e o Pós-Pós-11 de Setembro

por Franco Alencastro

Às vezes, os acontecimentos mais anódinos podem provocar uma reflexão sobre o mundo que nos cerca. Foi o que aconteceu comigo da última vez que pisei num avião – mais especificamente, um voo de Lisboa para o Rio de Janeiro.

Estava assistindo “Vício Inerente” e tentando tirar algum sentido da trama sem pé nem cabeça do filme, quando a aeromoça gentilmente perguntou se gostaria de uma refeição de carne ou peixe. Porque era um voo da TAP (a companhia aérea portuguesa) escolhi o peixe, ora pois.
Minha surpresa veio junto com a bandeja. Dentro de um saco de plástico, estavam dois talheres de metal.
Talheres de metal e voos internacionais não costumam se dar bem. Se você viajou para fora em algum ponto dos últimos 14 anos, talvez tenha notado o crescente aparato de segurança cercando a maioria dos voos: Scans de corpo inteiro, revistas, tirar os sapatos…

Eu acho que não vai surpreender ninguém se eu disser que essas medidas são, em grande parte, uma resposta direta aos atentados do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque. Suas mais de 3000 vítimas diretas (além de incontáveis vítimas indiretas até hoje, principalmente no Afeganistão e no Iraque) ocasionaram uma escalada securitária nos EUA, logo seguida por todo o mundo. “Never again”, foi dito à época, e essa frase se converteu em uma série de decisões práticas, que vão desde o aumento exponencial das agências de informação no mundo até algo tão simples e trivial como uma faca de metal: Na época, julgou-se que um terrorista mal-intencionado (seria esse um pleonasmo?) poderia usar a faca para ameaçar os tripulantes e tomar conta do avião. Os utensílios de mesa, assim, foram securitizados, e sumiram da maioria dos voos, sendo substituídos por equivalentes de plástico.
É por isso que seu reaparecimento pode indicar mais do que a gente imagina. Será que a poeira da paranóia da Guerra ao Terror finalmente está baixando? Sem dúvida, é uma perspectiva que vem se desenhando desde a morte de Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda e mentor dos ataques do 11 de Setembro, em 2011, pouco antes do aniversário de 10 anos do ataque. Já na época, eu sentia que algo havia mudado no mundo, da noite pro dia, de forma tão simbólica como ocorrera com os ataques 10 anos antes: Estávamos entrando no mundo “Pós-pós 11 de Setembro”, e a Guerra ao Terror passaria dos noticiários para a história, agora que o homem que a começara estava enterrado nas profundezas do Oceano Índico.
Talvez, na época, tenha sido ingênuo: Afinal, os ataques de Boston, do Boko Haram na Nigéria, na Austrália e contra o jornal Charlie Hebdo em Paris (além, é claro, das vívidas reações que suscitaram na mídia ocidental) parecem mostrar que o terrorismo, em particular aquele inspirado pelo Islamismo rigorista, está bem vivo. Ainda assim, talvez essa faca solitária que encontrei junto à minha refeição mostre que haja uma reação ocorrendo lentamente por debaixo dos panos (ou seria dos guardanapos?), subvertendo as, erm, “conquistas” da Guerra ao Terror, começando pelas mais discretas e, portanto, menos capazes de gerar comoção. A Guerra do Terror talvez termine vencida pela indiferença.
Ou ainda, é possível que certos cacoetes e reações mais inspiradas por pânico do que uma séria avaliação dos riscos do terrorismo estejam ficando para trás (Afinal, o indivíduo com a intenção de tomar o controle de um avião certamente virá preparado com algo mais potente que uma faca de cozinha, certo?). Em suma, se o novo paradigma securitário veio pra ficar – e eu tenho sérias dúvidas quanto a isso, já que nada dura para sempre – estamos passando por uma redefinição do mesmo. Muito se fala, hoje, de “Smart power” das potências¹, por oposição tanto ao “Hard power”, caracterizado pela força militar, quanto ao “Soft Power”, o poder e a influência que uma potência conquista pela cultura. O “Smart power” emerge como uma terceira abordagem, que se caracteriza pela combinação “inteligente” das duas dimensões de poder. Aonde quero chegar com essa analogia? Bom, talvez a reação ao terrorismo esteja apenas ficando menos “hard”, e mais “smart”, conforme as políticas vão amadurecendo e o calor do momento vai passando.
Ah, o peixe também estava gostoso.
¹. O conceito de Smart Power, bem como o de Soft Power, foram elaborados pelo acadêmico americano Joseph Nye. Nesta coluna, optei por dar uma torcida em seu conceito: “smart” aqui, é uma reação que se baseia no pragmatismo e na eficiência de uma medida, por oposição às reações impulsivas que tendem a imperar diante de uma ameaça existencial.
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