Pelo Jogo. Pelo Mundo. – Parte 1

por Julia Zordan e Maiara Folly

Na última quarta-feira, uma operação especial das autoridades suíças, sob liderança da Agência Federal de Investigação dos Estados Unidos (FBI, na sigla em inglês) e coordenada pela Procuradora-Geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, culminou na prisão de sete executivos da Federação Internacional de Futebol (FIFA, na sigla em inglês) sob a acusação de corrução, entre eles, José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Em nota, o Departamento de Justiça dos EUA apontou 14 réus, acusados, dentre outros delitos, de extorsão, fraude e conspiração para lavagem de dinheiro. Nas palavras da Procuradora-Geral Lynch, o esquema que envolveu US$150 milhões, sugere que a corrupção na FIFA é “desenfreada, sistêmica e tem raízes profundas” [1].

De fato, a corrupção na FIFA e na CBF não é fenômeno novo ou desconhecido. Os relatos foram inúmeros. Já as punições, insignificativas. Apenas após investigação internacional bilionária medidas mais fortes foram tomadas. No Brasil, por exemplo, se estabeleceu imediatamente a CPI da CBF [2]. Ainda assim, alguns nomes restam ilesos. No âmbito internacional, Joseph Blatter [3], conseguiu ontem seu quinto mandato consecutivo como Presidente da FIFA. No plano brasileiro, figuras como a de Ricardo Teixeira permanecem sem ser investigadas.

Nos últimos anos, as duas organizações (FIFA e CBF) vêm sendo constantemente acusadas de irregularidades na administração de seus eventos. No caso da FIFA, foram inúmeras denúncias atreladas às organizações das Copas do Mundo da África do Sul, em 2010, e do Brasil, em 2014. A escolha do Qatar como sede da Copa do Mundo de 2022 também gerou polêmica. No Brasil, questões ilícitas vêm sendo denunciadas na atual investigação envolvendo as copas do Brasil e Libertadores da América. Estas suspeitas de irregularidades já haviam repercutido inclusive na imprensa internacional, como em junho do ano passado, quando o tema da Copa do Mundo foi abordado pelo comediante americano John Oliver [4]:

O escândalo de corrupção recém descoberto frustrou os que enxergavam o futebol como fenômeno apolítico, de cunho estritamente esportivo e cultural. O episódio vexatório envolvendo a FIFA – além de evidenciar o caráter político e econômico inerentes à indústria futebolística – exacerbou feridas da geopolítica internacional.

Com a anexação da Crimeia pela Rússia, o ocidente, sobretudo os EUA, exerceram pressão para que a Copa de 2018 fosse transferida de lugar. Em apelo formal à FIFA, senadores republicanos citaram a exclusão da antiga Iugoslávia da Euro 1992 e da Copa de 1994 por conta das guerras nos Bálcãs [5]. Em seguida, o presidente da entidade máxima do futebol nos Estados Unidos chegou a dizer que “se os Russos não pudessem, os Estados Unidos assumiriam já o Mundial de 2018” [6]. Em discurso em tom semelhante ao que costumam adotar em reuniões do Conselho de Segurança da ONU, políticos russos pediram a exclusão dos norte-americanos da Copa, devido ao seu papel nos conflitos de Iraque, Líbia e Síria.

A operação liderada pelo FBI pôs fim a uma discreta esperança – gerada após a recente visita do Secretário de Estado americano John Kerry à Rússia, a primeira desde o início do conflito no leste ucraniano – de que as seleções russas e americanas se preparavam para um enfrentamento mais amistoso. Em reação ao pedido de extradição de funcionários da FIFA pela Agência Federal de Investigação norte-americana, o presidente russo Vladmir Putin acusou os Estados Unidos de grave violação dos princípios de funcionamento das organizações internacionais, ao tentarem, nas palavras de Putin, “impor sua jurisdição aos demais países” [7]. O presidente russo considerou as detenções de altos responsáveis por corrupção como uma tentativa clara de impedir a reeleição como presidente da FIFA de Joseph Blatter, que teria resistido às pressões para impedir a realização do Mundial de Futebol na Rússia. Blatter afirmou, inclusive, que quem não estivesse satisfeito com o Mundial na Rússia deveria “ficar em casa”.

Em alusão a um gol marcado em 2013, ao conceder asilo a Edward Snowden, ex-técnico da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês) – possibilitado por um belo passe dos chineses, que rejeitaram pedidos de extradição e permitiram a fuga do americano do aeroporto de Hong Kong para Moscou [8] – Putin reviveu uma derrota amargamente sentida pela administração Obama, que teve prestígio abalado diante da comprovação da espionagem pelos Estados Unidos de chefes de Estado e de governos ao redor do mundo, incluindo de países aliados. Em referência direta a Snowden, Putin afirmou que os norte-americanos costumam perseguir pessoas ilegalmente para atingirem objetivos egoístas. Na visão do presidente, o pedido de extradição de autoridades da FIFA seria mais um sintoma do egoísmo estadunidense [9].

Na dinâmica internacional, o efeito da disputa entre atores globais (global players) costuma afetar os jogadores reserva. Durante a Guerra Fria, o embate entre duas superpotências eram sentidos de maneira quente nos países de terceiro mundo, palco de guerras por procuração (do inglês, proxy wars), nas quais Estados Unidos e União Soviética financiavam o combate entre governos nacionais e/ou grupos insurgentes de maneira a evitarem a luta direta. Hoje, as desavenças entre os EUA e Rússia engessam agendas do Conselho de Segurança da ONU. O uso indiscriminado do direito ao veto impossibilita soluções multilaterais para problemas que dizem respeito à paz e segurança internacional, como a guerra civil na Síria e o conflito Israel-Palestina.

No episódio FIFA, o cartão vermelho foi amplamente distribuído aos jogadores latinos. Dentre os 14 réus, 11 são provenientes do “Sul”, apenas um americano e dois britânicos constam entre os acusados. O escândalo afeta diretamente países em desenvolvimento que deveriam se beneficiar dos recursos gerados pelo esporte. O resultado deste repulsivo jogo milionário não será imediato, teremos o segundo tempo, quem sabe a prorrogação. Enquanto isso, devemos comemorar o único gol da partida, marcado por Loretta Lynch, primeira mulher negra a ser Procuradora-Geral dos Estados Unidos – que, um mês após assumir o cargo, escancarou a corrupção na FIFA. Com o feito, Lynch consagrou-se como autora de um lance que ofusca qualquer jogada de Marta, Zico, Messi ou Pelé. Um golaço, que confirma o evidente: a política e o futebol, são sim, assuntos de mulher.

Referências:

[1] STOURTON, Ed. Quem é Loretta Lynch, a secretária de Justiça que escancarou a corrupção na Fifa. BBC News. São Paulo, 28 maio 2015. Disponível em: < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150528_conheca_loretta_lynch_fifa_corrupcao_lab>. Acesso em 28 de maio 2015.

[2] LIMA, Maria. Romário protocola requerimento para criação da CPI da CBF no Senado. O Globo, Rio de Janeiro, 27 maio 2015. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/esportes/romario-protocola-requerimento-para-criacao-da-cpi-da-cbf-no-senado-16279629>. Acesso em: 28 maio 2015.

[3] GOFF, Steven. FIFA chief distances himself from scandal before election. The Washington Post, Washington D.C., 28 maio 2015. Disponível em: <http://www.washingtonpost.com/sports/head-of-crisis-battered-world-soccer-keeps-low-profile-as-leadership-in-question/2015/05/28/87af2f52-051f-11e5-8bda-c7b4e9a8f7ac_story.html>. Acesso em: 28 maio 2015.

[4] LAST WEEK TONIGHT WITH JOHN OLIVER. Last Week Tonight with John Oliver: FIFA and the World Cup (HBO). YouTube, Mountain View, 8 jun. 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=DlJEt2KU33I>. Acesso em: 27 maio 2015.

[5] ANISHCHUK, Alexei. Putin espera que Rússia não perca direito de sediar Copa de 2018. Reuters Brasil, São Paulo, 29 ago. 2014. Disponível em: <http://br.reuters.com/article/sportsNews/idBRKBN0GT26D20140829>. Acesso em: 28 maio 2015.

[6] GLOBOESPORTE.COM. Federação dos EUA: “Caso Rússia não possa sediar Copa, nós a queremos”. Globo Esporte, Rio de Janeiro, 5 set. 2014. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2014/09/federacao-dos-eua-caso-russia-nao-possa-sediar-copa-nos-queremos.html>. Acesso em: 27 maio 2015.

[7] KORSUNSKAYA, Darya. Putin diz que caso Fifa mostra interferência dos EUA fora de jurisdição. R7 Notícias, São Paulo, 28 maio 2015. Disponível em: <http://noticias.r7.com/brasil/putin-diz-que-caso-fifa-mostra-interferencia-dos-eua-fora-de-jurisdicao-28052015>. Acesso em: 28 maio 2015.

[8] EFE. Hong Kong ignora pedidos dos EUA e permite fuga de Snowden a Moscou. Terra, Porto Alegre, 23 jun. 2013. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/mundo/estados-unidos/hong-kong-ignora-pedidos-dos-eua-e-permite-fuga-de-snowden-a-moscou,f3ec6d53bbb6f310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html>. Acesso em: 27 maio 2015.

[9] EFE. Putin: EUA procura com caso FIFA os mesmos interesses que com Snowden. Terra, Porto Alegre, 28 maio 2015. Disponível em: <http://esportes.terra.com.br/futebol/putin-eua-procura-com-caso-fifa-os-mesmos-interesses-que-com-snowden,3b30a44782cfd63f68046c3dafa8b9a4b50xRCRD.html>. Acesso em: 28 maio 2015.

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5 comentários sobre “Pelo Jogo. Pelo Mundo. – Parte 1

  1. É reconfortante ver corruptos sendo revelados e punidos.
    É motivo de orgulho ver uma mulher em papel de destaque e produzindo resultados.
    É inocência demasiada alguém crer que qq atitude seja apolítica.
    Os EUA afirmam seu direito de investigar sempre que os criminosos (ou suspeitos) utilizarem o sistema financeiro americano.
    Ok. Investigar. Mas os crimes foram contra o sistema financeiro americano, de modo que os culpados sejam extraditados para os EUA?
    Não entendi muito bem essa parte. Não sou da área. Vcs analisaram este ponto?

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  2. Realmente, acho que não entendi o direito que os EUA entendem ter nessa situação para pedir extradição. O crime por acaso se deu em solo americano?
    Tem algo a entender aqui? Ou é só a aparentemente inesgotável capacidade dos EUA de cagar regra?

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    • Bom, eu acho que consigo responder essa. Pelo que eu vi, essa investigação começou nos EUA quando um ex-membro do Comitê Executivo da FIFA, o americano Chuck Blazer, foi processado por corrupção em 2013. Assim, não só a investigação começou com um americano como também o dinheiro desse esquema estava passando pelos EUA (e provavelmente muito mais também estava) isso então deve lhes dar permissão de conduzir esse processo para além das suas fronteiras, uma vez que contas americanas estavam sendo usadas. Bom, eu acho que é isso.

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