Pelo Jogo. Pelo Mundo – Parte 2

por Julia Zordan e Maiara Folly

Certa vez, voltando de um intercâmbio de curta duração, tive o prazer de estar no mesmo voo da seleção brasileira de futebol, que retornava de um amistoso na França. Durante o voo, conversei com as jogadoras sobre a condição do futebol feminino no Brasil. Bom, sempre soube que a categoria feminina pouco  era valorizada no país. Acreditava, porém, que a realidade das jogadoras da seleção fosse um pouco diferente. Para ilustrar o descaso com nossas craques, mencionarei dois pequenos trechos de nossa conversa.

“Ficamos com o coração apertado quando nos pedem uma camisa de uma de nossas partidas, somos obrigadas a negar. Não podemos dizer, mas a verdade é não podemos guardar a camisa para gente, temos que devolver para usar no jogo seguinte. O uniforme da seleção, que precisamos vestir quando estamos em grupo, não podemos levar pra casa. Depois de horas de voo, antes de nos separarmos, precisamos ir ao banheiro, trocar de roupa e devolvê-lo”

“Só nos noticiam quando vamos às finais, fora isso, dependemos da Marta, que tem amigos jornalistas, e que pede para tentem divulgar as nossas partidas”.

Comentando o caso com a Julia, chegamos a conclusão: precisamos escrever sobre futebol feminino.

Precisamos falar sobre o futebol feminino. O Brasil tem Martas e Cristianes, mas valoriza Neymares e Ronaldos – vejam bem, o argumento não é o de que eles não devem ser valorizados. É o de que o futebol feminino também precisa ser. Há um número gigantesco de coisas erradas com a atual estrutura do futebol masculino no Brasil e que devem ser consertadas. Os jogadores que decidem permanecer no campeonato nacional precisam ser mais valorizados, as confederações precisam ter menos poder, enfim… a lista é longa, não caberia em um só post. Dentre as inúmeras questões que precisam ser reformuladas no futebol brasileiro, a valorização do futebol feminino é uma delas. Em reação a esta série de problemas, a polêmica Medida Provisória (MP) do Futebol [1] está para ser votada. A MP traz uma série de alterações a serem adotadas pelas federações e pelos clubes, incluindo o incentivo ao futebol feminino. Ainda que esse incentivo seja mínimo [2]. Ainda que haja a tendência de não-cumprimento da MP [3].

Precisamos falar sobre Joseph Blatter, que, na semana passada foi reeleito para seu quinto mandato como presidente da FIFA. Em 2004, Blatter foi perguntado sobre quais seriam as medidas ele achava que poderiam ser tomadas para que o futebol feminino fosse incentivado. A resposta, não poderia ser mais repulsiva: “talvez devessem usar shorts mais apertados, roupas mais parecidas com as do vôlei”, disse Blatter. [4]

“’They could, for example, have tighter shorts,’ Blatter remarked at the time. ‘Female players are pretty, if you excuse me for saying so, and they already have some different rules to men – such as playing with a lighter ball. That decision was taken to create a more female aesthetic, so why not do it in fashion? ‘Let the women play in more feminine clothes like they do in volleyball.’”
“‘Elas poderiam, por exemplo, usar shorts mais apertados’, disse Blatter à época. ‘As jogadoras são bonitas, se você me permite dizer, e elas tem algumas regras diferentes das dos homens – como jogar com uma bola mais leve. A decisão foi tomada para criar uma estética mais feminina, então por que não fazê-lo na moda?’
‘Deixem que as mulheres joguem em roupas mais femininas, como fazem no voleibol’” (tradução livre)

Precisamos falar sobre Loretta Lynch. Há menos de um mês no cargo de Procuradora-Geral dos Estados Unidos, Loretta foi a responsável pela revelação do escândalo de corrupção na FIFA na semana passada. Ela assumiu a liderança de uma investigação internacional sobre um assunto que dizem ser “assunto de homem”. Até poucas semanas, o nome de Lynch mal era mencionado, apesar de ela ser a segunda mulher a ocupar o cargo de Procuradora-Geral dos Estados Unidos – e a primeira mulher negra a fazê-lo. O reconhecimento público e internacional dela veio após sua coordenação de uma investigação sobre futebol, “assunto de homem”: [5]

“To the names of Pele, Maradona, Cruyff and Messi, add another: Loretta Lynch. The US attorney general, confirmed by the Senate just three weeks ago by the most un-soccer-like score of 56-43, is destined to go down as the most consequential woman in the history of the game.”
“Aos nomes de Pelé, Maradona, Cyruff e Messi, adicione-se outro: Loretta Lynch. A Procuradora-Geral dos Estados Unidos, confirmada no Senado há apenas três semanas pelo placar mais dispare dos de futebol de 56-43, é destinada a ser colocada como a mulher mais consequencial da história do jogo”.

Precisamos falar que o mundo do futebol é dominado pelos homens, mas que cada vez mais as mulheres vêm ganhando espaço. É verdade que os cargos mais importantes dentro das federações – sejam elas nacionais ou internacionais – não são ocupados por mulheres. É verdade também, que não há incentivo ou patrocínio ao futebol feminino. Mas o fato de haver críticas às posturas sexistas de Blatter – seja em suas declarações, seja em seus posicionamentos em relação às colegas de trabalho dentro da própria FIFA [6] – indicam  avanço, ainda que incipiente. As críticas relacionadas à falta de espaço para o futebol feminino vão ganhando algum espaço. No Brasil, a inserção do futebol feminino na MP do esporte desperta uma modesta esperança. Finalmente, o fato de uma mulher ter conduzido uma investigação internacional com tamanha importância e repercussão, abalando as estruturas mais profundas da principal organização de futebol do mundo, mostram que o futebol, é sim, lugar de mulher. É lugar de homem. É lugar de quem quiser.

Referências:

[1] TERRA. Bom Senso aproveita escândalo para pedir aprovação de MP. Terra, Porto Alegre, 27 maio 2015. Disponível em: <http://esportes.terra.com.br/futebol/bom-senso-aproveita-escandalo-para-pedir-aprovacao-de-mp-do-futebol,1cf41f5bfb35d95e2cf620580d7f8424g0dfRCRD.html>. Acesso em: 30 maio 2015.

[2] ANJOS, Márvio dos. Futebol feminino a uma hora dessas? Globo Esporte, Rio de Janeiro, 9 abr. 2015. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/marvio-dos-anjos/post/futebol-feminino-uma-hora-dessas.html>. Acesso em: 30 maio 2015.

[3] BARSETTI, Silvio. Vice da CBF diz que nenhum clube vai aderir à MP do Futebol. Terra, Porto Alegre, 14 maio 2015. Disponível em: <http://esportes.terra.com.br/futebol/mp-do-futebol-delfim-peixoto-filho-diz-que-nenhum-clube-vai-aderir,7d9470d516b7ce5630bab1497c3824230a6vRCRD.html>. Acesso em: 29 maio 2015.

[4] LUCKHURST, Samuel. Fifa President Sepp Blatter Makes Sexist Remark At Congress. Huffington Post UK, Londres, 31 maio 2013. Disponível em: <http://www.huffingtonpost.co.uk/2013/05/31/sepp-blatter-sexist-comment_n_3365841.html>. Acesso em: 29 maio 2015.

[5] LORETTA Lynch: The woman who took on Fifa. BBC, Londres, 29 maio 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-europe-32912118>. Acesso em: 29 maio 2015.

[6] LOWENSTEIN, Fiona. Sexist FIFA President Sepp Blatter Has Made No Secret Of His Feelings About Women. Bustle, [S.l.], 6 out. 2014. Disponível em: http://www.bustle.com/articles/27547-sexist-fifa-president-sepp-blatter-has-made-no-secret-of-his-feelings-about-women. Acesso em: 29 maio 2015.

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5 comentários sobre “Pelo Jogo. Pelo Mundo – Parte 2

  1. Ia justamente comentar lá na Parte 1 que o comentário final sobre a Lynch, embora super pertinente, tinha ficado um pouco solto, considerando o resto o texto. Agora está explicado que era um gancho pra Parte 2 rsrs
    Ainda assim, acho que faltou mencionar que o Mundial Feminino começa essa semana (!!!) e quase nada se fala sobre.
    Mas, como vocês disseram, há alguns avanços. Semana passada a EA, uma das maiores empresas de video games esportivos, resolveu incluir seleções femininas no FIFA 2016, o mais conhecido jogo de futebol dos gamers, um ramo em que as mulheres também são excluídas e descriminadas. Talvez num futuro não muito distante, mulheres possam jogar, na vida real ou virtual, o esporte que tanto gostam sem todos os obstáculos impostos a elas hoje em dia.

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    • O gancho foi proposital, sim! hahaha
      Já tínhamos a intenção de trazer essa discussão em uma segunda parte do texto, por isso fizemos assim com o que falamos da Lynch na primeira parte.
      Em relação à Copa do Mundo, realmente, eu não vi nada na imprensa que fizesse menção a isso! É impressionante! Enquanto se fala desde já da próxima Copa masculina, da feminina, que é essa semana, não há notícias. É uma pena.
      Sobre o FIFA 2016, eu tinha ia colocar no texto, mas fui lembrando de várias outras coisas e isso acabou se perdendo na minha memória hahaha
      J.

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  2. Parabéns mais uma vez, pelo oportuna abordagem sobre a realidade do futebol feminino aqui no Brasil. Só acho que poderia aprofundar mais nas questões relativas a falta de investidor(empresa privada)!! Porque essa falta de interesse?? Porque dependemos só das Marthas?? etc…

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    • Acho que nesse caso temos um problema de ovo e galinha: é o desinteresse das empresas em anunciar o mundial feminino que faz com que ele seja pouco divulgado, ou é o (ainda) baixo interesse da maioria das pessoas que não motiva o investimento em publicidade?
      Na minha opinião, um pouco dos dois: parte considerável do público de futebol é masculino e tende a não ver o futebol feminino como ‘sério’; e, do lado das empresas, o fato da imensa maioria delas serem encabeçadas por homens certamente também não ajuda.

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      • Eu, particularmente, concordo com o argumento do Márvio dos Anjos, cujo link para o texto está nas referências deste post. Ele coloca que:
        “O que quero dizer é que não adianta rodar software novo numa máquina obsoleta. Se o futebol masculino do Brasil já é deficitário e perde público para os torneios europeus, é porque existe um problema estrutural. O prejuízo já é a realidade constante, e o resgate desse futebol masculino já é implorado há anos.
        Enquanto o futebol masculino não passar por uma reforma de pensamento que o permita crescer tanto na parte técnica quanto administrativa e que defenda a rentabilidade dos torneios e o conforto dos torcedores, obrigar os clubes a servir futebol feminino é tão utópico quanto um programa de colonização de Marte tocado por Aldo Rebelo.”
        Concordo com o Franco no que diz respeito à predominância da visão de que o futebol feminino não é “sério”, mas acredito que isso se deve em boa parte também a uma descrença no futebol masculino, no que o Márvio chama de “máquina obsoleta”. Acho que, havendo uma reforma de pensamento e de estruturação do futebol masculino, as empresas se sentirão mais incentivadas a investir tanto no futebol masculino quanto no feminino, e o público vai acompanhar esse crescimento do futebol feminino, também em termos de audiência, como já faz com o vôlei e o basquete feminino, por exemplo.

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