O Haiti é aqui: reflexões de uma visita a São Paulo

por Kayo Moura

Hoje, meu post não é nada mais que um relato, uma curta exposição, das experiências que vivi, ou melhor, da impressão que tive na minha segunda viajem à maior cidade do país, São Paulo. Nessa ocasião fui à São Paulo para acompanhar o Seminário Nacional sobre o Haiti: Construindo solidariedade, mas antes de falar do seminário, inicio este relato com uma frase que desafia os bairrismos – incluindo o meu próprio – além da clássica rivalidade entre Rio e São Paulo, e que por isso, muitos podem resistir a crer que a mesma tenha como emissor um orgulho carioca como eu. Contudo, contra todas essas tendências, sigo e afirmando, sem medo de retaliação: São Paulo é incrível!
Trata-se de uma cidade incrivelmente grande e diversa, mesmo sabendo que é a maior cidade do país, não há melhor forma de entender isso do que estando lá, vendo, vivendo e sentindo toda essa grandeza. Existe, em São Paulo, todo um mundo a ser “descoberto”, os bairros das comunidades de imigrantes, a diversidade evidente nos metrôs, nas ruas, na produção e expressão artística e cultural da cidade, as festas. Além é claro da rica contribuição intelectual e econômica que a cidade teve e ainda tem para o país. Estamos falando de uma cidade pulsante, viva, e que às vezes parece beirar o caos.
Entretanto, pelo mesmo motivo que me atraiu São Paulo também me chocou incrivelmente. Afinal, essa Megacidade mostra explicitamente para seus habitantes e visitantes todas as contradições e explorações características das grandes cidades e do modelo socioeconômico que vivemos. Os altos índices de violências, a imensa desigualdade social, a numerosa população em condição de rua, as cracolandias, a questão da migração vindos em grande número da África subsaariana, a exploração sexual, os subempregos, as inúmeras ocupações de prédios no centro urbano. Dessa forma, afirmo também e igualmente sem medo de represaria: São Paulo é incrivelmente desigual, violenta e exploradora.
Algumas semanas atrás, mais precisamente nos dias 22 e 23 de Maio, presenciei e vivi um pouco dessa complexidade de São Paulo quando fui para o “Seminário Nacional sobre o Haiti: Construindo solidariedade”. Estavam reunidos no seminário diversos setores da sociedade civil, movimentos sociais, organizações sindicais, movimentos de juventude, pastorais sociais e alguns haitianos, dentre os quais um representante da União Nacional dos Imigrantes Haitianos. Todos e todas reunidos em um grande espírito de solidariedade com a população haitiana, exigindo a retirada das tropas brasileiras do Haiti imediatamente. As palavras de ordem eram “Fora as tropas! Por um Haiti livre e soberano” e “pela autodeterminação do povo haitiano”.
Entre as ideias que basearam esse posicionamento estavam a compreensão de que: nunca uma ocupação militar trouxe benefícios ao povo ocupado; que a Missão das Nações Unidas no Haiti não serve aos interesses do povo haitiano, na realidade ela o reprime violentamente quando esse busca se manifestar; que a Missão da ONU serve para a manutenção das condições que permitem a mão de obra haitiana ser a mais barata do continente – são essas mãos que produzem as calças da Levi’s e os casacos do Pateta – e consequentemente não há, portanto o desejo de um Haiti efetivamente livre e soberano. Entretanto, para além de certezas, no seminário muitos questionamentos foram levantados. Principalmente no que tange o legado que esses 11 anos de ocupação deixarão para o Haiti. O que esse modelo de intervenção militarizada, com pouco espaço para participação local deixará para o povo haitiano, para além dos casos de violação de direitos humanos cometidas pelas tropas interventoras? Ao meu ver, essa é uma questão central, mesmo que possa ter dúvidas sobre alguns entendimentos compartilhados no seminário, pois pensar o legado que essa intervenção deixa para o país envolve refletir sobre o modelo de intervenção das Nações Unidas
Ainda na perspectiva da solidariedade, havia uma grande preocupação no seminário com a condição dos imigrantes haitianos no Brasil. Sem falar o idioma, sem conhecimento da sociedade brasileira e dos seus direitos, muitos com problemas de documentação (visto e passaporte) e com o descaso das autoridades públicas em todas as esferas, a condição da maioria dos haitianos e haitianas no Brasil é lamentável. As maiores dificuldade são relativas à moradia e emprego. Na primeira noite do seminário visitamos a Missão Paz que em São Paulo tem recebido e prestado auxílio aos haitianos e haitianas que chegam e/ou estão no Brasil. Contudo, sem qualquer auxilio do Estado, sem as instalações e preparo adequado para exercer tal serviço e com o constante fluxo de Haitianos e haitianas procurando a missão, já conhecida na comunidade de imigrantes, a igreja tem passado por grande dificuldade em sua obra, sem falar dos imigrantes. Nessa visita tinham 200 haitianos e hatianas recém chegados “morando” no salão da igreja e dividindo apenas um banheiro. As circunstâncias desse imigrantes no Brasil e a dificuldade em encontrar emprego faz com que se submetam a condições análogas à escravidão. Assim, esses migrantes acabam tendo seus sonhos de uma vida melhor frustrados pela dura realidade brasileira. Confrontados com essa situação, a exigência no seminário foi então que o Brasil adotasse uma política migratório pautada pela dignidade e Direitos Humanos para que o quadro geral desses e de outros tantos imigrantes que vivem no Brasil não seja mais permitido.
Ainda assim, mais do que tropas brasileiras no Haiti e imigrantes haitianos no Brasil, o seminário apontou para a realidade haitiana de brasileiros que vivem no Brasil. Esse é o caso das favelas do Alemão e da Maré que vivem sob ocupação militar. De acordo com Gizele, moradora e ativista pelo direito à comunicação comunitária, esta ocupação é muito semelhante à que ocorre no Haiti, seja pelo armamento e veículos, mas também pelo desrespeito aos direitos humanos, ao abuso de autoridade e ao desrespeito às comunidades locais.
Hoje, o primeiro país negro a se tornar independente no mundo tem sua soberania e independência limitadas, e como muitos lembraram, por tropas do “sul global”. Grande parcela de sua população que migra para o Brasil é negligenciada e esquecida pelo Estado brasileiro, que realiza o mesmo tipo de opressão contra a parcela pobre, negra, nordestina e excluída nas favelas do Rio. Em São Paulo pude então descobrir, mais do que uma Megacidade, a cidade conhecida como locomotiva econômica do país, conheci um pouco das contradições dessa cidade, conheci parte da realidade haitiana no haiti, conheci também parte da realidade dos haitianos no Brasil e além disso, (re)conheci através dos companheiros e companheiras da Maré e do Alemão que, como Caetano canta, o Haiti é aqui!

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