40 anos do início da Guerra Civil Libanesa: fraturas e cicatrizes

por Carol Grinsztajn

40lib

     No dia 09 de junho de 2015 O Furor realizou seu primeiro evento, o painel “40 anos do início da Guerra Civil Libanesa”, do qual tive a oportunidade de ser mediadora. O seguinte texto busca relatar e sintetizar algumas das discussões do painel e, ao mesmo tempo,  acrescentar algumas reflexões e análises sobre o tema. 

     Eu achei que sabia onde estava me metendo quando comecei a estudar o Líbano. Como descendente de libaneses, achava que me salvaria das escorregadas analíticas e como estudante de Relações Internacionais, achava que tinha os instrumentos necessários para compreensão.  Estava enganada. O Líbano apresenta uma série de desafios para os instrumentos tradicionais das Relações Internacionais, que entendem o Estado como unitário, racional, laico (na verdade, ao longo da graduação, me parece cada vez mais claro que nesse aspecto, ele não é uma exceção).

40libgroup

     O painel “40 anos do início da Guerra Civil Libanesa”, organizado pela equipe d’O Furor, surgiu dessa necessidade de buscar diferentes perspectivas sobre um assunto que reflete a complexidade libanesa, e ao mesmo tempo possui um impacto amplo e duradouro nas questões geopolíticas do Oriente Médio. Nossos três convidados tinham backgrounds bastante distintos: Nami Hanna é Secretário Geral da Liga Libanesa do Brasil e viveu no Líbano até 2000, quando se mudou em busca de refúgio para a Bulgária e depois para o Brasil; o contra-almirante da Marinha Brasileira Walter Eduardo Bombarda foi comandante da Força Tarefa Marítima da UNIFIL, a força de paz da ONU no Líbano; e  Márcio Scalercio é professor do IRI/PUC Rio e leciona, entre outras, a matéria de Oriente Médio no instituto, tendo publicado um livro sobre a região. Ao longo do evento, nossos convidados falaram sobre diversos tópicos que tentarei abordar em seguida, somados de algumas reflexões pessoais.

40libscar

            Primeiramente, concordamos que as tensões da Guerra Civil começaram muito antes de seu início formal em abril de 1975, com os embates entre milícias cristãs e palestinas no centro de Beirut. Entre os eventos que contribuíram para a eclosão do conflito podemos citar, ingerências coloniais francesas (como a própria demarcação de fronteiras entre territórios que favorecessem ao seu interesse mas não refletiam a organização política existente) e de outras potências externas, os problemas na partilha do poder político e a chegada de um grande número de refugiados palestinos.

A política libanesa era governada por um pacto não escrito (normalmente chamado Pacto Nacional) que  dividia o poder entre as grandes seitas religiosas com base no senso demográfico de 1932. Já existia, nesse momento, uma série de descontentamentos com a divisão do poder político, bem como com questões econômico-sociais. Diversos grupos dentro dessas seitas religiosas possuíam suas próprias milícias (como a Falange e os Tigres de Chamoun maronitas ou o movimento Amal, dos muçulmanos xiitas). Essas milícias frequentemente se enfrentavam (mesmo dentro de uma mesma seita religiosa) e ameaçavam a própria organização estatal libanesa. Como Hanna e Scalercio apontaram, a chegada dos refugiados palestinos após a Guerra Árabe-Israelense de 1948 e dos comandantes da Organização para a Liberação da Palestina (OLP) após o Setembro Negro jordaniano em 1970 somou tensões a esse quadro já bastante instável.

            Assim, me parece que as tensões que levaram à Guerra Civil Libanesa tocam em pontos relevantes que colocam questão a própria sustentação do Estado, como a existência das milícias (contrariando o teórico monopólio do uso legítimo da força pelos agentes do Estado),  as constantes violações à soberania libanesa, seja por potências externas à região como França e EUA, seja pelos vizinhos Síria e Israel, e o próprio debate em torno da natureza de uma identidade libanesa como tal.

     É interessante notar que o painel tinha como temática principal o início da Guerra Civil, porém referências às questões atuais libanesas foram recorrentes, talvez exatamente porque apesar de possuir um término formal, com o Acordo Taif em 1989, esse conflito se relaciona com as tensões atuais no país.

    A primeira questão é a continuação das tensões com Israel. Diante dos constantes ataques vindos do Sul do Líbano realizados pela OLP, Israel interveio diretamente com a invasão em 1982, e a permanência de suas tropas até 2000 (e depois com nova invasão em 2006). Essa ocupação prolongada e penosa- além do óbvio custo em vidas humanas- não só acaba sendo problemática para o exército e governo israelense (sendo fator importante para a saída do então primeiro ministro Menachem Begin) mas também cria as condições para o surgimento de grupos de resistência como o Hezbollah, entidade que hoje é parte do parlamento libanês, mas também, como aponta Scalercio, é um dos grupos terroristas mais bem treinados do mundo, e uma constante ameaça para a segurança do norte de Israel. Nesse sentido, as tensões na fronteira seguem sendo uma preocupação, fazendo com que desde 1978 a ONU mantenha tropas de paz na região: a UNIFIL, da qual o almirante Bombarda fez parte entre 2014 e início de 2015 e pôde contar algumas de suas experiências desse período.

     Outra questão é que o fim da guerra civil reitera o sistema confessional (ou seja, a divisão do poder entre seitas religiosas) que reforça as divisões sectárias e dá espaço para grandes instabilidades políticas. Já por mais de 1 ano, o parlamento não tem conseguido eleger um presidente (que deve, pelo acordo, ser cristão-maronita e contar com voto majoritário dos parlamentares) e a resolução de diversas questões (como o grande número de refugiados sírios, que já somam um terço dos habitantes do país) seguem em suspenso. A dificuldade de estruturação do poder político e militar acabam deixando o Líbano vulnerável à atuação de milícias e grupos terroristas como o ISIS e a proximidade com a Guerra Civil Síria só piora a situação.

     Diante desse quadro, me parece que infelizmente continuaremos de olho nos conflitos desdobrados em território libanês por mais algum tempo. Mas talvez seja interessante que possamos buscar instrumentos analíticos mais apropriados para compreender toda essa complexidade- comum a tantos aspectos das Relações Internacionais- instrumentos que nos permitam ir além das generalizações, simplificações e divisões sectárias. Esse, de fato, é um dos objetivos da equipe d’O Furor: tentar proporcionar diferentes perspectivas sobre questões internacionais que nos permitam ao mesmo tempo complexificá-las e torná-las mais acessíveis a um público mais amplo. E, como apontaram nossos palestrantes, enquanto nós nos desdobramos para dar conta de tanta informação sobre essa região tão rica e fascinante que já foi dominada por tantos povos e já passou por tantos conflitos, os libaneses seguem reconstruindo o Líbano  a cada abalo.

Anúncios

Um comentário sobre “40 anos do início da Guerra Civil Libanesa: fraturas e cicatrizes

  1. Pingback: Disputa Marítima entre Israel e Líbano e o contingente brasileiro nessa fronteira | O Furor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s