Relações Internacionais e a Questão do Olhar

por Julia Zordan

            Desde que eu entrei para a faculdade fico muito contente quando alguém me pergunta o que eu curso. Tenho muito orgulho de fazer Relações Internacionais e desde meu primeiro período que eu não consigo me ver fazendo outra coisa. Descobri o curso por acaso, numa pesquisa na internet. Desde aquele momento, decidi que era aquilo que queria cursar na faculdade. O primeiro período no curso só fortaleceu a certeza de que eu não me via fazendo qualquer outra coisa, só fortaleceu a certeza que tive naquele momento, mais ou menos um ano antes, de que não queria mais cursar Direito. Queria RI. Hoje, quatro anos depois, a certeza está aqui. A mesma. Intacta.

            O problema é que a pergunta sobre o que eu curso nunca vem sozinha. Sempre vem acompanhada de um “Ah, mas isso não é aquele negócio que você faz para trabalhar lá no consulado?”, ou de um “Que chique! Você vai ser diplomata?”, ou de “Quantas línguas você fala? Você fala chinês? Chinês é importante. A China tá crescendo muito, né?”. Pior ainda: vem acompanhada de um “O que é isso? Mas o que você estuda? Com o que você pode trabalhar quando você faz isso?”.

           Na semana passada, fomos convidados por um de nossos professores para ir às turmas do primeiro período para contar um pouquinho da nossa experiência com o blog, falar um pouco sobre como trazemos o conhecimento adquirido em sala e o conhecimento visto no dia-a-dia para o formato de post. O que a gente buscou mostrar a eles foi que o que fazemos aqui nada mais é do que um exercício de olhar. Um exercício de olhar para as coisas que vemos nos jornais, nas ruas, nas nossas casas, nas nossas vidas, e perceber que elas também são RI.

            Pensando nisso que levamos a eles, eu decidi fazer este exercício: pensar em 5 coisas que são RI que eu vejo no caminho de casa para a faculdade (e da faculdade para a casa também). Poderia estender esta lista, mas o espaço aqui disponível não me permite. Quem sabe de outra vez? Quem sabe algum outro membro da equipe o faça? Quem sabe você, leitor (a), não possa deixar um comentário com mais algumas ideias? Para facilitar, decidi fazer isso em forma de lista mesmo.

  • 1- As pessoas no caminho. Não é difícil perceber uma divisão socioeconômica forte entre elas. Não é difícil perceber a desigualdade social que é tão fortemente presente no nosso país. Seja observando as pessoas que pegam o metrô e o ônibus, seja observando quem trabalha em que função, seja observando as pessoas que andam – ou até mesmo as que moram – na rua.
  • 2- As pessoas no caminho. Mas, dessa vez, percebendo a diversidade das pessoas. Diversidade racial. Diversidade religiosa.  Diversidade de ideias, expressas nas conversas. Essa diversidade que formou o nosso país e que tanto enriquece as nossas discussões.
  • 3- No metrô e no ônibus, algumas pessoas leem livros. Algumas conversam sobre a situação da política ou da economia do país. Algumas leem jornais. Algumas usam o celular. Todas estão se integrando com o mundo, estão sentindo – e fazendo – os efeitos da globalização: leem as notícias do mundo, conversam com os amigos e tornam públicos seus pensamentos e opiniões através da internet, etc.
  • 4- Os monumentos históricos. O Rio de Janeiro foi por muito tempo capital do país, então temos até hoje disposta pela cidade uma estrutura de prédios e de monumentos muito grande. Quando passo pelo centro da cidade, mais especificamente – onde muito dessa estrutura está -, não posso deixar de pensar sobre como sua manutenção é precária. Sobre como não há uma preocupação substancial com a manutenção das memórias da nossa História. Penso sobre como aquela História ali retratada nos formou. Penso sobre as influências, as influências nas nossas vidas, na nossa organização social, nos nossos hábitos, e também no estilo arquitetônico daqueles casarões e obras de arte. Penso sobre como Debret enlouqueceria se visse a diferença entre o Rio de Janeiro que ele pintou e o Rio de Janeiro de hoje.
  • 5-  O caminho que eu faço em si. A cidade onde moro vive um sério problema de mobilidade urbana. Não é fácil se locomover no Rio de Janeiro. Como já contamos no nosso especial sobre os 450 anos da cidade, os engarrafamentos são muito presentes nas vidas dos cariocas, e os sistemas de transporte público são, além de caros, muito mal-administrados. As condições de manutenção dos transportes são péssimas, e a distribuição das linhas não é nem um pouco eficiente. Isso traz restrições de investimentos na cidade, impossibilitando alguns negócios que seriam benéficos para a cidade. Honra seja feita (para o bem ou para o mal): a cidade hoje é um grande canteiro de obras, exigidas pelo Comitê Olímpico Internacional para a realização das Olimpíadas no ano que vem. Esperemos para ver o quanto a vida do carioca vai melhorar de fato em termos de mobilidade.

          Olhando para tudo isso, pensando em tudo o que estudamos na faculdade – de comércio internacional a ajuda humanitária, passando por temas relacionados à filosofia e à sociologia -, eu chego cada dia mais à conclusão de que não sei direito o que é RI. Não sei explicar o que é RI. Não sei o com o que eu posso trabalhar quando me formar em RI. RI é tanta coisa! Tem RI em tudo o que vemos no nosso dia-a-dia, nas nossas vidas! Eu posso não saber o que é RI, mas eu sei que gosto de RI. Ah, como gosto!

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