A loteria da barriga no Sistema Internacional

por Thaís Queiroz

 

O que motiva o post de hoje é uma conversa que ouvi (pasme) dentro do banheiro de um aeroporto.      A conversa aconteceu entre um grupo de meninas que aparentava ter entre 17 e 20 anos de idade e o trecho que me chamou a atenção é algo mais ou menos assim:

– A fulana está ansiosa para abrirem as inscrições.
– Sim, preciso correr pra ser Estados Unidos
– Hahaha Todos querem ser Estados Unidos em um comitê bom como esse.
– Mas o comitê é tão bom que o que importa é participar. Qualquer coisa você pega uma Palestina ou qualquer coisa assim, que o que importa é estar nesse comitê.
– Ah, sim, com certeza qualquer coisa eu pego uma Palestina, mas é que eu queria muito ter poder de veto, sabe? Aí a gente tem que correr pra conseguir pegar esses grandes.

Eu não consegui entender sobre qual assunto seria o comitê do qual elas estavam falando, mas deu para perceber que falavam sobre uma simulação de modelo ONU. Nestas simulações, há comitês que discutem assuntos determinados e cada aluno (ou pequeno grupo de alunos) representa o governo de um país escolhido nas decisões sobre aquele assunto. O que me fez atinar os pensamentos foi: “a gente tem que correr pra conseguir pegar esses grandes”.  No Sistema Internacional muitas ações e interações são regidas pelo “Sistema ONU”, um conjunto de agências e órgãos nos quais diferentes países muitas vezes têm diferentes pesos nos processos de tomadas de decisões.

Injustiça?

Se esta menina do diálogo acima realmente correr e fizer sua inscrição na hora certa, ela representará um dos grandes, como ela deseja, no que quer que seja discutido nesta simulação… Mas e nós? Quando não se trata de simulações? Nós temos o poder de escolher? Será que todos nós temos realmente as mesmas condições e oportunidades no momento em que nascemos?

É, eu acho que não.  Depois que vim morar no Rio de Janeiro aprendi sobre um fenômeno chamado “loteria da barriga”. Ele diz respeito à distância de um ou dois quilômetros, literalmente, entre os locais de nascimento de dois cidadãos que fará com que estes tenham oportunidades de vida completamente diferentes. ¹ Não é possível, então, dizer que o mesmo acontece no Sistema Internacional? “Aí a gente tem que correr pra conseguir pegar esses grandes”. Quais as diferenças abismais de direitos, oportunidades de educação, tipo de trabalho, qualidade e oportunidade de formação, moradia, etc etc etc entre um cidadão Português e um Líbio? Sim, acabo de eleger duas nacionalidades aleatórias. E percebam que nem fui para Noruega ou Suécia e Eritréia ou Somália, que enxergo como dois extremos frequentemente citados quanto a qualidade de vida ou direitos providos pelo Estado. Acabo de eleger um país não muito privilegiado do privilegiadíssimo continente europeu e outro não tão “subdesenvolvido” quanto outros do super “subdesenvolvido” continente africano. Suas vidas e, melhor formulando, as oportunidades e obstáculos que lhe serão apresentados, não serão bastante diversos pela simples sorte do destino que os fez nascer aqui e não lá?

O que me incomoda e irrita, de maneira bastante intensa, é essa mania da gente de pensar que é uma questão de se esforçar que a gente chega lá. Essa mania irritante de achar que são as autoridades europeias que têm que fazer alguma coisa pelos refugiados que chegam pelo mediterrâneo ou que essas pessoas que fazem travessias clandestinas têm é que tomar juízo e parar de arranjar problema. Oi?! É… infelizmente descobri que tem gente que pensa assim e mais ou menos com essas palavras mesmo. E isso me assusta. Assusta-me demais.

A loteria da barriga no sistema internacional existe e faz milhares de pessoas reféns a todo tempo. Esforço é muitíssimo importante e é essencial, mas não é suficiente! E penso que precisamos parar de julgar outros como vagabundos ou continuar reproduzindo os sistemas seculares e milenares de opressão, categorização, hierarquização e consequentemente discriminação e preconceito em cada ação que praticamos. É muito trabalhoso refletir sobre nossas ações. Não é hábito nosso. Mas precisamos começar a tornar hábito. Precisamos refletir sobre nossas atitudes (que já estão completamente automatizadas) para aprender com nossos erros e nos posicionarmos e também pressionarmos autoridades. Estas estruturas não serão desfeitas enquanto nós não as desfizermos no nosso dia-a-dia, a todo tempo, não descriminando e refletindo sobre o que falamos, pensamos, escrevemos ou fazemos.

“A gente tem que correr pra conseguir pegar esses grandes”. Essa foi uma conversa de banheiro que me fez refletir muito sobre o mundo que realmente vivemos. Será isto tudo uma questão de correr? Será mesmo uma questão de escolha?  Ou você escolheu onde ia nascer? Bom, eu pelo menos não escolhi. E acho que estou longe de ser uma minoria neste sentido.

 

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3 comentários sobre “A loteria da barriga no Sistema Internacional

  1. Muito bom, Thaís.
    Entendo q todos temos escolhas, mas o ambiente econômico, cultural, social e até religioso do lugar onde nascemos e somos criados exerce grande influência em nossa trajetória.
    Romper com o que vemos e aprendemos, bem como com as limitações impostas é possível, mas acaba sendo exceção.
    Por isso é essencial que “os grandes”, com “poder de veto”, tenham a humildade de entender que muito do que conseguiram foi pelas oportunidades que lhe foram oferecidas e que nem todos que estão em más condições escolheram este destino.
    O mundo precisa ser globalizado para o bem, precisa girar no rumo da igualdade de direitos e oportunidades.

    Curtido por 1 pessoa

    • Marisa, acho que eu não conseguiria me expressar melhor. Muito obrigada por seu comentário!
      Nosso trabalho para estimular este reconhecimento tem caminho longo pela frente, mas devemos continuar trilhando. E um detalhe muito importante é realmente não deixar exceções serem tomadas como regra, o que muitos infelizmente insistem em fazer.

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