Definindo as Relações Internacionais

por Franco Alencastro.

“Relações Internacionais? Que interessante. E o que você faz?”

Quem, no nosso campo, nunca teve que encarar essa pergunta? A reação instintiva geralmente é querer se encolher, pigarrear e pedir pra passarem a farofa (olha, eu to só supondo que a conversa se passa no Natal). E, num segundo momento, pensar muito – problematizar, afinal, está no coração nada-essencializado de nossa disciplina. E tenta-se chegar a uma resposta, o que às vezes leva à fria conclusão de que não temos idéia, mais do que a maioria das pessoas, sobre o que, afinal, somos supostos fazer.

A resposta a que eu tinha chegado até hoje e que convinha no tipo de ocasião social em que eu tenho que explicar o que eu faço é que os especialistas em Relações Internacionais estão preocupados com esse lance aí da paz mundial. Em suma, a função social das Relações Internacionais – para além de suprir o mercado com uma fornada de graduandos que entende um pouco de comércio internacional e de economia e decorou algumas datas importantes da história internacional – é a de pensar o problema da guerra. Guerras matam gente, e isso é ruim, porque pessoas são legais (exceto quando matam gente?), portanto deve se encontrar uma maneira de erradicar do globo as guerras, todas as guerras – caçar as guerras até que não sobre mais nenhuma.

Na minha experiência, essa explicação é bastante conveniente, pois tem me permitido:

  1. Dar aos meus interlocutores uma resposta bastante resumida mas ilusoriamente clara e concisa do que eu realmente estudo;
  2. Dar à mim mesmo um ar elevado e altruísta, já que guerras são ruins (ver acima) e quem tenta acabar com as guerras é automaticamente uma pessoa do bem.

Contudo, recentemente, tenho esbarrado em uma pequena inconveniência: A completa inutilidade dessa definição para um entendimento mais claro do que as Relações Internacionais efetivamente são. Comecemos por alguns dos pontos mais básicos:

  1. Guerra. Eis aí um conceito controverso. O que é uma guerra? É, como os escandinavos insistem, um confronto armado em que morre um número grande de pessoas? Por esse critério, por exemplo, os confrontos entre a polícia e organizações criminosas nos Morros cariocas são uma guerra (Se o nome “Guerra às Drogas” já não entregava). Mas certas pessoas dizem que conflitos com organizações criminosas não contam, já que elas não tem objetivos políticos. A discussão é então transferida para a tênue fronteira entre interesses econômicos e interesses políticos, já que, convenhamos, boa parte da tarefa de um Estado moderno consiste em coletar impostos e garantir a segurança de seu território, o que em nada difere da maioria das organizações criminosas, embora os líderes de Estados modernos usem cordões de ouro com menos freqüência. E temos outros problemas e casos híbridos – as FARC são um grupo político, um exército efetivamente tentando substituir o Estado Colombiano, ou um grupo de bandoleiros (bem numerosos) fazendo dinheiro com drogas ilícitas? Uma definição ainda mais restritiva, que chame de “guerra” só as guerras entre Estados com E maiúsculo, com bandeira, hino e seleção de futebol, é o último refúgio dos tolos. A verdade é que a maioria dos conflitos violentos hoje simplesmente não se enquadra nessa definição e, por esse critério, a guerra está praticamente obsoleta, embora a violência esteja por toda parte.
  2. Assim, alguns teóricos avançam a noção mais abrangente de “violência”. A definição me parece mais útil, porque dispensa da separação entre violência estatal e individual, por qual tantos são obcecados. Mas, com a solução desse problema, temos um novo problema. Se Relações Internacionais trata do Problema da Violência, o que fazer de todas as partes da disciplina que não falam de violência? Eu menosprezei elas desde o início deste ensaio e é verdade que o faço em parte porque acho elas menos interessantes. Mas vamos lá: Relações Internacionais não fala só sobre violência e/ou guerra: tem também todas as coisas que Estados fazem enquanto não estão guerreando (que, aprendemos, eles fazem só pra acumular mais poder para usar nas guerras), como diplomacia e comércio internacional. Assim, dá pra dizer que a minha definição inicial era bastante informada pelo liberalismo – a idéia ousada de que é possível substituir todas as coisas guerreiras que o Estado faz na maior parte do tempo por todas as coisas não-guerreiras que ele faz na menor parte do tempo, e transformar as relações tradicionalmente violentas dos Estados em uma versão “Copa do Mundo” das mesmas, que permita a catarse nacionalista enquanto evita mortes (uma das grandes falhas do liberalismo: tratados de comércio bilateral não são extremamente empolgantes), embora talvez com menos Neymar e mais circulação de capitais. Além de ser uma das grandes diretivas normativas da disciplina – o mundo deveria ter mais gente comprando ações e menos gente se matando – as partes das Relações Internacionais que não envolvem pessoas se matando também ganham bastante atenção como tema de estudo por si só, e não apenas como substituto da violência. Mas eis um pensamento: a violência só é violência quando um ser humano a exerce sobre outro (desconheço nome específico para violência auto-inflingida, mas imagino que “burrice” seja suficiente por enquanto). Assim, o fio condutor entre as dimensões violentas e as não violentas da disciplina são que são estas relações humanas – monetárias, de poder, de violência, o que for. Relações Internacionais como Estudo das Relações Humanas. Não soa tão ruim.
  1. “Mas espera um pouco”, eu escuto você dizer. “Só o que você está fazendo é roubar o tema das Ciências Sociais”. E, bom, você está certo. Se as ciências sociais estudam as sociedades humanas, e sociedades são feitas de humanos em relação uns com os outros… bom, você entendeu. Mas talvez haja como resolver essa situação. Há uma dimensão nas Relações Internacionais que a torna ligeiramente mais específica que as Ciências Sociais. Afinal, as ciências sociais volta e meia manifestam uma preocupação com o indivíduo e o lugar que ocupa na sociedade; nas Relações Internacionais, essas preocupações estão mais voltadas para grupos de indivíduos e suas dinâmicas, internas e com outros grupos, além das instituições por eles formadas. Claro, no coração de tudo, ainda está o indivíduo (até na reificação que é feita de instituições como o Estado, transformado em indivíduo racional), mas, se há já hà algum tempo tentativas de desconstruir o Estado e outras instituições como representando “indivíduos racionais”, a dialética agente-estrutura não está superada e ainda é útil pensar em grupos como grupos, e não como coleções de indivíduos.

Isso torna as Relações Internacionais uma sub-disciplina das Ciências Sociais, só que voltada para o Estudo das Relações Humanas Coletivas (expressa por instituições e grupos)? No fundo, isso é irrelevante. Se as ciências humanas tratam todas de seres humanos, é mais fácil pensar no campo como uma grande rede interdisciplinar dedicada à pensar esse lance aí da humanidade, ao invés de ficar procurando hierarquias e posições de prestígio e “pureza científica” de uma disciplina sobre outra. Trata-se, sobretudo, de abraçar as narrativas sobrepostas; aquilo que nos aproxima ao invés de aquilo que nos afasta.

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