Uma dose de Cuba libre

por Felipe Teixeira

Esse ano o governo Obama decidiu reatar as relações com Cuba que sofria de embargo econômico desde 1962. Com a União Soviética vencida desde 1991 e decretado o fim da Guerra Fria, era de se esperar que esse acontecimento não fosse um impacto tão grande no sistema internacional.

Exceto que é.

Contextualizando: Desde sua revolução socialista em Cuba a administração do governo se dava sob o domínio de Fidel Castro em um regime ditatorial duro. Essa situação que se iniciou nos tempos da Guerra Fria (e inclusive fora palco da crise dos mísseis de 62) era sustentável somente por causa de subsídios econômicos da União Soviética, situação que se manteve até 1992.

A ditadura comunista tão perto das belas praias de Miami sempre foi um tema de desconforto na Política Externa norte americana e uma das maneiras do país retaliar contra a Ilha havia sido decretar o embargo econômico. Cuba fora isolada do gigantesco mercado dos Estados Unidos e de seus aliados. Com o fim da URSS acabou também a ajuda financeira. Os cubanos foram lançados à própria sorte nas águas do caribe. Saltando alguns anos a frente a passagem de dois furacões em 2008 trouxe um prejuízo equivalente a 20% do PIB cubano.

O que nos traz aos dias de hoje…

Recentemente Cuba passou por duas grandes mudanças: 1) O “Realinhamento”. No qual o governo adotou diversas medidas liberalizantes na economia e pequenos negócios como lanchonetes, taxistas e salões de beleza crescem de forma constante há alguns anos. 2) Retomada de relações com os Estados Unidos. Com o fim de alguns processos burocráticos para visitas, comércio de alguns produtos e a construção de um embaixada americana na ilha.

E estes fatos, embora não sejam um ponto de virada ultra relevante no sistema internacional, impactam de forma brutal o contexto na América Central. Cuba pode parecer um país pequeno quando comparado aos gigantes dos BRICS por exemplo, mas é um mercado de mais de 10 milhões de pessoas e é a maior e mais populosa nação do caribe. É um mercado com alta expectativa de vida, baixa mortalidade infantil e taxa de alfabetização de aproximadamente 100%. Seu IDH é de 0,815 sendo considerado no nível muito alto pelo PNUD.

É claro que esses indicadores tiveram seu preço na forma da ditadura política, mas as a economia tem dado sinais de melhora constante com o passar dos anos apresentando taxas de crescimento expressivas. O impacto na região está na condição de Cuba enquanto ponto focal de turismo. Enquanto o país recebia investimentos da União Européia e Brasil e promovia trocas comerciais com a China, a enxurrada de capital americano ainda estava sob o embargo. Agora, turistas americanos ávidos por gastar nas praias cubanas encontram uma viagem curta e uma Havana de vida cultural forte.

O resto do Caribe entretanto amarga preocupações. A demanda reprimida pelo turismo cubano finalmente encontrou sua válvula de escape. Visitar Cuba é barato e satisfaz os consumidores estrangeiros tanto quanto (ou melhor) que as outras centenas de ilhas da região que dependem do fluxo de dólares de turismo. Se Cuba isolada era um ator político forte na América Central, agora os caribenhos tem que se preocupar com a polarização do turismo e investimentos. Recentemente um vôo regular foi estabelecido entre Nova York e Havana. AirBnb já iniciou suas operações na ilha, ajudando a suprir a carência de leitos. Havana entrou pela primeira vez no roteiro de navios cruzeiros. Cuba possui 8 locais tombados patrimônios da humanidade pela UNESCO, fora as atrações culturais e paradisíacas de Havana.

A competição turística será forte daqui para frente. Cuba recebeu 3 milhões de visitantes em 2014 e não havia um número relevante de americanos entre eles. A partir de agora haverá.

Fora o turismo, por que o crescimento recente cubano impacta tanto a região? Fácil. Por que Cuba possui uma população saudável e educada, pronta para assumir os postos de trabalho que o capitalismo traz. Situações semelhantes podem ser vistas na Costa Rica e República Dominicana, mas esses países não são socialistas nem possuem a expressão política que Cuba tem. O desenvolvimento de Cuba, embora não polarize o sistema internacional como a China, é um passo para uma nova dinâmica na América Central e a apresentação de modelos alternativos de desenvolvimento.

Há alguns fatores que rondam no horizonte de todas essas mudanças. Cuba, com sua proximidade com o México, Venezuela e Estados Unidos patrulha suas águas em procura do petróleo que também alimenta seus vizinhos. A entrada de gigantes do petróleo americano poderiam significar um aumento nas atividades de prospecção. O impacto disso na economia já é outra história.

Outro problema a ser observado é o tratamento aos investidores estrangeiros. O passado antigo e recente revela uma situação de pouca segurança para os investimentos, embora o governo tenha se esforçado em mudar essa imagem. Atualmente o governo cubano não possui um sistema legislativo ou financeiro transparente e conta com um histórico de nacionalizações e prisões de empresários estrangeiros pouco esclarecidas. Se já é difícil querer fazer negócios sem ter certeza dos dados, é ainda mais difícil quando você pode não voltar.

A situação de poucas perspectivas para os jovens também se apresenta como um desafio. As baixas chances de crescimento e vida próspera levaram à migração de milhares de cubanos em balsas. (Eles podem ser encontrados no bairro de pequena Havana, em Miami. Infelizmente, muitos deles vivem hoje abaixo da linha da pobreza). Em virtude de mudar esse panorama é que surgem iniciativas como a Zona Especial do Porto de Mariel, onde as empresas têm liberdade para atuar e movimentam a economia. O porto tem localização estratégica para ser um centro de distribuição da região, um entreposto entre as economias caribenhas.

Isso sem contar, é claro, o problema maior: a corrupção.

Então é importante manter os olhos em Cuba pelo menos pela próxima década. A mudança na relação com os Estados Unidos impactará de forma profunda a vida política e econômica da América Central e será a “hora da verdade” para o modelo de crescimento dirigido implementado pelos irmãos Castro. É difícil saber se a desigualdade, um dos grandes males da globalização conseguirá furar a barreira do regime socialista. É mais difícil ainda saber como o maior acesso a internet e a melhoria nas condições socais impactará o modo de vida da juventude cubana. Com a mecanização da agricultura, será possível verificar o inchaço das manchas urbanas? O governo será capaz de conferir saúde, educação e moradia a essa população com maiores demandas?

O futuro de Cuba é um mistério, mas com certeza será interessante. A única certeza é que cuba libre será o drink mais pedido nas praias do Caribe muito em breve.

Referências:

G1. “Cuba pode se tornar uma potência em minério e petróleo”. BBC, Rio de Janeiro, 13 mai 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/05/cuba-pode-se-tornar-uma-potencia-em-minerio-e-petroleo.html&gt;. Acesso em: 16 jul 2015.

G1. “Cuba está pronta para se abrir a novos investimentos estrangeiros?”. BBC, Rio de Janeiro, 31 mar 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/03/cuba-esta-pronta-para-se-abrir-novos-investimentos-estrangeiros.html&gt;. Acesso em: 16 jul 2015.

G1. “Empresas brasileiras em Cuba: Otimismo e cautela com reaproximação com EUA”. BBC, Rio de Janeiro, 19 dez 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/12/empresas-brasileiras-em-cuba-otimismo-e-cautela-com-reaproximacao-com-eua.html&gt;. Acesso em: 16 jul 2015.

Bloomberg “Tourism is Surging in Cuba”. Bloomberg, Nova York, 13, Jul 2015. Disponível em: <http://www.bloomberg.com/news/articles/2015-07-13/tourism-is-surging-in-cuba&gt;. Acesso em 16 jul 2015.

PNUD “Ranking IDH Global 2013”. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/Ranking-IDH-Global-2013.aspx&gt;. Acesso em: 16 jul 2015.

Trading Economics “Cuba – PIB, Taxa de Crescimento Anual”. Disponível em: <http://pt.tradingeconomics.com/cuba/gdp-growth-annual&gt;. Acesso em: 16 jul 2015.

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