Reflexos e Reflexões

por Julia Zordan 

                Férias. Tempo de descansar, de colocar em dia todos os episódios de séries e todos os livros que ficaram pelo caminho durante o semestre. Pra mim, tempo de aproveitar para passar mais tempo com os amigos e para conhecer novos lugares, fazer coisas novas. Antes mesmo de entrar de férias, já começamos a planejar os passeios que faríamos. Logo, então, fomos – eu, Thaís, Marina e Franco – ver uma exposição sobre a modernidade espanhola, com muitas obras de Pablo Picasso. Depois, fui com a Marina ao MAR, o Museu de Arte do Rio, ver a exposição “Tarsila e as Mulheres Modernas no Rio”. Achei tão interessante a exposição que voltei lá dois dias depois, com outros dois amigos, para revisitar a exposição e para ver a “Rio Setecentista – quando o Rio virou capital”. Desses passeios eu gostaria de compartilhar com vocês algumas impressões que tive – acerca de uma variedade de temas.

            A primeira impressão diz respeito a uma discussão sobre modernidade e mulheres. A exposição da Tarsila é muito completa, por abordar a presença e a influência das mulheres ao longo de um período bastante amplo de tempo – a dizer: do século XVII aos dias atuais. É interessante perceber a evolução da luta pela igualdade de gêneros ao longo do tempo, perceber como algumas mulheres foram revolucionárias, como foram peças-chave para mudar o mundo em que viviam. E a exposição apresenta tal evolução de várias formas, abordando vários aspectos, como pintura, fotografia, moda, arquitetura, literatura, escultura, etc. Mas mais do que isso, a exposição levanta em nós um questionamento muito importante, mas sobre o qual pouco se fala: sim, a luta pela igualdade de gêneros evoluiu muito com o tempo. Hoje em dia as mulheres têm garantidos em Constituição os mesmos direitos dos homens (o que não acontecia no início do século passado, por exemplo). Mas que mulher é essa que tem esses direitos garantidos? A mulher da favela tem? A mulher transsexual tem? A exposição retrata os avanços feitos, mas também reconhece o quanto falta caminhar.

              Além dessa exposição, outro ponto alto da visita foi o passeio pelo próprio museu. Eu nunca tinha ido ao MAR, que é um museu novo, foi inaugurado há dois anos. A arquitetura do museu é linda e a vista do terraço do museu é incrível.

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            O museu fica na Praça Mauá, e eu nunca tinha ido até lá, mas fiquei impressionada de ver as obras do Porto Maravilha acontecendo lá. Andando pela Av. Rio Branco já vemos as obras do VLT, e, andando pelo pela Praça Mauá até chegar ao museu, só vemos tapumes, mas do terraço do museu conseguimos ver as obras do VLT e também o esqueleto do que vai ser o Museu do Amanhã.

11224201_1068206636522758_8070434710462156290_o                Mas o que me chamou mais a atenção foi mesmo a disparidade da paisagem. Do terraço do museu dá pra ver a linda vista da baía de Guanabara, as modernas obras do Porto Maravilha, os imponentes prédios comerciais do centro do Rio, que movimentam milhões por dia, e os prédios históricos, tão mal-conservados quanto lindos.

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               Dá pra ver que o museu tem programas especiais para os moradores dos bairros próximos, bairros formados basicamente por comunidades. De cima do museu dá pra ver os executivos passando de terno e gravata e os moradores de rua estendidos, dormindo nas calçadas. Dá pra ver os contrastes entre os investimentos feitos em obras para as Olimpíadas e a falta de investimentos na conservação da nossa História. Dá pra ver os contrastes entre os abastados executivos e os moradores de rua. Dá pra ver a falta de pessoas que se importam (Clica no link! Clica, vai!). Na exposição “Rio Setecentista – quando o Rio virou capital”, dá pra ver que, ao contrário da evolução da luta pela igualdade de gênero, as evoluções em termos da redução destes contrastes foram muito poucas.

       Outra impressão que eu tive diz respeito à segurança da cidade. Tive a oportunidade de passar pelo mesmo caminho do centro da cidade em três dias diferentes e em dois horários diferentes. E fiquei abismada com a diferença que faz. Quando fui à exposição do Picasso e quando fui ao MAR pela primeira vez, combinamos de nos encontrar em dias de semana, e pela manhã. Quando fui pela segunda vez, fui em um sábado à tarde e voltei já no início da noite. Dias depois, vi na televisão uma reportagem falando que o centro tem assumido cada vez mais a posição de ponto turístico, muito por conta dos museus, centros culturais e restaurantes que tem por lá, mas que as pessoas, mesmo os turistas, andam por lá com medo, pois conhecem os numerosos relatos de violência lá ocorridos.

         Refletindo sobre isso, percebi que nos dias de semana, pela manhã, vi algum policiamento nos arredores do centro cultural e do museu, ainda que insuficientes para garantir a segurança da população. No entanto, no sábado à tarde não havia policiamento algum no percurso que fiz da Praça Mauá até a Carioca. Nada. Justo no sábado, quando o museu estava espantosamente mais movimentado do que no dia de semana (eu não esperava ver tanta gente assim em uma exposição!). Justo no sábado, dia em que as famílias que trabalham e estudam durante a semana podem ir aos museus do centro da cidade. Isso me levou a pensar não só nessa questão da necessidade de maior provisão de segurança para a população, mas também na questão de quem vai prover essa segurança e de que forma. A população precisa se sentir segura para frequentar os pontos turísticos, para poder exercer seus direitos de acesso à cultura, à diversão, o direito de ir e vir, etc., mas não pode admitir mais casos como o do Matheus¹.

            Estas foram as reflexões que eu fiz ao visitar três exposições no centro do Rio. Sobre o que eu vi dentro e fora dos museus. Não são reflexões novas, que nunca foram feitas. Não são reflexões que propõem solução para qualquer dos problemas. Mas são os reflexos do dia-a-dia da cidade na minha vida, no meu tempo, e em todos os tempos – passado, presente e futuro.

Referências:

[1] G1. Câmeras Em Carro da PM Incriminam Policiais em Morte de Menores no RJ. G1.Rio de Janeiro. 20 de julho de 2014. Disponível em: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/07/cameras-em-carro-da-pm-incriminam-policiais-em-morte-de-menores-no-rj.html

P.S.: Não coloquei créditos nas fotos, pois foram feitas por mim mesma.

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Um comentário sobre “Reflexos e Reflexões

  1. De vez em qdo é bom ser turista na própria cidade. Vemos coisas lindas qdo viajamos. Tiramos fotos junto a estátuas, prédios e praças, mas passamos direto por estes pontos em nossa cidade.
    Também é importante ser turista na própria cidade pq vemos além da paisagem.
    À emoção diante da beleza, juntamos o olhar crítico de quem é ator naquele palco. Conhecemos os bastidores!

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