Apropriação cultural: O que é?

por Franco Alencastro

Se você circula pelas mesmas partes da internet que eu, você provavelmente viu, nessas últimas semanas, essa foto acima, acompanhada de uma legenda indignada. As pessoas que a compartilharam, em geral, reclamam da apropriação que as mulheres brancas da foto fizeram de um símbolo cultural afro-brasileiro – no caso, o turbante.

Mas o que seria apropriação cultural?

Bom, como o nome já indica, “apropriação” tem a mesma raíz que “se apropriar”, significando portanto se apoderar de algo, nesse caso, do símbolo de outra cultura. Os críticos da apropriação cultural apontam que grupos privilegiados na sociedade (como nesse caso, a população brasileira descendente de europeus) tem tomado para si símbolos da cultura de outros povos (nesse caso, os brasileiros afro-descendentes), privando-os de sua cultura.
Quando eu li pela primeira vez sobre apropriação cultural, tive bastante dificuldade em aceitar suas propostas centrais; afinal, desde pequeno fui ensinado que justamente o que faz a riqueza do Brasil é o intercâmbio cultural que temos entre os muitos povos que habitam no nosso país, misturando símbolos diferentes para criar uma cultura inteiramente nova.
Claro, desde então aprendi que muito desse intercâmbio – incluindo seu suposto componente de harmonia social entre grupos étnicos e classes sociais – era mais um discurso histórico do que uma realidade efetiva; grupos como, justamente, os afro-brasileiros, foram trazidos aqui contra a sua vontade e suas contribuições à cultura brasileira foram menosprezadas durante muito tempo, só posterior e retrospectivamente sendo incluídas no cânone nacional; outros povos, como os indígenas americanos, uma das “três raças”, foram e continuam sendo vítimas da apatia do poder público e indiferença do resto da sociedade enquanto sofrem com violência que beira a limpeza étnica. Com tudo isso, no entanto, há algo a se admirar na variedade e no rico ecletismo da cultura brasileira, e dela eu tenho orgulho; ela sem dúvida seria muito mais pobre se cada grupo étnico ficasse no seu canto e nada partilhasse com os outros.
Além disso, outros argumentos dos que defendem a tese da apropriação cultural são mais difíceis de sustentar. Voltando ao caso do turbante, pro exemplo: Será que é tão fácil assim apontar o turbante como pertencendo à cultura afro-brasileira? Afinal, como diz uma corrente que tem circulado com a mesma foto, muitas culturas usavam o turbante como símbolo de devoção ou status; ele era especialmente popular nas culturas islâmicas e no Império Otomano, de onde passou para a África e de lá, para os africanos trazidos ao Brasil durante a escravidão. Assim, antes de parar na cabeça dos afro-brasileiros, o turbante circulou por muitas culturas, e os brasileiros brancos seriam apenas o último em uma longa cadeia de apropriadores, dos quais os afro-brasileiros também fazem parte. A tentativa de “volta às origens”, determinar quem criou o quê, não me parece proveitosa à ninguém, além de ser bastante confusa.
Um segundo problema é a ideia de que cultura é um bem finito, do qual podemos nos apoderar, construir uma cerca em volta. O conceito tradicional de “apropriação” inclui tomar algo de alguém, de modo que você agora tem esse objeto e a pessoa de quem você tomou não tem mais. Mas a cultura não é um bem finito: cultura, no fim das contas, é informação, e informação é infinitamente abundante; quando alguém cria um objeto cultural com base em outro que já existia, a cultura que ele usou para criar esse novo objeto não deixou de existir. Em suma, a minha paródia musical do Bhagavad Gita não faz com que o Bhagavad Gita deixe de existir. Nesse sentido é impossível “se apoderar” de uma cultura, pelo menos da forma que os proponentes da apropriação cultural estão sugerindo (já vou chegar lá).
Também, com uma definição tão larga do que é apropriação cultural – uma cultura se apoderando de elementos da outra – fica difícil saber o que não é apropriação cultural. Um chinês praticando o budismo (criado na Índia) é apropriação cultural? Um árabe se vestindo de terno (inventado na Europa) é apropriação cultural? Um filme coreano de Faroeste (americano, duh) é apropriação cultural?
Foi pensando nesses problemas que eu tentei chegar a uma definição mais restrita de apropriação cultural, que por um lado respeite a riqueza dos intercâmbios culturais e, por outro lado, aponte os casos mais sérios de apropriação.
Ficou assim:
“Quando uma cultura A faz uma releitura de uma cultura B e consegue um crédito por isso que a cultura B não recebeu.”
De certa forma, isso já é respeitado na nossa cultura. Conhece um termo chamado “plágio”? E a expressão “Copiar é plágio; Copiar e botar uma citação no fim é homenagem”? Provavelmente não, já que eu acabei de inventar (ou quase; é mais uma paráfrase, que peguei de outra pessoa. Ah, a ironia…).
Essa definição, ao meu ver, é importante, pois, como eu disse, cultura é abundante (por isso a analogia com a informação –> textos –> plágio) mas reconhecimento não é: tempo na TV, por exemplo, é limitado, e você pode usá-lo para falar de mulheres negras que usam turbante ou dizer que ele agora é cool porque atrizes globais brancas o usam (viu, dei um jeito de voltar ao turbante). Apropriação cultural, nessa definição, é portanto uma maneira de apagar a história, desconectar um objeto cultural de suas origens (por mais controverso que o conceito de origem seja; nesse caso, é mais um trajeto do que uma única origem bem-definida). Os turbantes da foto, então, são sim apropriação cultural, já que tenho dificuldade em pensar em uma época anterior, pelo menos no passado recente e na minha própria vida, em que essa peça de roupa tenha sido ao mesmo tempo valorizada e usada pela população que a trouxe ao Brasil: os afro-brasileiros.
Não faz mal dar um pouco de crédito ao autor, né.
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2 comentários sobre “Apropriação cultural: O que é?

  1. Franco, muito obrigada por esse texto! Ele me ajudou a entender melhor e com isso refletir melhor a respeito deste assunto!! Tu escreves muito nem, cara! Hahahaha adoreei!

    Essa sacada do crédito que foi excelente pra mim. Acho que era disso que faltava eu me tocar. Acho que tu estás certíssimo!
    Ver outro levando crédito por algo que nós fizemos é muito indignante 😦

    Enfim, parabéns mesmo!

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