FUROR INDICA: Ardil 22 de Joseph Heller


por Ariane Francisco.

ardil-22

12345Ardil 22[1] é o livro de narrativa mais singular que já li. Não linear na sua maior parte e tendo cada capítulo dedicado a um personagem e seu ponto de vista sobre um evento, é aos poucos que cada evento vai se articulando, assim como as consequencias que produziu para um acontecimento já comentado. Sob meu ponto de vista, não existe um início ou meio, nós somos jogados na estória e começamos a perceber a vida dos personagens a partir do momento em que o autor quer que começe; já na ilha, na guerra, já tendo voado mais de 40 missões – quantas missões cada oficial deve voar para ser dispensado da guerra é um dos plots importantes do livro. No fim, e sempre há de existir um fim em um livro – que não necessariamente quer dizer uma lição de moral, a morte do vilão ou viveram felizes para sempre -, personagens tão singulares inseridos em um contexto de tamanha pressão acabam se tornando se não nos destinos, iguais em sentimentos.

12345Literatura do absurdo, seu título se consagrou como expressão qualquer comando ou regra paradoxal que se constrói a partir de uma lógica auto-excludente. No livro, Ardil 22 é, resumidamente, um regulamento militar que indica que se você não estiver mais apto para o serviço militar, pode ser mandado para casa; mas o fato de não querer mais participar da guerra, temendo pela sua própria vida mostra o quão são você está, não podendo, então, ser dispensado.

– Está vendo? Imagine um homem da idade dele a arriscar a vida que lhe resta por algo tão tão absurdo quanto como um país.

– Não há nada de absurdo em arriscar a vida por seu país! – explodiu Nately, novamente.

– Não mesmo? Mas o que é um país? Um país não passa de um pedaço de terra cercado por todos os lados por fronteiras, geralmente artificiais. Os ingleses estão morrendo pela Ingleterra, os alemão estão morrendo pela Alemanha, os russos estão morrendo pela Rússia. Há agora cinquenta ou sessenta países lutando nesta guerra. Não resta a menor dúvida de que não vale a pena morrer por tantos países assim.”

p. 300 e 301, ed. BestBolso, 2010.

12345Gostaram da referência direta ao conceito central das Relações Internacionais? O que parecem ser várias histórias absurdas das tentativas de ser dispensado da guerra e atitudes que nós, que nunca estivemos lá, pensávamos impossíveis de serem arquitetadas dentro de um contexto tão sério quanto uma guerra, no qual vidas estão em jogo – alguém muda uma linha vermelha no mapa, mudando a linha de defesa do ataque aéreo – vai aos poucos se mostrando nada mais do que atitudes humanas, boas e más, seja você hobbesiano ou rousseauniano. Ou até outro conceito de RI…

…- O Coronel Cargill o inveja por causa do esplêndido trabalho que está realizando com as paradas. Receia que eu vá entregar-lhe o comando dos bombardeios padronizados.

O Coronel Scheisskopf estava alerta.

– E o que são os bombardeios padronizados?

– Bombardeios padronizados? – repetiu o general Peckem, radiante de autossatisfação. Bombardeios padronizados é uma expressão que imaginei há algumas semanas. Não significa absolutamente nada, mas ficaria supreso se soubesse como o conceito rapidamente se disseminou…”

p. 398, ed. BestBolso

12345Não se assustem com a quantidade de páginas, meu livro tem umas 500 páginas, mas é edição de bolso. Para além de um romance [2] de ficção delicioso de ser lido com umas coisinhas muito interessantes, do tipo: é baseado na II Guerra Mundial (pela própria experiência do autor como bombardeador nesse conflito) mas há referências a computadores da IBM, a leitura vai ficando super acelerada quando todas as partes do mosaico se completam e as críticas à guerra vão ficando mais explícitas, as atitudes dos personagens mais intensas e irracionais e algumas cenas vão se tornando bastante associativas para nós. Para qualquer livro que se inspire em alguma guerra ou conflito, o que resta é o mesmo pensamento: ela nunca vale a pena.

[1] O livro. Há uma versão cinematográfica e até uma série (M.A.S.H.) baseados no livro. Não vi, por que tenho trauma de algumas versões cinematográficas baseadas em livros, mas acho que vou até dar uma olhadinha na série.

[2] Sempre que falo isso as pessoas olham com uma cara meio esquisita pra mim e eu fico com cara de retardada. Gente, romance não é romaaaance romaaaance, é qualquer livro não-didático. Dentro do romance há diversos gêneros: drama, comédia, tragi-comédia, fantasia, ficção científica, romaaaance…

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