Empregada doméstica? Mas como é que isso é RI?

por Marina Sertã

Thaís me chamou pra assistir um filme no domingo a noite. Ela estava louca pra assistir o filme. Queria porque queria assistir o filme. Porque a gente bem que podia assistir o filme da Regina Cazé esse fim de semana, né? Ué, então vamos ver o filme! Mil vezes mais organizada, ela achou um cinema, a sessão e o horário. E eu só peguei minha bicicletinha e fui.

Pois bem, eu não sabia nem qual era a droga do filme quando fui comprar nossos ingressos. Fiquei olhando pra ~vasta~ programação pendurada na bilheteria do Cinema Joia, até descobrir que o único passando 20:10 era Que horas ela volta? mesmo.

Pois bem, 112 minutos depois – hell, 5 minutos depois – estava eu, olhos colados na tela, imóvel, encantada por aquele monte de som e luz aparecendo na minha frente.

Mas por que o encantamento? dirá você, querida leitora. Ou melhor, por que falar desse filme no nosso blog?

Porque esse filme É RI.

É RI? Mas como assim É RI? “Ela”, no título, é a Dilma, é a Merkel? Ela volta de onde? De uma reunião da ONU, do Mercosul, dos BRICS, da União Europeia? Voltar como assim? Voltar os olhos para os refugiados haitianos no Brasil, ou os que atravessam o Mediterrâneo pra cair em Lampedusa?

Não. O filme é sobre uma empregada doméstica.

Uma empregada doméstica que virou presidente?

Não.

Uma empregada doméstica brasileira nos Estados Unidos?

Não.

Uma empregada domésticaaa… uma empregada domés… Mas como é que isso é RI?

***

Que horas ela volta? gira em torno de uma empregada doméstica pernambucana que vai pra São Paulo trabalhar na casa de uma família no Morumbi. A Val mora no quartinho dos fundos da casa da dona Barbara e do seu Zé Carlos. Ela é, assim, quase da família, sabe? Viu o Fabinho crescer, sempre cuidou dele como se fosse um filho. O dinheiro que ela ganha trabalhando na casa deles ela manda para Pernambuco para criarem a sua filha, Jéssica. Eis que um belo dia, Jéssica liga para Val pedindo pra ficar com ela pra fazer o vestibular da USP pra Arquitetura.

E assim toda a estrutura social na qual as relações que se deram durante os treze anos da passagem de tempo no filme começa a ruir.

O que me parece mais genial em todo filme é o estranhamento que se coloca entre mãe e filha, Val e Jéssica, em relação às regras tácitas daquela estrutura social. Onde você come, onde você dorme, quais cômodos da casa vocês frequenta, que funções você desempenha, o que você aceita, como você fala. Tudo isso é questionado na dinâmica que se põe entre as duas: Val perplexa que a filha não saiba o seu lugar e Jéssica indignada que a mãe se coloque em tamanha posição de inferioridade.

Essas posições têm cenas muito emblemáticas no filme no qual. Do lado de Val, uma cena que em Jéssica acabou de almoçar com seu Zé Carlos, e ela está brigando com a menina, falando que quando eles oferecem alguma coisa, é por educação, é porque sabem que a gente não vai aceitar. E aí, se a gente para um pouquinho pra escutar, ouve o Jessé Souza falando que “Às gerações que já nascem sob a égide das práticas disciplinadoras já consolidadas institucionalmente, esse modelo contingente assume a forma naturalizada de uma realidade auto-evidente que dispensa justificação?”1 Da mesma forma em que mais a frente, elas duas estão brigando por essas regras tácitas da empregada doméstica, e Jéssica, indignada, pergunta para Val onde que ela aprendeu isso, quem ensinou. Mais uma vez, a gente consegue ouvir o Jessé falando que esse “pano de fundo inarticulado permanece implícito, comandando silenciosamente nossa atividade prática e abrangendo muito mais que a moldura das nossas representações conscientes”.

***

E é aí que está uma questão muito importante pra mim, que é toda aquela historinha da diferença. Porque diferença não necessariamente é alguém de uma nacionalidade diferente. Diferente é aquele que não pode comer com a gente, que não pode frequentar os mesmos espaços, agir da mesma forma. Aliás, a gente aqui no Brasil é mestre em tratar os gringos como mais do que iguais e discriminar brasileiros de classes diferentes.

A história que contam é que a gente deferiu o problema da diferença2, que quando inventaram o Estado, homogeneizaram pra dentro e empurraram a diferença pra fora. Mas esse filme mostra o quanto as diferenças nunca foram embora, como a diferença é interna não só no sentido de dentro do seu país como dentro da sua própria casa. E o quanto a gente precisa dessas diferenças, não só aquelas em que a gente consegue marcar um nós e eles nacional, como é no caso do problema da formação do Estado, mas também de um nós e eles ricos/classe média x pobres, brancos x negros, playboys e patricinhas da zona sul x favelados. É assim que classe se torna um problema das RI, e é assim que a gente pode ler o Jessé Souza para e entender as relações internacionais.

Só que o problema é que a demarcação da diferença não é uma questão puramente teórica, semântica. Existe categorias, mas elas são só nomes. Poderia ser o problema do x-bacon e do milk-shake. Não! O problema dessas categorias, como Que horas ela volta? é bem capaz de mostrar pra gente, é que pessoas que estão na categoria “empregada doméstica” são subcidadãs. Elas não são gente igual a gente. Elas não podem comer com a gente. Elas não podem comer nem o mesmo sorvete que a gente. Elas não podem andar nos mesmos espaços que a gente. Deus que me livre se a filha da empregada entra na piscina! Manda dedetizar! Ela tem que se recolher ao seu lugar. Ela não tem que aceitar nada não! E abaixa essa cabeça, que você está se achando de mais! Daqui a pouco tá até achando que é gente, querendo fazer Arquitetura na FAU. Onde já se viu?

***

É assim que Quando ela volta?, sem mostrar um passaporte ou chefe de Estado, me diz mais sobre as Relações Internacionais – relações internacionais, reLaçÕes InteRnaCionaIs, que sejam – do que muita seção internacional de jornal.

Se nós pensarmos RI como demarcação e produção de fronteiras, de dentros e foras, nós e eles e todas as práticas de exclusão, a gente consegue entender como Quando ela volta? É RI. A gente consegue ver as ligações entre a existência de cidadãos de segunda classe no Brasil e o menino turco cuja foto chocou todo mundo hoje. Todas essas pessoas estão em uma categoria enorme de pessoas que são menos, que não têm os mesmos direitos que nós, de vidas que valem menos, que, em última instância, não têm direito de existir.

Bom, fica pra vocês um gostinho desse filme maravilhoso:


  1. Esses trechos estão no Raça ou Classe? Sobre Desigualdade Brasileira, do Jessé Souza. Ao contato com esse, e vários outros brilhantes pensadores brasileiros, assim como à proposta de ler as Relações Internacionais a partir dos problemas brasileiros, eu agradeço muito ao professor Victor, que permitiu isso no espaço da sua disciplina de Modernidades Brasileiras.
  2. Mais sobre esse argumento no capítulo do Naeem Inayatullah e David Blaney, The Westphalian Deferrel, do livro deles, International Relations and the Problem of Difference.
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