Como a tecnologia está afetando a vida dos refugiados?

por Julia Zordan

Nas últimas semanas só se tem falado em um assunto: refugiados. Como não poderia deixar de ser, esse vai ser o assunto dos posts dessa semana d’O Furor.
Refugiados são pessoas que buscam proteção em outro território que não o de origem ou de residência, por motivos que variam de guerras a desastres naturais, passando por motivos de perseguição política, religiosa, racial, de orientação sexual ou de pertencimento a um determinado grupo social. Os casos dos refugiados haitianos e sírios têm sido os mais vistos na mídia brasileira. No Brasil, o número de refugiados passou de 4.218 em 2011 para 8.400 em 2015 [1]. A tendência, no entanto, é de aumento deste número, por conta da crise de imigração que vivemos. Os números do Brasil são pequenos se comparados a níveis internacionais – calcula-se que os refugiados representassem 1% da população Brasileira em 2014, enquanto em outros países esse número varia entre 10 e 25% [2]. Segundo a Anistia Internacional, a Turquia é o país que abriga o maior número de refugiados sírios. Segundo dados de 4 de setembro de 2015, são 1.9 milhões [3].


refugee_map

Esses dados nos ajudam a ter uma ideia da dimensão do problema. Só que a gente já tem plena ideia da dimensão do problema. Vivemos no século XXI, onde o acesso à tecnologia e à informação é algo cotidiano. Temos plena dimensão do problema quando vemos a foto do menino Aylan Kurdi, que tentava chegar com a família à Turquia, mas morreu afogado. Temos plena dimensão do problema quando vemos campanhas online para ajudar os refugiados, como a campanha que arrecadou 70 mil dólares [4] para o Abdul, um sírio palestino, pai solteiro de duas crianças, fotografado enquanto vendia canetas em um sinal de trânsito para tentar sustentar sua família em Beirute, no Líbano.
Abdul
É incrível perceber como as tecnologias usadas hoje em dia vêm transformando a vida dessas pessoas, que vivem situações tão delicadas. Como têm mais acesso às informações sobre a situação, as pessoas se sensibilizam e se importam mais, como se sensibilizaram com o caso de Aylan. As pessoas ajudam, da forma que podem, esses refugiados, como ajudaram Abdul. Tendo mais acesso às informações, as pessoas também cobram mais dos governos e da comunidade internacional para que sejam tomadas medidas mais efetivas para alívio do sofrimento desses refugiados. As pessoas também acabam tornando-se mais receptivas a esses refugiados [5]. Várias ONGs, como as britânicas Refugee Council e a Bail For Immigration Detenees, utilizam-se da tecnologia para oferecer recursos online que oferecem assistência jurídica aos refugiados [6].
Mas mais do que isso: a tecnologia está sendo usada como facilitadora do processo de imigração e de auto-organização dos refugiados: eles se comunicam uns com os outros através de grupos criados na internet – como os “grupos sírios “Clandestinos na União Europeia”, com quase 24 mil membros, e “Como Emigrar para a Europa”, com mais de 39 mil membros” [7]. Nesses grupos, eles trocam informações sobre caminhos mais curtos para chegar aos destinos desejados, presença militar, etc.:

“Relatar em tempo real a viagem, comunicar prisões e a presença de militares nas fronteiras são apenas alguns dos usos que fazem do celular um artigo essencial para os imigrantes do Oriente Médio e da África que querem chegar à Europa. No Facebook, páginas e grupos em árabe são destinadas para sírios e iraquianos que desejam emigrar clandestinamente. Informações sobre como cruzar fronteiras, relatos de quem chegou do outro lado e até anúncio de traficantes de pessoas são as postagens mais comuns” [8].

Aqueles que já estão instalados em campos de refugiados utilizam-se de ferramentas como o whatsapp para transmitir mensagens e alerta de emergência no acampamento [9]. Os refugiados usam os canais da internet para manter contato com suas famílias, com suas origens, e até mesmo com suas causas. Esse é o caso de Moses Walusimbi [10], que fugiu das leis de combate à homossexualidade vigentes em Uganda e foi para a Holanda, de onde administra o movimento Uganda Gay On Move. Através do movimento, ele ajuda outros ugandenses que conseguiram fugir da perseguição, bem como publica informações úteis aos que ficaram, para que eles possam conseguir asilo. Tendo percebido a importância da tecnologia para os refugiados, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) distribuiu 33 mil chips de celular para refugiados Sírios na Jordânia, e entregou mais de 85 mil lanternas solares (usadas para carregar a bateria de celulares) [11].
Obviamente essas pessoas correm muitos riscos em um ambiente ainda sem regulação concreta como é a internet. Ainda que usem nomes falsos e tomem cuidado com ferramentas de geolocalização, há casos de ameaças e de emboscadas –  “é comum soldados do governo e membros do Estado Islâmico pedirem a senha do Facebook para avaliarem o perfil das pessoas na rede social. ‘Se você não der sua senha do Facebook para os soldados, eles podem te bater, destruir seu celular ou pior’” [12]. Apesar de todos os benefícios e facilidades trazidas pela internet aos refugiados, ainda falta segurança para a comunicação anônima entre eles:

“Os refugiados e imigrantes certamente se beneficiam dos usos de mídia social que também beneficiam os demais usuários de intenet; mas as plataformas que começam a surgir nessa área específica podem ajudar a quebrar o modelo tradicional de imigrante solitário e isolado. Ferramentas especificamente concebidas para atender às necessidades dos excluídos têm o potencial de criar mudanças mais significativas em um mundo unido por redes” [13].

A mesma tecnologia que faz parte do nosso dia-a-dia está mudando a vida de pessoas que vivem situações extremamente delicadas. O uso da internet traz muitas vantagens para os imigrantes, como a posse de informações-chave que podem facilitar a chegada ao seu destino. Porém, também traz riscos, potencializados pela falta de uma regulamentação concreta do ambiente virtual, em especial no que diz respeito à garantia de anonimato. Não me parece que esse é um problema que será resolvido em uma janela de tempo próxima, então cabe à sociedade civil fazer o possível para ajudar essas pessoas – seja na recepção delas em seus países, seja na programação de sistemas de comunicação que garantam o anonimato e as protejam, seja pressionando para que os governos utilizem dos instrumentos já existentes, ainda que sejam insuficientes e frágeis, para garantir a segurança, em todos os sentidos, dessas pessoas, tanto no ambiente real quanto no ambiente virtual.

Referências:
[1] AGENCIA BRASIL. Brasil tem uma boa política de acolhimento de refugiados, dizem especialistas. Brasil Post. São Paulo. 7 de setembro de 2015. Disponível em: http://www.brasilpost.com.br/2015/09/07/brasil-politica-refugiados_n_8099146.html?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004
[2] WEBER, Demetrio. Número de novos refugiados por ano, no Brasil, cresceu 1.255% entre 2010 e 2014, diz Acnur. O Globo. Rio de Janeiro. 18 de novembro de 2014. Disponível em: http://oglobo.globo.com/brasil/numero-de-novos-refugiados-por-ano-no-brasil-cresceu-1255-entre-2010-2014-diz-acnur-14589717
[3] ANISTIA INTERNACIONAL. Syria’s refugee crisis in numbers. Londres. 4 de setembro de 2015. Disponível em: https://www.amnesty.org/en/latest/news/2015/09/syrias-refugee-crisis-in-numbers/
[4] PORTELA, Frederico. Foto comove a web e campanha arrecada mais de 70 mil dólares para refugiado. O Globo. Rio de Janeiro. 28 de agosto de 2015. Disponível em: http://blogs.oglobo.globo.com/nas-redes/post/foto-comove-web-e-campanha-arrecada-mais-de-60-mil-dolares-para-refugiado.html
[5] GLOBO, O. Em dia de solidariedade, milhares de refugiados têm recepção calorosa na Alemanha. O Globo. Rio de Janeiro. 06 de setembro de 2015. Disponível em: http://oglobo.globo.com/mundo/em-dia-de-solidariedade-milhares-de-refugiados-tem-recepcao-calorosa-na-alemanha-17418354
[6] DAPONTE, Jason. Refugiados Usam Tecnologia Para Manter Contato Com Suas Famílias. Folha de São Paulo. São Paulo. 19 de março de 2015. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/03/1605057-refugiados-usam-tecnologia-para-manter-contato-com-suas-familias.shtml
[7] G1. Imigrantes Usam Smartphones e Redes Sociais Para Chegar à Europa. G1. São Paulo. 27 de agosto de 2015. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/08/imigrantes-usam-smartphones-e-redes-sociais-para-chegar-europa.html
[8] G1, loc. cit.
[9] DAPONTE, Jason. loc. cit.
[10] DAPONTE, Jason. loc. cit.
[11] G1, loc. cit.
[12] G1, loc. cit.
[13] DAPONTE, Jason. loc. cit.

Anúncios

5 comentários sobre “Como a tecnologia está afetando a vida dos refugiados?

  1. Amei, Ju! Muito legal saber isso tudo: eu não fazia ideia, por exemplo, destes grupos no FB. Que desantenada, eu! haha

    Mas só uma coisa: O número de refugiados no Brasil que escreveste (que está na notícia do Brasil Post) são só aqueles que já conseguiram o status de refugiado, então, né?
    Porque só haitianos já são mais de 40 mil no Brasil. E eles nem aparecem na lista. Imagino que por terem o status diferente (visto humanitário?) (talvez?)
    Mas muito legal mesmo! Adorei!

    Curtir

  2. Pingback: Como a tecnologia afeta nossa saúde? | O Furor

  3. Pingback: CPI deve votar amanhã relatório que viola liberdades na internet – Otras Voces en Educacion

  4. Pingback: CPI presidida pela tucana Mariana carvalho deve votar hoje relatório que viola liberdades na internet   – Blog do Kuppê

  5. Pingback: CPI presidida pela tucana Mariana Carvalho deve votar hoje relatório que viola liberdades na internet | Mais RO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s