Um epitáfio para Palmira

por Franco Alencastro.

Conheci um viajante de antiga terra
que disse: – Duas pernas destroncadas, pétreas,
estão no deserto. Perto delas, soterra
a areia meia face despedaçada,

cujo lábio firme e poderio de olhar, frio,
diz que seu escultor bem lhe leu as paixões
que sobrevivem, nas meras coisas sem vida,
à mão que zombou e ao coração que nutriu.

E no pedestal tais palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, o rei dos reis:
Vejam minhas obras, ó fortes – desesperem-se!”

Nada resta: junto à ruína decadente
e colossal, de ilimitada aridez,
areias, lisas e sós, ao longe se estendem.

-“Ozymandias”, de Percy Shelley (trad. Tomaz Amorim Isabel)

Em agosto deste ano, o grupo EI – Estado Islâmico – que luta pelo estabelecimento de um Califado nas terras habitadas por muçulmanos, iniciou a destruição do templo de Baalshamin, na cidade de Palmira, na Síria. Fundada hà 4 mil anos, passou pelas dominações dos Impérios Assírio, Selêucida, Romano, do Califado Omíada, Abássida e Mameluco, do Império Otomano e do Colonialismo Francês, antes de terminar sob a tutela da família Assad, na segunda metade do Século 20. Palmira chegou a ser até capital de um próspero mas êfemero império, que durou dois anos (270-272). [1]

Se os prédios de Palmira testemunharam tanta história ao longo dos últimos 4 mil anos, é possível que isso não dure. A captura pela cidade do EI é uma das mais sérias ameaças ao famoso sítio arqueológico de Palmira desde que este foi credenciado pela UNESCO – A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – como um Patrimônio Cultural da Humanidade em 1980, já na 4a rodada da seleções.

A destruição do templo de Baalshamin – mais conhecido no Ocidente como Baal, o deus dos Cananeus, um dos povos do Velho Testamento – segue uma cartilha simples, adotada pelo EI: qualquer deidade que não seja Alá, qualquer profeta que não seja Maomé, é falsa e seus locais de adoração devem ser destruídos. Com esse mesmo critério, o EI tem arrasado inúmeras outros resquícios das civilizações antigas da Mesopotâmia, o berço da agricultura, das primeiras cidades, das primeiras línguas e de quase tudo que entendemos como civilização. A morte de Palmira é nada menos que a morte da civilização.

A destruição de nossa história – nossa no sentido verdadeiramente humano do termo – é algo profundamente doloroso para mim. Sou da opinião de que nada de bom, seja o que for, foi criado sem que se olhasse minimamente para o passado. Um povo em conexão com sua história é um povo que vive séculos e sonha milênios; ele é conectado a uma rica cultura, às lutas, às realizações de seus antepassados; quando ele sabe sobre elas, ele de certa forma se apossa delas também. Um povo sem história recomeça a vida a cada nascer do sol.

O projeto do EI, muito mais do que seu discurso sobre acabar com blasfêmias ao Profeta Maomé pode sugerir, é pura e simplesmente apagar a história. É criar um Oriente Médio fantasioso onde todas as ricas culturas que existiram antes deles – os Assírios, os Babilônios, os Fenícios, os Persas – são eliminados em prol da verdade absoluta de uma vertente literal do Alcorão. É um genocídio.

Somos levados a pensar na transitoriedade das criações humanas, onde mesmo uma cidade que já resistia, ainda que inabitada, hà mais de 4 mil anos de intempéries, pode sucumbir desta maneira. Citei o poema ‘Ozymandias’, de Shelley, que fala de um rei que deixa ao mundo uma dedicatória proclamando as glórias de seus monumentos… e só, já que quando o eu lírico o encontra, nada sobra dos monumentos, transformados em areia no deserto.

Por mais que seu projeto fale no retorno a um passado glorioso do Islã – o mítico Califado – o projeto do EI nada tem de histórico. É, antes de tudo, uma tentativa de transformar as terras controladas por ele em uma terra do eterno presente, imutável. É a mesma coisa com todas as ideologias que pregam a novidade, o avanço, o progresso – em um caso, o passado é incômodo pois não corresponde à nossa visão utópica; no outro, ele é incômodo por apenas existir.

Vendo por esse ângulo, o EI não é a única pessoa que está se encarregando de acabar com a história da humanidade: Em 2001, o regime Talibã do Afeganistão dinamitou as famosas estátuas gigantes de Buda em Bamiyan.

Os Budas de Bamyian; acima, a estátua (com pessoas embaixo) e abaixo, sua destruição.

Mas o capitalismo é tão capaz quanto as ditaduras teocratas de apagar o passado: em 2013, descobriu-se que uma construtora tinha destruído intencionalmente uma pirâmide de 4 mil anos no Peru. A história recente é coalhada de exemplos como esse: Josef Stalin e a intelligentsia soviética consideravam a religião um sinal de atraso e ordenaram a destruição da Catedral Cristo Salvador em Moscou, que foi substituída por uma… piscina.

A Catedral do Cristo Salvador, em Moscou, no início do Século 20 (acima) e após sua destruição (abaixo)

Outros exemplos são ligeiramente mais felizes: quando Hitler ordenou a seu comandante Dietrich Von Choltitz que, diante do avanço das tropas aliadas, ateasse fogo à cidade de Paris, o comandante hesitou até por fim recusar destruir uma das cidades mais belas do mundo só para salvar o orgulho de um fascínora.

É claro, podemos nos perguntar: o que esconde o passado? Atrás de suas honrosas fachadas, há também muita destruição – inclusive de passados anteriores. Paris, afinal, quase 100 anos antes de ser salva do fogo por Choltitz, quase foi inteiramente ao chão: a velha Paris medieval foi destruída para dar lugar à cidade-fetiche do Imperador Napoleão III, repleta de avenidas largas, grandes prédios e lojas chiques. Como seu tio, que a seu bel prazer redesenhou o mapa da Europa, Napoleão “O Pequeno” era alguém para quem o passado tinha muito pouco valor.

A própria Palmira não foi sempre um sítio arqueológico: era, antes disso, uma cidade vibrante, saqueada pelos Timúridas (descendentes de Gêngis Khan) no Século 15 e deixada desabitada. Se suas ruínas ancestrais puderam chegar até nós, em parte é porque não sobrara ninguém para construir sobre elas.

O passado oculta violência. Isso não precisa nos impedir de pensar sobre ele criticamente, sem, para tanto, abandoná-lo. Que este seja mais do que um obituário, e sim um epitáfio para Palmira.

[1] ALBUQUERQUE, M., REIS, A. e CARVALHO, C. Atlas histórico escolar. MEC/FENAME/RJ, 1980.

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2 comentários sobre “Um epitáfio para Palmira

  1. Pingback: Em busca das relíquias perdidas | O Furor

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