Em busca das relíquias perdidas

por Clarissa Reis Guimarães.

Após o texto extremamente bem escrito do Franco, não pude deixar de aproveitar o gancho para falar do meu objeto de pesquisa e da minha paixão de infância: antiguidades e obras de arte. Sou daquelas que adora um museu e me esbaldo quando viajo para algum lugar e posso ter o contato com todo aquele clima de sabedoria, de reverência e opulência relacionada ao passado.

O único problema, que aprendi com a pesquisa, é que nesse mundo, nem tudo é o que parece.

Na verdade, foi uma tremenda desilusão para mim ter que admitir que todo o mercado que sustenta grandes coleções de artigos culturais atualmente, dirigidas tanto por museus quanto por colecionadores particulares, poderia ter implicações diretas na herança cultural dos povos e nos fluxos de conhecimento provenientes de um mundo em processo de globalização.

E essa não é nem de longe a pior parte.

       Otemplo de Baalshamin, destruído pelo EI em Setembro deste ano

Temos observado as consequências dos conflitos no Oriente Médio e Norte da África, não apenas relacionadas à crise de refugiados que buscam asilo na Europa, mas principalmente, ao avanço cada vez mais tangível do grupo terrorista intitulado Estado Islâmico – EI – nos territórios do Iraque e da Síria. As ações violentas do EI têm sido bastantes documentadas pela mídia internacional desde o ano passado, quando vimos o crescimento de seu poderio e influência nos territórios ocupados pelo grupo.

Mas o que isso tem a ver com o mercado internacional de antiguidades?

            O Estado Islâmico vem promovendo uma destruição sistemática, quase em escala industrial, de diversos sítios arqueológicos e museus. Essa destruição tem sido respaldada, principalmente por uma interpretação da fé islâmica que considera qualquer manifestação artística em forma humana ou representando deuses pagãos, como um desrespeito a Alá e ao Profeta Maomé.

            Uma das partes sujas é que esse grupo terrorista não apenas tem destruído patrimônios históricos e promovido um processo de iconoclastia generalizada. Não. O EI tem vendido uma imensa quantidade de objetos culturais provenientes das áreas ocupadas da Síria e do Iraque, o que vem fomentando largamente suas atividades terroristas desde meados do ano passado.

            Atualmente, tem se discutido que o tráfico de antiguidades corresponde à segunda maior fonte de renda do grupo fundamentalista, ficando atrás apenas da venda de petróleo no mercado negro. Essas estimativas relacionadas às declarações da UNESCO [1] admitem as enormes proporções que esse tráfico tem adquirido. Ainda não há meios de atestar o tamanho dos ganhos financeiros provenientes dessas transações, já que devemos considerar seu caráter ilícito e, portanto, quase impossível de ser rastreado.

            O link deste ilícito com a prática de grupos terroristas tem sido estudado de forma intensa recentemente, mas os arqueólogos e juristas imersos nesse debate vêm explorando há tempos (principalmente inspirados pelo caso do Camboja durante o governo genocida do Khmer Vermelho) as redes de transações que conectam o comércio ilícito de antiguidades com o crime organizado e grupos insurgentes violentos. [2]

            Nos casos do Afeganistão e do Iraque, a pesquisa de campo fica bastante comprometida pela periculosidade daquelas regiões, mas testemunhos do exército americano entre outras fontes têm comprovado a trajetória desse ilícito nas últimas décadas. Principalmente devido às sanções impostas a esses países, em conjunto com as intervenções do ocidente, e a pobreza da população, os insurgentes locais se voltaram para o saque e a pilhagem de relíquias a fim de se abastecerem economicamente. [3]

            Não é difícil imaginar por que os terroristas têm utilizado as antiguidades como bens de troca, considerando a importância dessa região como berço da humanidade e toda sua riqueza arqueológica; além, é claro, de todo o valor monetário atribuído a cada artefato. Arquivos confidenciais americanos expostos pelo WikiLeaks sugeriam claramente a participação de traficantes de antiguidades na condução de negócios com os insurgentes durante a Guerra do Iraque. Peter Campbell, Ph.D. da Universidade de Southampton no Reino Unido menciona, em um artigo de sua autoria, um report onde consta que o responsável pela venda de lançadores de foguetes e armas aos insurgentes próximos às ruínas sumérias de Ur, era também um traficante de relíquias. [2]

            Assim como antes as relíquias financiavam os insurgentes iraquianos, agora elas vêm prestando esse papel ao Estado Islâmico. Porém, como todo ilícito, o tráfico de antiguidades se sustenta majoritariamente devido à sua demanda. Essa grande e poderosa demanda se concentra principalmente nos grandes centros culturais do que os internacionalistas chamam de “Norte Global”. Ricos colecionadores da Europa, Ásia e América do Norte se valem principalmente de situações de conflito para aumentar suas coleções; o problema é que no caso do EI, as origens do financiamento do tráfico e do grupo terrorista em si vem principalmente dessa demanda inescrupulosa. [4] Afinal de contas, quem coloca um preço nas antiguidades? Quem atesta a sua autenticidade? Quem realmente valoriza o caráter artístico do objeto?

            O que nos leva a pensar instantaneamente no ciclo vicioso que o tráfico de relíquias promove: as potências ocidentais intervêm no Oriente Médio a fim de neutralizar o Estado Islâmico, mas segmentos poderosos de suas populações são parcialmente responsáveis pela sobrevivência e manutenção do conflito e do poderio do grupo terrorista.

            Por isso, as autoridades internacionais finalmente têm admitido a seriedade da situação. A “Antiquities Coalition” – um grupo que tenta monitorar os sítios e as antiguidades que aparecem no mercado além de lutar por uma legislação internacional mais forte contra o tráfico – comenta que houve um aumento da oferta de antiguidades do Iraque e Síria no mercado dos colecionadores no último ano. O Conselho de Segurança da ONU e a Financial Action Task Force, um corpo internacional que visa conter o financiamento ao terrorismo e a lavagem de dinheiro, vêm descobrindo documentos e testemunhos que citam o papel do Estado Islâmico no comércio de Relíquias. [3]

            O que o leitor deve entender é que, por mais que esse comércio seja ilícito, não há um devido “Mercado Negro” de antiguidades. O Mercado de arte e artefatos arqueológicos é principalmente “cinza”, já que a legislação existente para conter o tráfico é frequentemente ignorada e insuficiente para seu propósito. As antiguidades são vendidas aos últimos compradores como legítimas e, a partir disso, não há muitos questionamentos sobre a sua proveniência, visto que apenas a presença e passagens em instituições renomadas acabam “limpando” seu caráter ilícito. [5]

            No caso das antiguidades provenientes da Síria e do Iraque, tem-se observado que o EI vem se capitalizando em cima de um comércio ilegal previamente existente, o que começou durante os protestos de 2012, primeiramente cobrando 20% de imposto sobre escavações “licenciadas” e depois, adquirindo seus próprios arqueólogos e equipamento, assumindo inteiramente o poder sobre o tráfico. Mas a trajetória das relíquias roubadas continua até países vizinhos como a Turquia ou o Líbano, para onde são contrabandeadas e vendidas a mercadores locais, que têm contatos com diversos traficantes europeus. Depois, esses artefatos iriam principalmente para a Europa (países como Suíça e Alemanha) onde são “lavados” e têm seus certificados de proveniência devidamente falsificados ou forjados com o consentimento de conservadores. Por fim, os itens que possuírem uma papelada bastante “autêntica” serão facilmente vendidos em casas de leilão localizadas em países como os EUA e Reino Unido. [4]

            Nessa trajetória, muitas antiguidades acabam não apenas em grandes coleções privadas e de museus, elas acabam no eBay; e isso pode nos dar a noção da grandiosa oferta de antiguidades, e da sua escavação e roubo em “escala industrial”. [4]

            E essa é apenas a ponta de um enorme movimento que, aparentemente tem raízes bastante “institucionalizadas”. A cada dia, novas descobertas podem ajudar a combater de forma mais efetiva esse tráfico, que envolve tanto sangue, tanto passado e tanta cultura.

[1] OSBORN, A. Islamic State looting Syrian, Iraqi sites on industrial scale – UNESCO. Reuters, London, 02/07/2015. Disponível em: http://uk.reuters.com/article/2015/07/02/uk-mideast-crisis-unesco-idUKKCN0PC1OS20150702

[2]PRINGLE, H. New Evidence Ties Illegal Antiquities Trade to Terrorism, Violent Crime. National Geographic, 13/07/2014. Disponível em: http://news.nationalgeographic.com/news/2014/06/140613-looting-antiquities-archaeology-cambodia-trafficking-culture/

[3]WILSON, R. The illegal antiquities trade funded the Iraqi insurgency. Now it’s funding the Islamic State. 09/03/2015. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2015/03/09/how-shady-art-dealers-help-fund-the-islamic-states-violent-insurgency/

[4]SHABI, R. Looted in Syria – and sold in London: the British antiques shops dealing in artefacts smuggled by ISIS. 03/07/2015. Disponível em: http://www.theguardian.com/world/2015/jul/03/antiquities-looted-by-isis-end-up-in-london-shops

[5] BRODIE, N. Introduction. In: BRODIE, N.; TUBB, K. W. (Ed.) Illicit Antiquities – The Theft of Culture and the Extinction of Archeology. Londres e Nova York: Routledge, 2002. p. 1-23. (One World Archeology, v. 42).

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