Olhando o passado para compreender o presente.

por Mônica Aguiar.

          Quando eu tinha 9 anos fiquei muito impressionada com uma fotografia que correu o mundo e eventualmente ganhou o prêmio Pulitzer. Tratava-se de uma menina vietnamita de minha idade, correndo nua por uma estrada e com o rosto deformado pelo choro e pelo medo. Por mais que eu tentasse, não conseguia entender as complexidades da Guerra do Vietnã e atribuía essa dificuldade ao fato de ter chegado tarde à História e ter perdido os “capítulos anteriores”. Acreditava que ao me tornar adulta e acompanhar desde o início o desenrolar de um acontecimento seria mais fácil entender as guerras ao meu redor. Os anos se passaram, mas essa sensação de estranhamento nunca me abandonou por completo. Terminei por me dar conta de que os acontecimentos políticos que vemos por aí respondem a dinâmicas cujas origens são mais distantes do que uma geração humana.

          Outro dia, ao assistir a XII Conferência de Segurança Internacional promovida pela Fundação Konrad Adenauer, tive a oportunidade de ouvir o palestrante russo manifestar-se sobre a atuação de seu país na Criméia e na Síria. Verdade seja dita, ele esquivou-se o máximo possível do assunto sob o pretexto de que o Ocidente não compreendia a perspectiva russa. Dentro do espírito do meu parágrafo anterior, resolvi refletir sobre aquela afirmação e buscar no passado as motivações para as decisões tomadas por Moscou no campo das Relações Internacionais.

          No seu magnífico livro Pós-Guerra: uma história da Europa desde 1945, o historiador britânico Tony Judt, declara não ser a política externa assumida por Stalin após a II Guerra Mundial muito diferente da de seus predecessores, os czares[1]. A afirmação faz sentido, visto que um país não muda de espaço e permanece dentro das mesmas condições geopolíticas.  Devido ao seu imenso território (hoje 17 milhões de km², mas durante o século XIX e a existência da URSS eram 22 milhões de km²) e sua localização geográfica entre Oceano Pacífico e Mar Negro e entre Ártico e Himalaia, a Rússia sempre se sentiu cercada por nações hostis e obrigada a proteger suas extensas e vulneráveis fronteiras contra os interesses alheios.

          Em 1812, os russos passaram por uma experiência que iria deixar uma marca indelével. A Grande Armée (nome dado ao exército de Napoleão Bonaparte) invadiu o país e percorreu o território russo até chegar a Moscou (capital do Império até 1712). Qualquer pessoa que tenha lido Guerra e Paz se comove com a agonia dos russos frente à invasão francesa e se aflige com a desordenada evacuação da cidade. Sabemos também que uma das estratégias escolhidas para dificultar a marcha e o abastecimento dos exércitos franceses foi a de queimar terra, colheitas e cidades previamente à sua chegada. Quando o Czar Alexandre I participou do Congresso de Viena em 1815, fez questão de deixar claro que nunca mais um exército estrangeiro poderia chegar desimpedido a Moscou. Os demais Romanov aderiram à ideia de consolidar um glacis a fim de proteger o território de seu país. O glacis é um termo francês que se refere ao terreno em declive que antecede e dificulta a chegada às muralhas da fortaleza medieval. Como tal, ele integra a estratégia de defesa do conjunto. Um século e pouco depois, as tropas nazistas invadiram a União Soviética, mas desta vez os russos conseguiram evitar que Moscou (capital desde 1918) fosse capturada. Depois desse terrível déjá vu, Stalin, primeiro em Yalta e depois em Potsdam, recriou o glacis, estabelecendo ao redor da União Soviética um cinturão de proteção composto por Estados satélites com regimes simpatizantes e que viriam a se unir no Pacto de Varsóvia.

             Em 1989, o desmantelamento da cortina de ferro levou ao fim do glacis protetor e os russos tiveram a impressão de que havia sido em vão o sacrifício feito pelas mais de 20 milhões de vítimas da II Guerra Mundial.  Quando em 1991 as próprias repúblicas que compunham a União Soviética se desuniram, a prioridade da política externa russa passou a ser a de promover relações com os onze dos quinze Estados que haviam concordado em participar da Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Desenvolveu-se nesse período o conceito de “estrangeiro próximo” para se referir a esses países com História compartilhada e integrando o espaço de segurança russo. Em 2008, o Presidente Medvedev referiu-se a essa zona como sendo de interesse privilegiado, visto Putin já ter se lamentado sobre o colapso da União Soviética ter sido a maior catástrofe geopolítica do século XX[2].

      A Ucrânia era uma das repúblicas que integrava a CEI e de importância geoestratégica fundamental. Seu gesto de estabelecer uma parceria com a União Europeia em 2013 foi interpretado por Moscou como sendo desleal. Em fevereiro de 2014, a Criméia foi invadida por tropas russas e desde então a situação se arrasta sem solução. Não se trata aqui de defender a atitude russa, seja na Criméia ou na Síria, apenas de situá-la dentro de uma estratégia geopolítica que visa recuperar para o país o papel de potência global que ele perdeu nos últimos anos. Como já dizia Zbigniew Brzezinski (antigo conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter) em 1994: “sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império, mas com a Ucrânia subornada e depois subordinada, a Rússia automaticamente vira um império”. [3]

Mônica Aguiar é professora de Ciência Política e doutoranda de R.I. Só assiste futebol durante a Copa do Mundo quando se torna uma especialista no assunto. Adora discutir politica durante o jantar para lassidão do marido e dos filhos que preferem comer.

Referências:

[1] JUDT, Tony. Pós-Guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro. Objetiva. 2008.

[2] REYNOLDS, Paul. New Russian World order: the five principles. 1 set. 2008 Disponível em: http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/7591610.stm Acesso: 16 outubro 2015.

[3] BRZEZINSKI, Zbigniew . The premature partnership.  Foreign Affairs march/april 1994 Disponível em  https://www.foreignaffairs.com/articles/russian-federation/1994-03-01/premature-partnership  Acesso: 17 de outubro 2015 “without Ukraine, Russia ceases to be an empire, but with Ukraine suborned and then subordinated, Russia automatically becomes an empire.”

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