Por que o de cima sobe e o de baixo desce?

Por Felipe Teixeira

“Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece,
E que o de cima sobe e o de baixo desce”

Tendo em mente as sábias palavras em “Xibom Bombom” do grupo de axé music “As Meninas”, você já se perguntou o que provoca essa dinâmica?

Em épocas de arrastões e crises de migração, vale trazer a tona conceitos que complexifiquem os debates. Para aprofundar os argumentos essa postagem busca esclarecer uma variável relevante presente principalmente em países em desenvolvimento e emergentes. Quando iniciando um discurso é necessário perceber que quando uma grande parcela populacional resolve se converter a criminalidade ou a escapar de seu lugar de origem, o problema está em todo o sistema.

Longe de querer apontar locais de extrema pobreza como o caos na terra e fonte de todos os males, esse texto busca enfatizar a importância da atuação do estado, das universidades, da iniciativa privada e de organizações sociais em conjunto para trazer soluções para a realidade vivida por milhões de pessoas no mundo inteiro. Quer seja nas favelas de Nova Délhi, Nairobi ou Rio de Janeiro, em zonas de conflito no Oriente Médio ou no Leste Europeu, esse texto busca trazer para o leitor a consciência de que não há soluções fáceis para a pobreza e que milhões de pessoas atravessando de barco para a Europa ou pulando muros nos Estados Unidos devem ser entendidas em vez de julgadas.

Por mais que pareça óbvio, tem gente que não acordou ainda.

Além do risco claro trazidos pela guerra e perseguição religiosa ou étnica, outro fator de migração é a busca por melhores condições de vida. Parte das críticas a essas atitudes pode passar pelo discurso capitalista da meritocracia, no sentido que a pessoa decide buscar a saída mais fácil para não batalhar e conquistar suas melhores condições de vida. E eu estou aqui para te mostrar que as vezes essa saída não existe, pois essas pessoas em estado de risco social estão sujeitas a um ciclo vicioso.

De acordo com Costas Azariadis and John Stachurski, em sua definição proposta em 2005, armadilhas da pobreza (“Poverty Traps” no original em inglês) são qualquer mecanismo retro-alimentado que provoca a persistência da pobreza.  O que significa: pobreza gerando mais pobreza. Eu não sei se estou sendo o claro bastante, mas quando estamos falando de criminalidade violenta, desnutrição e trabalho escravo estamos falando de um ciclo auto-alimentado que está gerando mortes. Milhões delas.

Sentimentalismos de lado, vou explicar mais ou menos como esse ciclo funciona.

A razão atribuída com maior freqüência as Armadilhas da Pobreza é o crescimento populacional em ritmo maior que o crescimento do produto da economia. A queda do produto per capita (PIB/Habitantes) indica que a quantidade de convidados na festa aumentou mas não trouxeram mais comida: todo mundo vai comer menos. Alguns dos motivos de um baixo crescimento são externos, como uma retração nos mercados globais, desastres naturais (como no Haiti) e guerras (como na Síria).

Mas motivos externos não perpetuam um ciclo, a armadilha é retro-alimentada pois são motivos internos que reproduzem a pobreza geração após geração. As vezes o mito da meritocracia pode cegar os privilegiados a perceber que o problema na verdade é de todos nós. E para combater os problemas é preciso conhecê-los um a um.

O primeiro problema apresentado é a presença de conflitos violentos e crime organizado em uma localidade. Independente de qual seja o motivo de seu surgimento, sua presença implica em insegurança e mortes. Por si esses dois fatores denotam uma realidade triste, mas são cruéis pois também afastam os investimentos que melhoram a renda e a vida das pessoas sejam eles um salão de beleza ou uma fábrica. A morte e o medo têm um impacto profundo no tecido social da localidade e na decisão dos investidores.

No entanto locais de pobreza têm sim sua atratividade, ao se tornarem imãs para indústrias de baixa qualificação, como a de acabamentos em têxteis e calçados ou telemarketing. Essas indústrias marcadas pelo baixo investimento em capital humano têm um papel importante ao garantir renda e subsistência para a população. Se não acompanhadas de planos de desenvolvimento local esses negócios fazem pouco para quebrar o ciclo de pobreza.

Ao mesmo tempo é pouco provável que uma indústria se forme de dentro do ambiente degradado. Esse cenário é consolidado por diversos motivos, listados a seguir.

Quando uma vocação econômica está se iniciando ela é inexperiente e improdutiva, incapaz de oferecer salários altos. Novos negócios surgirão para profissionais de baixa qualificação, principalmente no setor de serviços e enfrentarão forte burocracia e carga tributária. Essas barreiras são um estímulo para que o empreendedor se mantenha na informalidade o que provoca um esparso ou nulo acesso ao capital investidor, apoio governamental e outros serviços financeiros. Ou seja o risco é alto, a atuação de investidores é baixa e os resultados são pouco efetivos.

Agora afastando de aspectos econômicos e adentrando em aspectos mais sociais da armadilha da pobreza, vemos que a situação de violência e informalidade do mercado favorece certos setores de subsistência, como o fortalecimento de uma “Economia da Pobreza” chefiada por prostituição, igrejas, bares e jogos de azar que pouco fazem para contribuir com o real desenvolvimento das comunidades onde atuam, quando não tornam as coisas mais difíceis. O tráfico de drogas e agiotagem também estão associados com a economia da pobreza por serem setores de sinergia com a informalidade, historicamente.

No mais, higiene e saneamento precários com baixo acesso a serviços de saúde de qualidade diminuem a expectativa de vida e formam uma população com alta incidência de doenças e portanto menos propensa a atingir seu pleno potencial. O mesmo valendo para a educação, onde o ensino de baixa qualidade torna aumenta os índices de evasão escolar e diminuem as chances de acesso ao ensino superior. Isso leva a população local a empregos de baixo rendimento e a trabalhos com menores índices de produtividade o que diminui o produto da economia local.

De forma mais grave a ausência de perspectivas e insegurança (o que meus filhos vão comer amanhã?) trás a tona sentimentos como depressão e raiva. Outro subproduto dessa realidade é a adoção de comportamentos de risco, seja sexualmente ou em fugas da realidade pelo alcoolismo e consumo de drogas como o crack, que aumentam a violência e a sensação de insegurança.

Por fim, só consigo dizer que o buraco é muito mais embaixo e nenhum governante irá tirar o desenvolvimento da cartola. A participação de todos os segmentos que formam a nossa sociedade e pensar os problemas como um todo é o único caminho fora dessa violenta luta diária que é o cotidiano de populações de risco.

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