Quem tem medo d’O Furor?

por Marina Sertã

Eu acabei de escrever um texto. Estou muito orgulhosa dele. Eu não sei se vou publicar.

Quando eu era pequena, eu tinha dois livros – que deviam pertencer a uma série muito maior, mas que eu só tinha dois – chamados Quem tem medo de Dragão? e Quem tem medo de Escuro? Eu, que não tinha problema algum com Dragões, e até achava o dragão da história bem legal, deixava o livro na minha cabeceira pra poder de vez em quando folhear, e ver o bicho verde e carrancudo cuspindo fogo e soltando fumaça pelas ventas. Dentro de mim, a pergunta do título do livro do Dragão batia e voltava retórica “Gente, mas como tem medo de Dragão?” Minha relação com escuro era – ainda é – um pouco pior. Então eu escondia o outro livro em alguma gaveta bem longe de mim e não ousava perguntar quem tinha medo de escuro. Porque sabia que a resposta era um sonoro “eu”.

Muito maior que o meu medo de escuro sempre foi o meu medo de falhar. E um dos meus maiores horrores foi sempre estar errada. Isso me fez estudar muito, ser muito nerd, aprender muitas coisas, saber muitas coisas, aprender muito bem as coisas, saber muito bem as coisas. Essa era a minha reação, minha estratégia espontânea a possibilidade de estar errada. Eu simplesmente não estaria.

Até que me foi introduzida a ideia de que eu sempre estou errada. Sempre. De alguma maneira.Pouco a pouco, isso me quebrou. Eu fui perdendo a capacidade de sintetizar e reproduzir os argumentos dos autores que lia. Eu fui me perdendo em frases generalistas, palavras vazias e voltas desnecessárias. Eu continuava amando o que eu estudava, eu continuava estudando muito. Mas eu tinha medo de dizer que eu sabia. Porque, e se eu estivesse errada? E esse medo foi crescendo pra um medo de saber. Porque se eu assumisse, pra mim e pra todos, de cara que eu não sabia, então não haveria expectativa alguma de eu saber – ou haveria? Esse medo foi crescendo, até que eu simplesmente não sabia o argumento dos autores que eu havia acabado de ler.

O medo de estar errada e a certeza de que, invariavelmente, eu estava errada foram aos poucos me consumindo até que eu tivesse pavor de ter que reproduzir qualquer argumento, seja conversando com meus colegas, seja em avaliações para os professores. Eu comecei a escrever de maneiras que encobriam possíveis falhas no meu entendimento dos argumentos dos autores. Eu comecei a usar poesia e outros formatos não-ortodoxos. Eu neguei completamente qualquer voz formal na minha escrita e qualquer afirmação, porque elas significariam que eu estava reivindicando saber alguma coisa ou estar certa sobre algo. E eu não estava. Eu não poderia estar. Eu nunca estaria. Eu devo ter entendido errado. É. Só pode ser isso… Assim eu fui me escrevendo em um estado de completa parálise. “É… Não sei… É mais ou menos assim… O argumento vai mais ou menos por esse lado, toca mais ou menos essa ou aquela discussão.” E nisso eu fui ficando completamente incapaz de fazer qualquer afirmação. Mas e se eu estiver errada? E se isso não estiver certo? E se o argumento não for esse? E se eu estiver falando besteira? Se eu não estiver entendido direito?

A tensão estava em eu, mesmo não conseguindo, mesmo tendo medo de saber, continuar a ler, me encantar e me encontrar em vários textos. Eu lia, aquilo ressoava em mim, mas eu não conseguia reproduzir o som.

Eu alcancei o auge da minha parálise e desespero no fim do semestre passado, quando eu não só não consegui escrever nenhum post para o Furor e não consegui produzir o texto que pretendia para a conclusão para a minha disciplina favorita daquele semestre, como simplesmente não conseguia entender uma palavra de um dos textos com o qual eu me propunha a engajar nesta avaliação. Eu sabia o que cada palavra significava, mas não conseguia dar sentido a nenhuma frase. Eu me senti burra e inútil. Que tipo de acadêmica eu pretendia ser? Eu ía pras aulas e ouvia os meus professores expondo perfeitamente os argumentos dos textos, entrando no vocabulário dos autores e, mais que isso, fazendo com que nós moldássemos as nossas discussões nos modos de pensar que os autores propunham, transmitindo e ensinando os argumentos que eles dominavam, e eu me sentia uma merda. Eu olhava pra eles e pensava que eu nunca, nem um milhão de anos e textos e livros, conseguiria ser assim. Eu não conseguia reproduzir o argumento do Schwartz ou do Grovogui, quanto mais, um dia, conseguiria reproduzir o do Foucault ou do Derrida.

Eu tive a sorte de ter alguém que se incomodou com isso em mim e combateu muito ativamente, ao mesmo tempo que abriu espaços para que eu errasse sem medo. Eu tive a sorte de ter alguém brigando comigo para que eu assumisse responsabilidade pelo que eu penso e fazendo exercícios para que eu fosse capaz de reproduzir e sintetizar os argumentos dos autores que eu ía lendo. Hoje eu estou melhor e não estou. Em dias bons, nos textos certos, eu olho pro meu resumo e te digo qual é o argumento. Em um dia ótimo, eu engajo com o Walker e o Bigo em uma crítica a análise cognitiva, e fico muito feliz e orgulhosa de mim por isso. Mas outros dias eu só leio a Butler e o Foucault, me apaixono, mas continuo incapaz de te contar porque eu me apaixonei.

Eu não tenho uma saída redentora aqui. Eu gostaria de dizer que eu superei esse medo, de que eu consigo escrever agora, e que a vida é maravilhosa. Mas isso não é verdade. Eu encontrei espaços onde eu posso errar sem que isso seja um problema. Eu encontrei espaços onde eu posso ensaiar meus passos desajeitados. E eu redescobri o Furor como um desses espaços. Retomando a consciência de que esse é um espaço para eu exercitar ideias novas e colocá-las pra discussão, muito mais que apresentar pensamentos prontos. Ainda assim, eu estou com medo de postar o último texto que eu escrevi. Porque ele é um posicionamento muito firme em uma discussão. Porque eu sei que existem pessoas muito melhores nessa discussão – esses professores a quem eu me comparava semestre passado, a quem eu ainda me comparo – colocando em termos muito melhores, e pensado de uma maneira muito melhor. Porque eu tenho medo que algum deles pense que eu estou falando merda. Porque eu tenho medo de estar errada.

Sim, eu ainda tenho medo de estar errada. A jornada não foi redentora. A história não acaba com um final feliz. Mas eu estou caminhando. E quem sabe eu poste semana que vem?

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  1. Muito obrigada Maja Zhefuss, por ter formulado essa proposição devastadora. E muito obrigada Paulinho, por ter me apresentado a ela.
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