Por que as tragédias importam?

por Marina Sertã

Essa semana são os 126 em Paris, os mais tantos em Mariana, outros em Beirute, mais no Japão. Meses atrás foi o Aylaam. No começo do ano foram os cartunistas da Charlie Hebdo. Antes disso, eu não me lembro. Mas tiveram mais nomes, e números, e lugares, e dores. Todas sentidas, choradas, lamentadas. Porque

“No man is an island,entire of itself;
every man is a piece of the continent,
a part of the main.
(…)
any man’s death diminishes me,
because I am involved in mankind,
and therefore never send to know for whom the bell tolls;
it tolls for thee.”

“Ninguém é uma ilha,
completamente separada;
cada pedaço pertence ao continente,
é parte de um todo.
(…)
toda morte me abate,
pois sou parte da humanidade,
assim não pergunte por quem os sinos tocam;
eles tocam por mim.” (tradução livre)
John Donne

Nesses momentos de tragédia o que fala mais alto pra mim é a nossa capacidade de sentir a dor. Dores tão distantes, tão desconectadas, passam a ser nossas. Choramos vendo as fotos, nos horrorizamos com as barbaridades. Mortes de pessoas que nem conhecemos nos impactam. Esses grandes momentos de dor parecem realmente nos unir em uma só humanidade.

Nós sentimos a dor de Paris. Nós sentimos a dor de Paris, de Mariana, do Japão e de Beirute. Choramos os mortos. Nos preocupamos com as famílias. Sentimos pela atmosfera de caos e desamparo que se instala em uma situação dessas. Nós nos preocupamos em lembrar o mundo que nem todo árabe ou muçulmano é terrorista. Porque nós nos preocupamos com as pessoas que possam estar sofrendo com o preconceito e xenofobia que só se exacerba nesses tempos de medo. Nos preocupamos em lembrar o mundo de que se importar com Paris, Mariana, Beirute ou com o Japão não é excludente, e que nossa solidariedade se estende a toda a humanidade, que nós sentimos cada perda, não importa de onde ela venha. Procuramos sentido no que houve. Nos envolvemos. Pois já estamos envolvidos, em todas as perdas.

E uma vez eu li sobre uma coisa chamada ethical whitnessing, “testemunhar ético” (tradução ruim). A Lori Amy em um capítulo do Autobiographical International Relations explica essa relação de testemunhar como o movimento de respirar e questionar as próprias emoções por um momento. É um movimento de ouvir o outro em seus próprios termos, sendo generosos e tentando localizar suas falas nas narrativas mais amplas de suas vidas, e procurar pelas histórias mais completas dessas narrativas. É um constante se preocupar com Por que eu estou sentindo isso? Por que agora? De onde esse sentimento vem? Em que sentido ele me move? em nossos engajamentos. E hoje eu observo a minha timeline com essas perguntas.

Por que Paris faz tão mais barulho que Beirute, que Damasco, que qualquer lugar não-branco, não-europeu? Por que foi Paris a agregar Mariana-Beirute-Japão-Todos os Lugares de Desastres? Por que Mariana e Beirute não são suficientes? Por que a gente defende tanto que a nossa comoção não é seletiva, mas os únicos massacres a merecerem coberturas completas de dias inteiros de análise nas emissoras são as européias e americanas? Por que é a bandeira francesa, não a libanesa, ou a mineira nos avatares do facebook? O que é feito com a nossa comoção? O que é feito com a nossa tristeza e medo? A Europa fechou as fronteiras. A Rússia vai continuar a avançar na Síria. Isso é autorizado por essa política de medo, pelo ressoar dos sinos de Paris em todos nós.

Somos mesmo um? Somos uma humanidade? O que nos une, afinal? Por que precisamos afirmar essa humanidade única? E se não formos um? Que mundo desmorona na nossa cabeça? O que é feito em nome dessa humanidade? Quantas intervenções ainda? Quantas bombas, e caças, drones e soldados? Quantos mortos em nome de “paz”? Quantos mortos em nome dessa humanidade que reivindicamos, que não sabemos direito nem o que é?

Me parece útil o exercício da Lori Amy desse distanciamento e testemunhar ético nesse momento. Porque essas coisas acontecem, e a gente é levado pelo turbilhão de sentimentos. E a gente se sente muito mal por tudo que está acontecendo no mundo. Até que a gente não se sinta mais. Esses sentimentos são pesados. E eles pesam na gente. Mas o que tem por trás deles? O que interrogá-los pode trazer pra gente?

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