A gente pensa na guerra, a gente esquece da grana

por Thaís Queiroz

Guerra. Guerra mata. Guerra causa sofrimento. Muito sofrimento. Temos horror à guerra. Terrorismo, medo, violência, tortura, mortes. Já havia horrores nas “antigas” guerras, aquelas que estudamos na escola, por conquista de territórios, que faziam “aquela gente que não tem nada a ver com a história” sofrer. Ou seja, os “civis”, aqueles que não eram os soldados. Mas as guerras hoje, como estudamos e questionamos nas Relações Internacionais,  não mobilizam mais exércitos nacionais da mesma maneira que antigamente e nem tão pouco concentram o número de mortos entre aqueles que se dispuseram a pegar em armas e ir para o campo de batalha. Hoje, quem mais sofre com a guerra são pessoas que “não têm nada a ver” com isso.

            Segundo a atualização de 4 de novembro de 2015 do site Wars In the World (sim, este site existe, eu também não sabia), atualmente temos 665 guerras, guerrilhas militares e envolvimento de grupos separatistas pelo mundo. Mas se considerarmos apenas os conflitos que mataram mais de mil pessoas só no ano passado (2014), estamos falando de mais ou menos 10 conflitos (digo mais ou menos porque os números exatos de mortes variam conforme a fonte da informação). O mais chamativo neste momento é o que se desenrola na Síria, com mais de 75 mil mortos só durante 2014. Iraque, com aproximadamente 21 mil, Afeganistão, com em torno de 14 mil e a insurgência do Boko Haram no norte do continente Africano, com por volta de 10 mil mortos, só em 2014, vêm logo em seguida.

            Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados “em 2013, o ACNUR anunciou que os deslocamentos forçados afetavam 51,2 milhões de pessoas, o número mais alto desde a Segunda Guerra Mundial. Doze meses depois, a cifra chegou a impressionantes 59,5 milhões de pessoas”. [1] Ou seja, além das milhões de mortes, a quantidade de transtorno e sofrimento infringido a civis nos últimos anos tem aumentado descontroladamente. Isto nos preocupa. Isto nos preocupa muito.

             As guerras são parte da história da humanidade, sim. Bobo seria pensar em acabar com a instituição “guerra”. Mas há sim uma maior preocupação quando a escalada chega no ponto em que estamos. Isto tudo é terrível. Isto tudo nos comove. Isto tudo precisa ser controlado! E aí vem a grande pergunta: como controlamos? Como evitamos? Nossa primeira reação é acusar aqueles diretamente envolvidos no conflito: o maldito ditador maluco! Terroristas! Monstros! Fanáticos religiosos! Lunáticos obsecados pelo poder! O ISIS! A SOLUÇÃO É DESTRUÍ-LOS!!

            Sim, seria muito maneiro destruí-los. Na verdade, na verdade, seria muito maneiro fazer com que eles deixassem de cometer suas atrocidades sem precisar usar a força e causar mais mortes. Isso vai acontecer? Não. Mas agora eu vos convido a fazer uma pequena reflexão: em primeiro lugar, COMO estes monstros/terroristas/malucos/fanáticos/etc conseguem fazer isto?

Para fazerem o que fazem, estas pessoas mobilizam populações, juntam mais fanáticos ao seu coro através da aclamação de ideologias, promessas mentirosas e vão traçando objetivos… mas não só isso: estes malucos, estes fanáticos, estes terroristas, precisam de meios materiais para fazerem o que fazem. Em todos os conflitos ao redor do mundo, há muito armamento sendo usado. Há, sim, coquetéis molotov e bombas caseiras. Mas te garanto que só com isso o ISIS, por exemplo, não conseguiria fazer o que faz. Nem o ditador Bashar Al-Assad, nem o Boko Haram. E como eles conseguem todo o arsenal que possuem? Todas as armas, toda a grana para comprar mais arsenal e mobilizar tudo o que eles mobilizam? Te garanto também que não são eles próprios que põem os pezinhos dentro de fábricas bélicas e produzem o que vão usar. E eles também não têm um pacto com o diabo (para quem acredita nisso), que faz brotar do chão armas e grana. Eles podem até ter um pacto com forças divinas – nunca estudei sobre isso – mas não é esse pacto que cria magicamente as coisas. Quem produz isso tudo são outros seres humanos. Mais especificamente, quem produz isso são fábricas de armamentos em diversos lugares do mundo.  Agora um fato:

– Dos conflitos que citei, nenhum se localiza na Europa, nenhum se localiza nos Estados Unidos da América. O único conflito em território europeu que figura na lista dos conflitos com mais de mil mortos por ano é o da Ucrânia. No entanto, a lista das 100 empresas no mundo que mais produzem armamentos é recheada com nomes de companhias estadunidenses, europeias e russas. Companhias de gente rica. Milionária. Trilhonária. Isto que a China não consta no ranking e a Rússia tem dados insuficientes. [2]

E não precisamos só falar de indústria de armamento, não! Esta semana mesmo saiu o cálculo de TRÊS MILHÕES DE DÓLARES POR DIA que o ISIS fatura com venda de petróleo no mercado negro. Ano passado eram US$ 2 milhões por dia [3]. Amigos, quem que compra petróleo? Se eu aprendi direito no colégio, quem mais usa petróleo é país desenvolvido.  Essa grana toda que eles ganham com a venda de petróleo, artefatos históricos e resgates movimenta toda a sua máquina de recrutar novos membros com promessas de fartura e possibilita muita barganha e ameaças.

É lógico que podemos discorrer páginas e páginas sobre tudo que está errado nesta porcaria. Mas eu só gostaria de chamar a atenção para sempre questionarmos o que está sendo dito e procurar outros ângulos. A guerra mobiliza grana. As guerras mobilizam MUITA grana. A guerra é um dos negócios mais rentáveis do mundo! E a ideia de “responsabilidade” que temos geralmente esquece de levar em consideração a bufunfa.  Enquanto continuarmos bradando pelas ruas e para nossos governantes que eles precisam agir e bombardear os agressores, estaremos bradando para  que mais e mais dinheiro seja ganho por muita gente e estaremos deixando de responsabilizar aqueles “que têm a ver [e muito!] com a história”! Vamos parar para olhar diferente?

1) http://www.acnur.org/t3/portugues/recursos/estatisticas/

2) http://www.theguardian.com/news/datablog/2012/mar/02/arms-sales-top-100-producers

3) http://noticias.portalvox.com/internacional/2014/10/estado-islamico-isis-fatura-us-2-milhoes-por-dia-com-petroleo.html

 

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2 comentários sobre “A gente pensa na guerra, a gente esquece da grana

  1. Procurando outros ângulos, podemos trazer a problemática para a realidade brasileira… Quantas pessoas são mortas a cada dia, mês e ano por armas de fogo no Brasil? De onde elas vem? As maiores facções criminosas costumam ser financiadas pela venda de drogas, não? Quem compra essas drogas? Rico? Pobre?…

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  2. Muito bem observado! É bem assim mesmo. Jogamos centenas de pessoas (normalmente pobres e, sim, negras) na prisão por “tráfico de drogas”, muitas vezes sem julgamento, e os outros envolvidos todos passam completamente impunes. Completamente.

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