Teoria não serve pra nada

por Marina Sertã

A Teoria não vai te salvar. O Mundo Real também não. Parte por conta dessa separação, parte por conta da ânsia por salvação.

Eu já quero avisar – principalmente ao Kayo e à Carol, que vão reconhecer essa conversa como uma que tivemos há pouco tempo – que qualquer voz hostil nesse texto é uma sinal de uma luta dentro de mim. A escrita é o meu principal meio de trabalhar essas lutas internas. E o meu intutito nunca seria atacar vocês de qualquer maneira.

Nosso curso tem uma carga enorme de Teorias. É a base da nossa formação, com sete disciplinas dedicadas à elas, assim como grandes seções dos programas das disciplinas, em teoria, não-teóricas. É quase unanimidade que temos Teorias demais. Ía começar esse texto reconhecendo que sou uma pessoa meio suspeita pra falar sobre o assunto, porque sou uma das poucas que ama Teorias, que quer maisTeorias. Mas não somos todos suspeitos, sobre qualquer assunto que escrevemos? Esse texto poderia ser Em Defesa da Teoria. Mas acho que eu quero escrever é Contra a Separação entre Teoria e Prática.

Estudamos RI porque queremos entender o mundo. Porque nos deparamos com um mundo grande, confuso e cheio de sofrimento, e queremos compreendê-lo. Sobretudo, queremos entendê-lo e consertá-lo. Queremos que parem as hordas de refugiados, que não se repitam os massacres, que tenha um fim o preconceito, a exploração e a opressão. Estudamos porque queremos respostas. Porque vemos os males do mundo e queremos soluções para eles.

Mas tendo uma carga teórica tão grande, mal chegamos aos problemas do mundo, quem dirá a como consertá-los. Aprendemos desde o primeiro período os Grandes Debates da disciplina, reconhecemos seus maiores teóricos, sabemos fundamentos e pressupostos e fomos treinados a problematizá-los. Somos especialmente bons nos debates dentro de sala. Péssimos no mundo pra fora da janela. Passamos direto por anos, nomes, lugares. Quantos morreram nas pacificações? Como sentem o racismo? Por quem foram estupradas? Qual Tratado está sendo negociado? Aonde está a presidente? Qual é o nome do ministro mesmo? Intervém ou não intervém? O que faz com o imperialismo? Deixa todo mundo se matar, morrer de fome, afogar no Mediterrâneo? Tudo o que fazem é problematizar e criticar as poucas saídas que nos são dadas e impedir qualquer possibilidade de ir além dessa imobilidade crítica. Nos sentimos frustrados, inúteis e despreparados. Teoria não serve pra nada mesmo! Não fala do Mundo Real. Não ajuda com qualquer problema. Não resolve nada pra mim. Só questiona e questiona, mas não chega a lugar nenhum.

Como assim? As Teorias são o que permite que façamos sentido do mundo. Sem as Teorias a gente só tem meia dúzia de nomes e números flutuando em um vazio incompreensível. Elas são as nossas lentes e ferramentas de análise. Elas são o sentido em meio ao caos, o que explica a confusão.

Então, o que falta é aplicar as Teorias! Pô-las em prática, usá-las pra entender o mundo. Afinal, o realismo do Mersheimer não explica tão bem a sede de poder do Putin? O a estabilidade hegemônica do Gilpin não explica tão bem a emergência e manutenção do sistema de Bretton Woods durante a Era de Ouro do Capitalismo? O liberalismo institucional do Krasner não explica tão bem como se sustenta a complexa rede de Regimes Internacionais? A Teoria da Dependência do Wallerstein não explica tão bem o reforço da posição subordinada dos países de Terceiro Mundo? A Securitização do Buzan e do Weaver não explica tão bem a construção discursiva da legitimidade para a Guerra ao Terror ou às Drogas?

Não. Teoria não é isso. Não é uma fórmula mágica que te faz entender o problema. Não vai cair como uma luva no seu objeto. Não vai fazer com que, de repente, o mundo faça sentido. Teorizar é uma prática. Não é só ler o mundo com uma ou outra lente que for mais conveniente. Não é escolher uma ferramenta da vasta seleção da sua caixa para apertar aquele parafuso solto no seu compreender o mundo. Não é um joguinho de encaixe, onde você só tem que achar o buraco certo pra forma, e tudo vai fluir como deve. Teoria é o que molda o jeito que vemos e pensamos sobre o mundo, que falamos e agimos sobre ele. Teoria é o que faz com que você entenda a forma na sua mão como um triângulo ou um quadrado. Teoria não é o caminho para a solução, é a forma que você põe o problema. Teoria é sobre o jeito que você pensa. Ela está sempre já presente, no modo em que formulamos as nossas perguntas. Teoria é o que te faz perguntar “Como fazer políticas mais eficazes de desenvolvimento?” ou “Por que alguns foram relegados a uma constante posição de subdesenvolvimento?” pu ainda “Como se constituiu a escala de desenvolvimento pela qual todos os países são medidos homogeneamente?”

Estudar Said e Campbell é perceber as práticas permitidas por uma determinada construção discursiva do outro. Estudar Mignolo e Schwartz é procurar por narrativas contra-hegemônicas, no mundo lá fora (seja lá o que seja esse mundo lá fora) e dento de si. Estudar Nandy é perceber que não há um inimigo, não há O Opressor, mas estruturas de opressão formando todos nós, machucando todos nós. Estudar Walker é reconhecer como a gente pensa em fronteiras como espaços de delimitação do que é ou não é, e querer buscar todos os espaços onde é E não é. Estudar Spivak é se frustrar com todas as vozes que nós não somos capazes de escutar, e se esforçar para reconhecer as maneiras em que outras vozes, em nós e nos outros, tentam se expressar.

Então, não, eu não acho que a gente precisa de menos Teorias. Eu acho que a gente precisa – durante o curso todo, não só nos 6 meses de uma disciplina de Teorias, onde supostamente são dadas todas as ferramentas e lentes que vamos precisar pro resto do curso – de uma relação melhor com as Teorias. Porque só quando a gente entende Teorias como a meia dúzia de frases que a gente decorou de cada texto pra jogar nos nossos artigos e chamar de Marco Teórico é que a gente não vê teorizar como agir no mundo.

E eu acabo me perguntando se, na minha ânsia por um melhor relacionamento com Teoria e Prática, eu não reduzi esta a algo contido naquela; se a minha solução é só o outro lado da moeda daqueles que pedem por mais prática e empiria no nosso curso; se o meu movimento não é nada além de uma inversão dos termos já postos e problemáticos. Eu gostaria de pensar que não. Que eu estou propondo realmente um relacionamento melhor com Teoria e Prática, sem o “e” que separa dois termos isolados, mas um que mostre a relação constitutiva dos dois. Quero pensar que ao colocar as teorias como sempre já presentes no formular das nossas perguntas, nos caminhos que o nosso pensar sobre um problema seguem, eu estou colocando esse relacionamento em termos melhores. Mas tenho medo que não. Talvez eu tenha realmente só ficado nos termos dados.

Para isso eu conto com você, carx leitorx. Como dar o próximo passo a partir do que temos aqui?

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