Furor Indica: Emicida – Cinco Muleque Tipo Nós

por Julia Zordan e Marina Sertã.

Acabamos de sair de um show no Imperator, no Méier: Emicida canta Cartola.

O show em si já teria sido o bastante. Mas, próximo do fim, eis que:

Todas as conexões podiam ser feitas aqui para explicar como esse poema se encaixa nas nossas discussões de relações internacionais. Para explicar a ligação entre a política de pacificação e as intervenções nas quais o Brasil se envolve; ou aos megaeventos e a promoção de uma concepção muito específica de cidade, para uma classe muito específica, em detrimento de outra, também bem específica. Para explicar toda a história ligada o extermínio, exclusão e exploração sistemática da população negra do nosso país. Para explicar como mesmo nós, estudantes brancos, de classe média ou alta de uma das melhores universidades privadas do país, privilegiados por definição, deveríamos nos importar, deveríamos nos envolver.

Mas algumas vezes é necessário reconhecer que nós não somos capazes de entender. Nós não vivemos na pele. Nós não sabemos o que é ser um “muleque tipo nós”. E é nisso que o poema do Emicida toca. Ele: faz com que nós, que somos incapazes de imaginar o que é ser alvo de preconceito sistemático e institucionalizado por séculos, comecemos quem sabe a ter uma ideia do que isso é; dá voz a um pouco dessa opressão que foi calada durante estes mesmos séculos, que foi relegada aos rodapés dos livros de história, àquele capítulo curto sobre os quilombos, sobre a resistência negra; e, mais que tudo, talvez dê força para que essa resistência continue.

Para quem sente o racismo na pele, talvez esse poema seja a tradução de um sentimento guardado, seja a rima que traz pra fora do nó na garganta o que a dor deixou preso. Para quem sente o racismo na pele, talvez isso dê força na luta, diária, de existência, e pontual, contra as políticas de extermínio da população negra e pobre na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, e onde quer que seja mais. Para quem tem o privilégio de não saber o que isso é, talvez fique o questionamento, de porquê sentimos tanto com as coberturas ininterruptas dos tiros contra os 126 mortos em Paris, mas fomos rápidos demais, derramamos lágrimas de menos, e nos ocupamos muito pouco com os 111 tiros em Costa Barros, disparados contra cinco muleques que, acabam não sendo, tipo nós.

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3 comentários sobre “Furor Indica: Emicida – Cinco Muleque Tipo Nós

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