Filmes de 2015 (que todo internacionalista deveria ver)

por Franco Alencastro.

Chegamos à mais um fim de ano, e nós, internacionalistas e leitores de O Furor, não podemos deixar de olhar para trás e pensar em como ele foi movimentado – muitas vezes, para mal, algumas vezes para o bem. O coração da Europa foi atingido por um ataque sanguinário, os tanques do Estado Islâmico rugem no Oriente Médio e o mundo chega cada dia mais perto de um conflito que, cochicham por aí, pode se tornar mundial. No Ocidente desenvolvido, os populismo de extrema-direita troveja suas acusações diárias contra os inimigos da vez, e no Brasil convivemos com uma crise econômica e política (quase) sem precedentes, em meio as repercussões do pior crime ambiental da história nacional.

Foi também um ano de esperança: as nações do mundo votaram por um novo e ambicioso pacote de metas de desenvolvimento para 2030, que incluem os grandes objetivos de sustentabilidade sem os quais provavelmente não teremos um planeta para nos desenvolver; e, em Paris, os líderes mundiais finalmente chegaram num consenso quanto à mudança climática. Só por isso, podemos dizer que 20125 entrou para a história.

Assim, a tradicional lista de melhores músicas e filmes que encontramos na maioria dos blogs por aí não podia deixar de dar as caras n’O Furor, mas com um twist: decidi escolher não só as melhores obras, mas as que melhor representaram as questões em jogo no mundo hoje!

Os melhores filmes do ano (sem um ranking específico):

Que Horas Ela Volta

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A singela história de uma empregada doméstica, sua relação com a família de patrões e sua filha encantou plateias do Brasil, do Mundo – e d’O Furor. Val, na primorosa interpretação de Regina Casé, vive num mundo de regras claras e uma hierarquia definida entre patrões e domésticas. Um microcosmo do Brasil, a casa dos patrões será abalada por uma mudança inesperada, quando a filha de Val, Jéssica, chega na cidade para prestar vestibular e lá se hospeda, fazendo colidir a famosa cordialidade brasileira e as diferenças de tratamento de classe. Em um Brasil ameaçado pela crise econômica e por cortes de gastos na área social, ‘Que Horas Ela Volta’ vêm para nos lembrar como avançamos como sociedade nos últimos anos, e a pensar nas conquistas que precisamos defender.

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Corrente do Mal

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Uma maldição que passa de pessoa em pessoa pelo ato sexual, terminando em morte certa. Parece familiar? Parábola sobre as DSTs, ‘A Corrente do Mal’ têm como protagonista Jay, uma jovem estuprada pelo menino com quem sai, que só queria passar para ela a maldição (e salvar a pele, já que ela atinge só uma pessoa por vez). Jay passa então a ser perseguida por uma criatura que anda implacavelmente em sua direção, e que a matará ao menos que ela passe a maldição adiante – um enredo onde a metáfora sobre a culpabilização do sexo e o peso que isso faz recair sobre jovens mulheres divide espaço com o sentimento de inevitabilidade das tragédias gregas e uma estética influenciada pelos filmes de horror trash dos anos 80 (completo com uma trilha sonora batuta de sintetizador).

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O Pequeno Príncipe

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Crescer ou esquecer? A adaptação da imortal fábula do escritor francês Antoine de Saint-Éxupéry chegou aos cinemas esse ano com pequenas modificações – a protagonista é agora uma garotinha esperta mas sob profundo estresse de uma rotina massacrante voltada para a produtividade acadêmica, sem questionamentos, criatividade ou imaginação.

De mudança para um novo bairro, conhecerá seu vizinho, O Aviador, que contará para ela a história d’O Pequeno Príncipe, em belíssimas sequências feitas em animação de papel. No mundo real, desde a decisão do parlamento japonês de eliminar cursos de humanas de suas universidades até a transferência das escolas públicas para a tutela da polícia militar em Goiás, vemos a criatividade em cotação baixa hoje, e uma educação voltada cada vez mais para objetivos econômicos.

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Mistress America

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Já falamos da infância, mas e a juventude? A confusão e desorientação dos de vinte e poucos anos é um tema central da obra do diretor Noah Baumbach, que retornou a ele em seu mais recente filme, ‘Mistress America’. Ele conta a história da estudante caloura de literatura Tracy, que desenvolve um fascínio por Brooke, uma mulher poucos anos mais velha e envolta no picaresco projeto de abrir um restaurante. Uma ode à cultura hipster, que saiu dos EUA para ganhar o mundo, o filme é repleto de diálogos inteligentes sobre amadurecimento e explora as dificuldades dessa geração (a minha) de se inserir no mercado de trabalho tradicional, e o descompasso entre a educação formal e a expectativas do mundo profissional.

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Mad Max

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Umas das mais bem-sucedidas alianças de ambição visual e enredo hollywoodiano, “Mad Max – Estrada da Fúria” é um clássico instantâneo. Um road movie de proporções wagnerianas, Mad Max pega tudo que deu certo da trilogia original do diretor George Miller (1979-1985) e dobra a dose – os carros são maiores, as cenas de ação mais violentas, os guerreiros mais rudes, o pós-apocalipse mais apocalíptico. Algumas modificações situam essa verdadeira ópera da gasolina nas preocupações políticas atuais – o petróleo, que servia de moeda de troca e era o recurso central disputado na trilogia original foi substituído pela água – quem a controla, como o ditador deformado Immortan Joe, controla a sociedade. Uma tribo de mulheres guerreiras se unirá a Max para libertar o povo do jugo de Joe, provando que até em um mundo pós-apocalíptico dá pra problematizar os papéis de gênero.

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Necktie Youth

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O suicídio de uma menina leva vários jovens de seu entorno à uma profunda reflexão sobre quem são e qual seu lugar no mundo. Os jovens em questão são iguais aos de qualquer lugar do mundo – só que eles moram em Sandton, o bairro mais rico de Johanesburgo, na África do Sul. O filme mergulha em questões indigestas da África do Sul pós-apartheid, como as relações entre negros e brancos – tendo como foco a “geração arco-íris”, a primeira a nascer após o fim da segregação.

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Divertida Mente

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Último sucesso dos estúdios Pixar, “Divertida Mente” é um olhar bem-humorado sobre como funcionam as emoções, imaginando o interior da cabeça de uma menina de 12 anos como uma central de controle comandada por cinco emoções antropomorfizadas (isso é, representadas como gente): Medo, Raiva, Tristeza, Nojinho e Alegria. Riley, a tal da garota, se frustra ao mudar de cidade com os pais, desgarrada de sua antiga escola e amigos, o que coloca suas emoções em ebulição. O filme, assim, toca nos conflitos do florescer da adolescência e apresenta uma visão intrigante sobre a ideia de identidade, abraçando a ideia de um ser humano moldado por forças múltiplas, ao invés de ter uma só personalidade. É bem fofinho, também.

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Straight Outta Compton – A História do NWA

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Ok, esquece aquilo que eu disse sobre essa lista não estar em ordem de ranking – esse, o último da lista, é facilmente o melhor filme do ano. Ele conta a história do grupo de rap NWA, alçado ao estrelato nos EUA no final dos anos 80 graças à suas letras que causavam polêmica entre os brancos mas eram reconhecidas pelos negros como um retrato do cotidiano violento nos guetos das principais cidades americanas. As atuações brilhantes de Jason Mitchell e O’Shea Jackson Jr. como os rappers Eazy-E e Ice Cube dão vida à ascensão meteórica e a queda regada à drogas do NWA, em meio ao tumultuado contexto histórico da época, marcado por violência racial crônica nos bairros de Los Angeles. No ano em que o movimento ‘Black Lives Matter’ (Vidas Negras Importam, em inglês) chamou atenção para a violência policial nos EUA, e protestos de milhares de pessoas contra o racismo ocorreram em Ferguson, ‘Straight Outta Compton’, um filme passado hà mais de 20 anos, se mostrou talvez o mais atual de todos.

Trailer:

Esses são, em minha opinião, os melhores filmes do ano! E para você, quais são? Discorda de alguma escolha? Deixei escapar alguns? Comente e nos deixe saber! E não esqueça de olhar também nossa lista de melhores músicas do ano!

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