Músicas de 2015 ( que todo internacionalista deveria ouvir)

por Franco Alencastro.

Ora, olá. Você deve ter vindo aqui da primeira parte do post, sobre filmes. Bom, vamos cortar a introdução e ir direto para as Melhores Músicas do Ano (Que Todo Internacionalista Digno do Nome Deveria Ouvir):

 

King Kunta, de Kendrick Lamar

Em Março, o rapper americano Kendrick Lamar lançou a obra-prima To Pimp A Butterfly, um álbum-conceitual sobre a situação do negro nos EUA atuais, discutindo questões como o racismo ainda presente na cultura, a violência policial, a auto-estima do negro em uma cultura em que o branco ainda é o padrão de beleza. O álbum se tornou ainda mais relevante com a explosão, esse ano, de manifestações contra o racismo e a brutalidade policial. Para falar desses temas Kendrick costurou, junto com suas letras ácidas e abertamente políticas, um coquetel do melhor da música negra dos últimos 100 anos: Jazz, Rock, Funk, Soul… King Kunta é provavelmente a melhor música do álbum. Confira:


Clair de Lune, de Kamasi Washington

 O Jazz também marcou presença esse ano com o elogiado álbum de estréia de Kamasi Washington, um álbum triplo (ou seja, 3 CDs) de quase 3 horas de duração, apropriadamente chamado de The Epic (O Épico). Quase totalmente instrumental, The Epic é uma viagem sônica que deixaria qualquer hippie babando, e com seu robe e pose de profeta na capa, Kamasi parece realmente disposto a nos levar em uma viagem mística. “Clair de Lune”, uma releitura da peça de mesmo nome do compositor francês Claude Debussy, é um dos destaques, e uma prova de que nem o jazz nem a música clássica estão mortos.

Pedestrian at Best, de Courtney Barnett

 Interessante notar como algumas músicas e filmes da lista se relacionam, não? Se ‘King Kunta’ definitivamente é ‘Straight Outta Compton’, então ‘Pedestrian at Best’  parece uma trilha sonora de ‘Mistress America’, a começar pelo título – “pedestre, no máximo” – a letra é recheada de auto-críticas irônicas da nova queridinha do rock (para mim) Courtney Barnett, descrevendo uma pessoa jovem, inteligente e com formação, mas incapaz de colocar a sua vida em ordem, e de lugar incerto no sistema econômico atual (“Me dê todo o seu dinheiro e eu te farei um origami, querido”, ela diz). Quem diria que a preguiça poderia inspirar um bom rock’n roll?

 

L$D, de A$AP Rocky.

 A ascensão das drogas recreativas talvez seja lembrada como uma marca dessa década, assim como marcou os anos 60. O discurso político mudou – se, na Era Hippie, o que importava era expandir a mente para renovar a humanidade, o foco hoje é o combate à dita ineficiência da guerra às drogas. L$D, do rapper americano A$AP Rocky (ganha uma bala quem adivinhar do que a música fala), talvez seja lembrado como a canção-símbolo dessa época (bom, eu gostei). Com uma produção viajante que lembra Lucy in the Sky with Diamonds e outros clássicos psicodélicos dos Beatles, Rocky criou uma música ao mesmo tempo atual e retrô.

 

Borders, de M.I.A.

 Para muita gente ela ainda é aquela mulher que cantava Paper Planes no filme Quem Quer ser um Milionário, mas M.I.A. (nome artístico da cantora/rapper britânica Mathangi Maya Arulpragasam), ano após ano, continua fazendo músicas ousadas e de conteúdo político. A mais recente, “Borders”, fala, como o nome indica, da atual crise dos refugiados na Europa. M.I.A. critica aqueles que confundem os refugiados com terroristas (Guns blow doors to the system / Yeah fuck ‘em, we say we’re not with them, “Armas abrem buracos no sistema / F*da-se eles, dizemos que não estamos do lado deles”) e criou um clipe eloquente com imagens de cercas elétricas e navios feitos de corpos humanos. Confira:

 

Boa Esperança, de Emicida

 Falando em vídeos polêmicos, o Emicida também deu o que falar esse ano com o clipe de “Boa Esperança”. Continuando nossas analogias com filmes-músicas, acho que Boa Esperança seria o filho malcriado do “Que Horas Ela Volta” e “Straight Outta Compton”, com versos do furioso rap de Emicida como:

Já viu eles chorar pela cor do orixá?

E os camburão o que são?

Negreiros a retraficar

Favela ainda é senzala jão

Bomba relógio prestes a estourar

… e um impactante vídeo, em que os empregados de uma família rica decidem se revoltar contra os patrões no meio de um jantar chique. A violência na arte de Emicida é ao mesmo tempo catártica e nos obriga a questionar o que sentimos diante da representação da violência.

 

Manhã, Aline Lessa

 Olá. Essa é sua pausa de MPB depois das duas últimas músicas bastante carregadas de palavras e imagens fortes. No mais, a frase “Toda dor precisa ser regada / para crescer e morrer em paz” é bem bacana.

8-bit, de Jonas Sá

 O lançamento de “BLAM BLAM!”, segundo disco do produtor Jonas Sá, foi um dos mais polêmicos do ano, principalmente por causa de sua capa. Pena que isso acabou ofuscando a música do disco, que, como o título sugere, é um tiro na nuca de sons e colagens experimentais, exuberante como sua capa. A primeira música do disco, “8-bit”, já tá o tom dessa viagem, com seu ar de trilha sonora de video game introduzindo uma história sobre um homem que tem um acidente de carro enquanto assiste vídeos pornôs no celular – o resto do disco é igualmente repleto de referências a relações humanas que foram inteiramente consumidas por aparelhos digitais (embora nenhuma frase bata “Tenho mais de mil amigos online / Mas o mais assíduo é a solidão”).

 Optei também por incluir algumas músicas do ano passado, mas que sinto que as pessoas deveriam ouvir, porque são muito legais:

 

Megitsune, de Babymetal

 “Babymetal” é um grupo japonês que mistura os gêneros de girl group japonês (basicamente, imagine o Rouge, se você lembra do Rouge), com o heavy metal. É um fato de que o metal é um dos gêneros mais ecléticos hoje em dia, misturando-se promiscuamente com todo gênero que bote duas notas juntas, mas acho que poucos esperavam essa mistura, e mais ainda, poucos esperavam que desse certo. Mas deu! O resultado dessa mistura típica da era da globalização você confere aqui:

 

Ugly Boy, de Die Antwoord.

 Die Antwoord é um grupo de rap da África do Sul, formado por artistas da etnia Afrikaans (isso é, descendentes dos holandeses que imigraram para a África do Sul e formaram a espinha do sistema do Apartheid). Desde 2010 eles vêm chamando atenção com seus videoclipes bizarros e adesão à estética Zef, uma gíria africâner para “simplório”, que designa os africâneres pobres, mas que se tornou uma identidade cultural e um símbolo de orgulho. “Ugly Boy”, do álbum Donker Mag, é talvez a sua música mais acessível até hoje, e conta com um clipe de cair o queixo com participações de Marilyn Manson, Flea (do Red Hot Chilli Peppers), Cara Delevingne, Jack Black… é melhor eu parar por aqui. Confira:

Mouth Sounds / Mouth Silence, de Neil Cicierega

 Conhecido no Youtube por seus vídeos com fantoches que faziam piada com a série Harry Potter, o Potter Puppet Pals, Neil Cicierega voltou ano passado com um projeto inusitado: um álbum de mashup (mistura) de músicas famosas (mas de reputação pouco respeitosa) dos anos 90. O que pode parecer a princípio uma pura cafonice ou bizarrice na verdade se torna um dos álbuns mais hilários que já ouvi: as músicas escolhidas para as misturas são não só totalmente inesperadas como muitas vezes funcionam melhor juntas do que sozinhas, e ainda servem como um comentário sobre como a nostalgia pode nos enganar a respeito da qualidade daquilo que gostávamos. No centro de tudo, está a música All Star, do Smash Mouth (aquela do filme Shrek, e vários outros), que, retornando várias vezes como um motivo musical, transforma a obra toda em uma sinfonia do pop rock duvidoso.

Tounast Tincha, de Tinariwen

 Em 2012, eclodiu no Mali uma guerra civil entre grupos paramilitares da etnia tuaregue, no norte do país, e o governo baseado em Bamako, no sul. O conflito gerou mais de 144 mil refugiados. Dentre eles, uma das maiores bandas do país – o Tinariwen. Criado nos anos 80, com raízes na cultura tuaregue e um estilo musical que mistura a guitarra elétrica aos sons das tribos do deserto, os membros do Tinariwen já escreveram músicas de protestos contra o governo maliano, participaram de guerrilhas nos anos 90 e até ganharam um Grammy. Com a eclosão do conflito, em 2013 eles se relocaram para os EUA para gravar seu mais recente álbum, que toca na melancolia de estar longe de seu país, e nos lembra que, mesmo longe dos holofotes da mídia internacional, onde há conflitos, há refugiados.

 

Espero que tenham gostado de nossa lista. Acha que deixamos passar alguém? Nos critique nos comentários!

Feliz Natal para todos!

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