Vida após a monografia ou O Limbo do graduado internacionalista

por Carol Grinsztajn

Essa história é verdadeira. Aconteceu com um amigo de um amigo meu. Ele passou toda a graduação em Relações Internacionais focado na área de pesquisa. Formado, ele pensou que o mais difícil da sua entrada no mundo acadêmico havia passado: sua monografia. Mal sabia ele que a etapa mais difícil não era escrever e sim publicar.

Não demorou muito para o amigo do meu amigo descobrir que parte importante das publicações acadêmicas não aceitam artigos de pesquisa feitos por graduados- muitas nem mesmo aceitam quem não tenha doutorado. Alguém sem doutorado pode publicar somente junto com algum doutor. Ele pensa que essa é uma política que serve para manter a qualificação alta, mas ao mesmo tempo mantém uma hierarquia acadêmica que não só abre margem para apropriação de trabalhos como desincentiva em a circulação de ideias.

Ele percebeu ainda que algumas das publicações mais importantes de RI no Brasil, pasmem, só publicam textos em inglês. Não que ele não possa publicar em inglês, mas afinal de contas era importante para ele trazer as questões da sua pesquisa também em português- não só pelo alcance, mas pela contribuição e engajamento do debate  na sua área de pesquisa.

Logo ele percebeu também que enfrenta outro problema: a falta de filiação institucional. Ele, que agora é graduado há alguns meses, não tem credenciais para apresentar no mundo acadêmico porque ainda não entrou em um mestrado. Ele sabe muito bem que suas chances de entrar para os mestrados mais concorridos dependem em grande parte do seu “potencial acadêmico”.

O amigo do meu amigo não se arrependeu nem por um segundo ter escolhido RI e ter escolhido pesquisa (que alguns dos seus colegas diriam que é a saída mais fácil do curso). Mas ele bem que gostaria que por um segundo a política estivesse só nas suas análises e não em todo lugar- inclusive na academia (e certamente não só a de RI).

Essa história é verdadeira. Aconteceu com um amigo de um amigo meu. E ele ainda nem teve que começar a lidar com financiamento de pesquisa.

 

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Um comentário sobre “Vida após a monografia ou O Limbo do graduado internacionalista

  1. Olá, Carol!
    Sei bem o que o ~amigo do seu amigo~ está passando. Tive experiências muito parecidas com as dele em 2015 – o meu ano de limbo. Mas digo a ele e a todos que estão passando (ou ainda vão passar) por situações como essas, que não desista. Retome contato com professores da graduação, eles podem ser grandes ajudadores nesse momento, seja para as famigeradas publicações com mestres e doutores, seja apenas para ouvir bons conselhos de quem tem mais experiência que nós nessa vida. E se não conseguir publicar mesmo assim, apresente artigos! Em conferências, seminários, fóruns, tudo o que encontrar pela frente. Não têm o mesmo peso que publicações em revistas, mas já contam no lattes – e nesse momento, tudo o que contar pontos no lattes é válido! Se ofereçam como voluntários nas atividades da sua universidade de graduação ou nas pesquisas de seus ex-professores.
    No meu ano de limbo fiz tudo isso e muito mais, passando por muitos momentos de desânimo, tendo que reunir toda paciência do mundo para não retrucar comentários como “Vai continuar trabalhando de graça, mesmo depois de formada?” ou “Quando é que esse seu curso vai dar em alguma coisa?”. Mas graças a essas experiências que não me trouxeram retornos materiais, eu consegui minha aprovação em um mestrado na universidade federal do meu estado, no final do ano passado. E também foi em meio a essas atividades voluntárias e momentos de desespero que eu pude refletir com bastante calma sobre qual o meu nicho dentro de RI e para onde eu queria direcionar minha carreira, sem atropelos.
    Portanto, não desanime. O ano do limbo tem seus inconvenientes, mas “o amigo do seu amigo” provavelmente sairá dele como um internacionalista muito mais seguro e focado. 😉

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