O que descobri sobre o significado de possuir dois passaportes.

por Thaís Queiroz

Devo dizer que não são tão poucas as pessoas que conheço por aqui que têm dois passaportes: normalmente o seu brasileiro e um outro que geralmente é europeu, seja ele português, alemão, francês, italiano etc. Isto acontece porque estas pessoas têm o que chamamos de dupla nacionalidade, ou seja, às vezes um dos pais tem outra nacionalidade ou a criança nasceu em outro país… São muitos os casos. E no fim das contas, pelo que até hoje percebi, ter um passaporte europeu é muito legal. Eu mesma já desejei em algum momento da minha vida ter mais um passaporte. Ia facilitar tanta coisa que quero fazer…

Entretanto, o que eu nunca havia percebido, até três semanas atrás, quando vim aqui para o outro lado do mundo, é que existem situações em que dois passaportes podem ter um significado completamente desalinhado do que o que eu estava acostumada. Esta descoberta foi feita em uma conversa com um amigo palestino.  Eu conheci este meu amigo em uma atividade escoteira na Eslovênia, em 2014, quando ele me contou da dificuldade que foi para ele ter chegado lá – não era à toa que ele era o único palestino na atividade. Em primeiro lugar, ele precisou mandar o passaporte via táxi para a embaixada da Eslovênia, porque ele não tinha permissão para chegar até a cidade onde fica a embaixada, Tel Aviv, para poder pedir o visto. Além disso, o visto esloveno (que eu brasileira sem noção aqui não fazia ideia de que precisava, já que eu não precisei) foi uma grana e depois, já com o visto na mão e as passagens compradas, a travessia para outro país (a Jordânia, um país vizinho) para poder pegar o voo (já que ele não pode usar o aeroporto israelense) é uma viagem imprevisível: você jamais sabe quanto tempo vão te prender na fronteira para ficar fazendo perguntas ou se não vão simplesmente te barrar de vez e você vai perder a viagem. Por quê? Porque para chegar de Ramallah, a cidade onde ele mora na Palestina, a Amã, a capital da Jordânia, ele tem que passar por três controles de fronteira: um israelense, um palestino e um jordaniano.

Confuso? Admito que na época eu também não entendi quase nada e só o que eu pensei foi “Putz, que complicado, hein?”. O que acontece, no entanto, é que agora estando aqui na Palestina e circulando entre os lugares eu consegui entender um pouco melhor o que tudo isso significava e ainda descobri mais uma coisa: quando este meu amigo foi morar em Dubai durante um ano a trabalho, ele não podia entrar em Dubai com um passaporte emitido pela Autoridade Palestina. Os Emirados Árabes Unidos não reconhecem este passaporte. Por isso o meu amigo teve que se valer de uma “ajuda” que o governo da Jordânia dá: eles emitem passaportes jordanianos para refugiados palestinos.  Ou seja: agora meu amigo têm, por um motivo muito diferente do que os meus amigos brasileiros, dois passaportes.

Ele não é jordaniano, os pais dele também não, os avós também não e eles nem gostariam de ser. Mas ele têm um passaporte de lá porque… é, porque sim. Em adição a isso, ele me contou que nesta ocasião, para chegar até a Jordânia, para poder pegar o voo até Dubai, ele teve que usar o passaporte palestino para cruzar a fronteira. Mas uma vez estando em Amã, a capital, ele têm que se dizer jordaniano e apresentar o passaporte jordaniano para embarcar para Dubai, já que os Emirados Árabes Unidos não aceitam passaportes palestinos. Ou seja, ele precisa se identificar como duas pessoas diferentes durante a mesma viagem para conseguir completá-la.

A ironia?

Enquanto eu o estava visitando na Palestina, o lugar onde ele nasceu, eu passeei por muitos lugares, por quase todo o território. Tive que passar diversas vezes por checkpoints e revistas de segurança durante estes passeios, mas fui e voltei incontáveis vezes de um lugar a outro sem problema algum além da demora para passar por isso tudo. Além, é claro, de ter entrado no território pelo aeroporto em Tel Aviv, o mais próximo, aquele que meu amigo não pode ir.

O meu passaporte brasileiro me dava praticamente um passe livre dentro de Israel e da Cisjordânia e entre os dois locais (ainda que as fronteiras não sejam nada bem definidas e eu esteja falando desse jeito meramente para facilitar). Eu, que não nasci lá, que não tenho nada a ver com a história, tenho muito mais condições e facilidades de viajar por lá, pelos arredores e pelo resto do mundo com meu único passaporte do que pessoas que nasceram lá. Pessoas que já precisaram de dois passaportes diferentes para fazer uma viagem a trabalho.

Não só eu não precisei de dois passaportes para perambular por lá como eu fui a muitos lugares que ele jamais sonhou em pisar. Eu bati fotos e mostrei a ele de lugares que ele amaria conhecer, mas sabe que nunca consegue uma autorização para ir, mesmo que tenha dois passaportes. Eu conseguia numa boa pegar transportes públicos da cidade onde ele morava e chagar até Tel Aviv, a cidade na qual ele teria que ir para pegar o visto Esloveno, mas não podia.

Eu simplesmente não acreditava no que eu estava ouvindo.  E quando me impressionei, ele soltou um “Eh, eu tenho dois passaportes… mas eles não valem muito, não é mesmo? Então do que adianta?”

Poisé, meu amigo. Do que adianta? Eu realmente nunca havia parado para pensar neste outro lado do que significa ter dois passaportes.

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