3 meses de Macri: Cuidado para não dançar!

por Franco

A eleição de Maurício Macri para Presidente da Argentina em Novembro último fez com que os jornais brasileiros derramassem muita tinta e fizessem pouca análise. Via de regra, a reação à sua vitória foi um espelho de seu posicionamento frente à Presidente Cristina Kirchner (que governou entre 2007 e 2015), e nos dizem menos sobre as posições e propostas do candidato do que sobre o apoio ou rejeição dos brasileiros à “Dinastia K”. Pela conexão do casal K com a “onda esquerdista” latino-americana dos anos 2000, elogiar Macri e criticar Cristina Kirchner permite transformar a Argentina, por meio de uma comparação muito preguiçosa, em um fantasma da situação política do Brasil, e para a direita brasieira festejar a vitória de Macri como a vitória de “um dos nossos”.2015-873266422-201512101521290483_ap_20151210

Baixada a poeira – e dançinhas na posse – após 3 meses, será possível fazer um balanço preliminar do governo Macri, indicar quais caminhos ele deverá seguir, e o que isso poderá significar para o Brasil? É o que tentarei fazer até o fim desse post.

 Situação política atual – Fim da Lua de Mel?

 Apesar de muito comentada, a vitória de Maurício Macri foi apertada – por volta de 52% dos votos no segundo turno das eleições (algo inédito, já que os presidentes argentinos geralmente são eleitos no primeiro turno) contra 48% dos votos do candidato governista, Daniel Scioli[1] – números portanto, bastante semelhantes à disputada eleição de 2014 aqui em terras tupiniquins, vencidas por Dilma Rousseff.

Macri contava – em certo respeito, ainda conta – com bastante capital político, tendo mais de 63% de popularidade ao tomar posse. Seu próprio opositor, Daniel Scioli, não era exatamente próximo de Cristina Kirchner, o que indica que o “Peronismo do Século 21” possa de fato estar politicamente enterrado, e que o povo anseia mudança. A opinião pública, porém, muitas vezes é traiçoeira, e a aprovação de um rosto novo nem sempre se traduz na aprovação de seu projeto político.

As primeiras medidas de Macri, assim, foram voltadas para tentar controlar a acentuada inflação que o país enfrenta – que beira os 30% por ano[2] – além de remediar o déficit do governo, estimado em 7%[3], por meio do corte de subsídios e aumento de tarifas, como a da luz, que subiu mais de 300%[4]. Para enfrentar a inflação, reajustes para os professores abaixo da inflação: apenas 25%[5]. Uma clássica política de austeridade, então.

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Um país dividido: mapa da eleição presidencial argentina. Em azul, a Frente para la Victoria (situação), e em amarelo o Cambiemos (oposição, do vitorioso Mauricio Macri). Destaque para o azul da Patagônia, onde Néstor Kirchner foi governador e ainda exerce influência – mesmo depois de morto.

Clássica e impopular: desde a posse, a popularidade de Macri, medida pelo CEOP, caiu em dez pontos, de 63% para 53%[6]. É improvável que o ajuste traga resultados imediatos, colocando Macri numa corrida contra o tempo.

O desafio também vêm dos próprios políticos: A oposição peronista ainda têm a maioria das cadeiras no Senado (40 de 72) e um número pouco menor do que a coalizão de Macri, a Cambiemos, na Câmara de Deputados (81 contra 92, de um total de 257). Talvez mais significativamente, nenhuma das duas agremiações tem a maioria na câmara, o que quer dizer que o projeto de Macri até agora tem sido implementado por meio de decretos. Se a popularidade do governo Macri continuar caindo, é possível que a coalizão peronista ensaie um contra-ataque, recusando negociar com os governistas e com a presidência com o intuito de paralisar o país e deslegitimar o Presidente.

 E o Brasil?

Com a eleição de Maurício Macri, abriu-se uma oportunidade de fazer com que voltem a andar as negociações no Mercosul: Fala-se na transformação do orgão de volta em uma zona de livre-comércio, como era antes de 1995, ano em que se transformou em uma união aduaneira. A diferença é maior do que parece: como numa união aduaneira, todos os participantes precisam ter a mesma tarifa de importação, isso significa que todos precisam estar de acordo antes que se assine um acordo comercial com um país de fora do bloco. Se o Mercosul voltar a ser uma zona de livre-comércio, o critério passa a ser somente a falta de tarifas de importação de um país a outro dentro da organização, cada um podendo assim assinar os acordos que quiser com os países fora do bloco. As vantagens são grandes para o Brasil: novos acordos com a China e com a União Europeia (este último parado hà 15 anos) podem aumentar bastante nossas exportações para os maiores mercados hoje. Ou seja, o quadro geral é bom para nós!

Resta saber se a queda de popularidade de Macri irá prosseguir: se sim, é capaz de ele tentar recuperá-la dificultando ainda mais a entrada de produtos brasileiros na Argentina, algo que já causa controvérsias entre nós e nossos vizinhos há muitos anos. Seja o que acontecer, o último tango de Macri ainda está bem longe.

Referências:

  1.  CARNEIRO, M. e COLOMBO, S. “Opositor Mauricio Macri é eleito presidente da Argentina” Folha de S. Paulo, 22 dez. 2015. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1709614-veja-os-resultados-oficiais-da-eleicao-presidencial-na-argentina.shtml Acessado em 25 fev. 2016.
  2. REBOSSIO, A. “Inflação vai a 30% na Argentina e se torna a pedra no sapato de Macri” El País Brasil, 16 fev. 2016. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/16/internacional/1455580034_771660.html Acessado em 25 fev. 2016
  3. CUÉ, C. “Argentina admite déficit de 7% , o mais alto em 40 anos” 14 jan. 2016. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/13/internacional/1452720502_991610.html Acessado em 25. fev 2016
  4. CUÉ, C. “Macri faz seu primeiro grande ajuste: 300% de aumento na conta de luz” El País Brasil, 28 jan. 2016. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/28/internacional/1453993580_894779.html. Acessado em 25 fev 2016.
  5. REBOSSIO, A. “Mauricio Macri frustra expectativas de reajustes salariais e redução salarial na Argentina”, El País Brasil, 23 fev. 2016. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/22/internacional/1456157203_755565.html Acessado em 25 fev. 2016.
  6. “¿Qué dicen las encuestas de opinión sobre el Gobierno de Macri?” Política argentina, 14 fev. 2016. http://www.politicargentina.com/notas/201602/11678-que-dicen-las-encuestas-sobre-el-gobierno-de-macri.html Acessado em 25 fev. 2016.
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