Arábia Saudita: O bonito, o feio e o futuro

por Felipe Teixeira

Em meio as economias emergentes do mundo (que em sua maioria passam hoje por problemas políticos e econômicos) uma se destaca nos meios de comunicação sobre política internacional, nos noticiários econômicos e na maioria dos grandes eventos diplomáticos. Esse país, apesar de não possuir uma economia gigante como o G7[1] ou o E7[2] nunca fica distante de qualquer análise de Relações Internacionais que se preze.

Líder de fato de diversas organizações regionais, políticas e religiosas a Arábia Saudita é um agente fundamental nos jogos políticos mundiais por um motivo simples: petróleo. O ouro negro concedeu uma dádiva da riqueza aos países ao redor do Golfo Pérsico, porém são os sauditas que controlam a maior parte desse tesouro. Dentre as monarquias ao redor do golfo a Arábia Saudita possui o maior território, a maior economia e a maior população por uma ampla margem. Esses fatores, além da posse histórica de locais sagrados para os praticantes do islamismo (Meca e Medina) trazem para esse agente uma ampla margem de poder que é efetivamente utilizada.

Quando a Arábia Saudita se move o mundo observa com atenção, pois suas ações possuem conseqüências muito além de suas fronteiras. Líder regional[3], o país age como principal direcionador de políticas na Liga Árabe, formada pelos países do golfo pérsico, norte da áfrica e a Somália. De forma ainda mais proeminente, os sauditas lideram o Conselho de Cooperação do Golfo formado também pelos seus vizinhos Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar e Emirados Árabes Unidos. Porém seu verdadeiro poder emana de uma organização específica: a OPEP.

Conhecida como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo a entidade intergovernamental funciona como uma coalizão de alguns dos maiores produtores do recurso. Sob liderança da Arábia Saudita a OPEC de fato possui influência direta no preço de uma matéria que gera trilhões de dólares e empregos e todo o mundo. Tanto nos choques do petróleo em 73 e 79 quanto no momento atual de queda extrema dos preços a Arábia Saudita mostra que seu poder sobre os mercados globais vai muito além do tamanho de sua economia.

Frente a necessidade de entender as transições pelas quais passa o país essa postagem tentará delimitar algumas das tendências observadas nos últimos anos e intensificadas com a sucessão real. O reino passa por mudanças bruscas na política e economia domésticas. O mercado majoritariamente exportador de petróleo não possui espaço para a empregar a crescente mão-de-obra de cidadãos sauditas e ainda conta com trabalhadores estrangeiros em regime de sub-emprego. De acordo com o CIA World Factbook em julho de 2015 a população não-saudita já compunha 30% da população total.[4]

O Bonito:

Por décadas as mudanças implementadas pelo governo estavam relacionadas a industrialização e diversificação da economia. Iniciativas recentes incluem a construção de um complexo de construção e reparo naval[5], expansão global de suas atividades petroquímicas[6][7] e criação de grandes complexos urbanos educacionais e industriais[8][9]. A tendência é clara: o governo quer gerar empregos de qualidade para sua população crescente, evitar a fuga de cérebros e aumentar seu produto interno produto.

Os cidadão sauditas hoje são 90% empregados pelo governo, em empresas estatais como a Saudi Aramco ou em escolas, faculdades e hospitais públicos. Indo além, cidadãos recebem múltiplos benefícios ou auxílios para gasolina, saúde, educação, água, eletricidade, pensões e empréstimos sem juros.[10] Para evitar arcar totalmente com o peso contábil da população do país é essencial gerar empregos no meio privado.

Estudos recentes feitos pelo FMI[11] e pelo McKinsey Global Institute[12] indicam as reformas necessárias e atual situação da economia local. Algumas dessas formas já estão em (lento) curso, como uma reestruturação do setor elétrico para maior liberalização, competição e diversificação da matriz que hoje depende da queima de combustível fóssil. Porém, o reino continuará dependente de exportações de baixo valor agregado nos próximos anos, especialmente o petróleo e alguns de seus derivados.

Para acessar todo o acervo de mão de obra no reino diversas mudanças que ocorrem (muito) lentamente no campo social. Até recentemente mulheres tinham acesso somente a profissões limitadas, como enfermagem e ensino escolar. Uma série de reformas nos últimos anos permitiram as mulheres um espectro mais diverso de profissões: vendas, serviços e administração. Mudanças nas vidas de milhões de mulheres sauditas já possuem repercussão e visibilidade na sociedade local. [13] Esse cenário trás ainda mais mudanças a vida feminina na Arábia Saudita. A partir de 2015 elas passaram a ter seus direitos de eleger e serem eleitas na vida política.

O Feio:

Mulheres ainda precisam de permissão de seu guardião (pai, irmão, marido ou filho) para estudar ou viajar, além de não poder dirigir. A vida pública e exercer profissões são dificultados por todo um conjunto de normas patriarcais. As leis locais ainda punem severamente mulheres que interagem com homens que não são de sua família, usam academia ou piscina, experimentam as roupas ao fazer compras, entram em um cemitério e muitas outras coisas.[14] Ser mulher na Arábia Saudita é difícil e a situação não deve melhorar no curto ou médio prazo. Para ambos os sexos, chibatadas e pena de morte são penas comuns para diversos crimes.

Essa materialização de uma política conservadora possui reflexos claros. O índice de progresso social da Arábia Saudita consegue ser até 18% menor do que países com o mesmo PIB Per capita. Os pontos que tornam o país tão mal avaliado quando comparado aos seus semelhantes são os Direitos Humanos, liberdade de escolha, tolerância e inclusão.[15] (Que surpresa!)

O Futuro:

Dentro da prática religiosa saudita alguns segmentos já apóiam causas como a mistura de homens e mulheres em espaços públicos, alegando que o Islã não proíbe este tipo de interação entre os sexos. Esse debate, como muitos outros relacionados as diferenças de gênero no país tende a ter um movimento contrário. Mas, o fato desses segmentos existirem e o monarca atual parecer favorável a uma abertura limitada das leis que limitam as mulheres nos faz crer que embora lenta, mudanças para as mulheres irão ocorrer nos próximos anos.[16] Como o país é um líder em sua região e um expoente da prática religiosa mulçumana a melhora do tratamento de mulheres no país com certeza significará pressão por mudanças em toda a região.

No mais, a política da Arábia Saudita de derrubar o preço do petróleo para enfraquecer seus inimigos têm apresentados conseqüências sérias para o orçamento e nível de investimento do país.[17] Esse é um desafio importante para um sistema econômico tão dependente do investimento estatal para bancar os cidadãos e seus modos de vida. Para manter a economia rodando o governo adotou o aumento de impostos. Reflexos dessa política tem provocado insatisfação social e preocupação quanto a capacidade de continuar gastando para sustentar a economia.[18][19] Indo além, o governo vêm ampliando seus gastos militares com o envolvimento em conflitos na região e compras de armamentos.[20]

Como resultado desse caldeirão de instabilidade o governo mudou seu discurso e passou a defender união entre outros dos maiores exportadores de petróleo (Rússia e Irã, seus inimigos)  para controlar a queda dos preços e garantir sua rentabilidade.[21] Para atender aos planos do monarca de expansão da economia do país, o controle do cenário econômico é fundamental. As políticas adotadas têm impacto global pois em conjunto o Conselho de Cooperação do Golfo sob liderança saudita é uma das maiores economias emergentes do mundo e cresceu a taxas chinesas nos últimos quinze anos. Manter o crescimento econômico irá demandar toda a capacidade desses países de diversificar suas economias.[22]

[1] G7: Grupo composto pelas 7 economias mais industrializadas. O grupo é composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.

[2] E7: Grupo composto pelas 7 maiores economias emergentes. O grupo é composto por Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Rússia e Turquia.

[3] Além das influências citadas a seguir, a Arábia Saudita também mantém forte liderança religiosa sobre os mulçumanos sunitas por todo o mundo. O país financia, sedia e lidera a Liga Mundial Islâmica.

[4] https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/sa.html

[5] http://www.petronoticias.com.br/archives/79603

[6]http://www.mckinsey.com/insights/energy_resources_materials/when_gas_gets_tight_next_steps_for_the_middle_east_petrochemical_industry

[7] http://www.petronoticias.com.br/archives/80033

[8] http://www.kaust.edu.sa/

[9] http://www.kaec.net/

[10] http://money.cnn.com/2016/01/05/news/economy/saudi-arabia-oil-budget-gas/

[11] https://www.imf.org/external/pubs/ft/dp/2015/1501mcd.pdf

[12] http://www.mckinsey.com/insights/growth/moving_saudi_arabias_economy_beyond_oil

[13] http://foreignpolicy.com/2016/01/28/saudi-women-are-getting-down-to-business/

[14] http://www.theweek.co.uk/60339/eleven-things-women-in-saudi-arabia-cant-do

[15] https://www2.deloitte.com/content/dam/Deloitte/global/Documents/About-Deloitte/gx-cr-social-progress-index-executive-summary-2015.pdf

[16] http://foreignpolicy.com/2014/01/14/saudi-arabia-now-slightly-less-terrible-for-women/

[17] http://english.alarabiya.net/en/special-reports/saudi-budget-2016/2015/12/28/Saudi-Arabia-to-unveil-2016-budget.html

[18] http://bigstory.ap.org/article/c9b2976b762643ada6279fab0583290d/saudi-arabia-projects-87b-deficit-amid-low-oil-prices

[19] http://www.emirates247.com/business/economy-finance/saudi-arabia-considering-subsidy-cuts-vat-2015-11-25-1.611896

[20] https://www.rt.com/news/238881-saudi-arabia-arms-import/

[21] http://www.theguardian.com/business/2016/feb/20/oil-price-plunging-saudi-arabia-iran-alliance-enemies

[22] http://www.pwc.com/gx/en/issues/economy/global-economy-watch/beyond-oil-outlook-for-the-gulf-economies-dec13.html

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3 comentários sobre “Arábia Saudita: O bonito, o feio e o futuro

  1. Oi Felipe,
    Excelente texto! Mas eu tenho uma questão: no final do texto você fala de como a queda do preço do petróleo está afetando a economia saudita, certo? Mas eu pensei que fosse do interesse saudita manter esse preço baixo (por conta dos seus inimigos na região políticos na região, Irão e ISIS, por exemplo). Além disso, pelo país ser quase o líder da OPEP e ser o grande responsável por manter a oferta alta de petróleo no mundo, o governo saudita não conseguiria facilmente aumentar o preço dessa commodity no mundo e resolver os seus gastos orçamentários?
    Mais uma vez, parabéns pelo texto!
    Abraços.

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    • Oi Sergio!

      Obrigado. Vou dividir essa resposta em três partes para que fique mais fácil.

      Primeiro, o interesse saudita em manter os preços baixos é sim enfrentar seus inimigos na região. Porém, é necessário ter em mente que as empresas de petróleo trabalham com horizontes de longo prazo e demandam uma alta capacidade investimento. O que acontece é que a partir do momento em que o preço do petróleo desceu, diversas operações deixaram de ser economicamente viáveis, como o shale americano. A estratégia é também econômica pois a quebra ou perda da capacidade de investimento dos rivais eleva a participação de mercado da Saudi Aramco. E nesses tempos de preços baixos é justamente a Arábia Saudita que é mais competitiva pois seu petróleo é extremamente barato e de alta qualidade.

      Mais além, embora a movimentação atual possa tomar clientes de seus rivais, desestabilizar economias e minar os planos de investimento de petroleiras, a receita do petróleo ainda é responsável por manter a economia saudita funcionando. Quando as reservas nacionais e capacidade de endividamento do reino começarem a se esgotar o governo enfrentará pressões políticas internas e queda na atividade econômica. Afinal, os salários têm que ser pagos.

      Por fim, a subida dos preços não seria tão rápida por causa da entrada de novos fornecedores no mercado, como Irã. Também, embora o controle de preços se dê por limite de produção, é comum que os países sempre produzam acima do combinado. O momento atual da economia internacional também é de baixo crescimento da demanda. As reservas estratégicas de petróleo estão também em alta capacidade no momento. É pouco provável que uma escalada de preços aconteça. Caso ocorra, iria somente minar a estratégia de tomar participação de mercado de seus concorrentes e desestabilizar economias rivais como ISIS, Irã, Rússia e até mesmo os EUA até certo ponto.

      Espero ter conseguido explicar! Espero sua resposta caso ainda tenha qualquer dúvida.

      Abraços!

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  2. Ótimo texto Felipe!
    Fico pensando nas reformas que você mostrou e como elas parecem mostrar um lento despertar da Arábia Saudita pros direitos das mulheres, entre outras causas sociais. Como você mesmo notou, movimentos assim tendem a gerar também uma reação contrária, que aqui, acho, seria uma radicalização de um Islã mais patriarcal. Será que essas reformas vão ser bem-sucedidas ou vamos ver um equivalente da Revolução Iraniana na Arábia Saudita?

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