Desabafo de um Viajante n’Asarábias

por Daniel Milhomens*

Como alguns já sabem, nas últimas férias de início de ano eu tive a oportunidade de visitar a Palestina. Essa viagem não teve exatamente o perfil de turistar na holy land, fui de alguma forma em busca de uma narrativa, de uma história sistematicamente marginalizada.

Em primeiro lugar, caro leitor, gostaria de convida-lo a descobrir sobre esse lugar muito especial. Assim como eu me surpreendi, acredito que vocês também vão se “chocar” com coisas que nunca imaginaria. Na Palestina neva e faz frio (pelo menos no inverno faz muito, muito frio, acredite!), as pessoas falam inglês (sim, pelos menos o básico de sobrevivência todo mundo fala), a maioria esmagadora tem a cesso à boas escolas e universidades (é a população mais bem educada do mundo árabe) e, de uma maneira geral, materialmente, se vive de maneira relativamente confortável (ainda mais se comparado ao Brasil). A criminalidade também é outro aspecto positivo a ressaltar, confesso que nunca me senti tão seguro na vida. A hospitalidade então é um capítulo à parte, ta pra nascer povo mais receptivo e acolhedor que o palestino.

Diante de tantas coisas boas, as pessoas ainda reclamam! Você pode estar se perguntando: “mas como???!!!”. Bom, eles reclamam pela falta de uma coisa: liberdade. Falta liberdade no dia-a-dia dos palestinos, porque as violações aos direitos humanos são diárias e sistemáticas.  Falta liberdade porque são desumanizados e têm direitos negados ao serem tratados como invasores, ainda que seus antepassados tenham vivido lá por gerações e gerações. “Mas eles são violentos, jogam foguetes em civis, esfaqueiam inocentes, se explodem no meio da multidão, etc”. Sim, isso é lamentável, mas tente se colocar no lugar deles. Evidentemente acho isso tudo um horror, só que depois de presenciar algumas coisas consigo entender perfeitamente o porquê de determinados seres humanos (determinados mesmo, porque a maioria esmagadora nunca vai chegar a esse ponto) explodirem à ponto de fazer esse tipo de coisa. Depois de presenciar (e respirar) bombardeios de gás nas casas das pessoas, de escutar tiros disparados contra crianças que arremessam pedras, de escutar relatos de famílias que perderam seus filhos/sobrinhos/primos/netos atropelados (propositalmente!) pelo simples fato de serem vistos como “futuros terroristas”. Depois de visitar o Vale do Jordão e ver o quanto o acesso à água é negado a seus habitantes árabes (são proibidos inclusive de cavar poços), enquanto que colonos e fazendas israelenses nadam nas águas do aquífero. Depois de escutar relatos de ativistas e não ativistas presos (muitos deles, pasmem, crianças!) e torturados, sem direito a saber de que são acusados e muito menos a se defenderem. Acreditem se quiserem, isso não é ilegal, é a lei militar israelense na qual boa parte da população palestina está sujeita. Claro que isso você não vai encontrar na grande mídia, porque árabe é tudo bárbaro e não merece nada melhor do que a taca, não é mesmo?

Eu e algumas pessoas do grupo de brasileiros tivemos a oportunidade de conversar com alguns israelenses que moram lá e se mostraram abertos a dialogar sobre a questão. Foi muito comum argumentarem que, na correria do dia-a-dia têm que trabalhar e estudar, não têm muito tempo para pensar sobre essas questões. O problema é que enquanto isso pessoas são presas, torturadas e mortas pelo simples fato de terem nascido com um DNA um pouco… digamos… errado (árabe).

Como ser humano eu me sensibilizo com a causa e lamento que a violência tenha chegado tão longe. Lamento que tantos palestinos e israelenses morram por conta de um projeto político de Estado racista. Gostaria de deixar claro que sionismo (ideologia política responsável por nortear a ideia de se criar o Estado de Israel) não é sinônimo de judaísmo, portanto criticar o Estado de Israel não é necessariamente antissemita. A “única democracia do Oriente Médio” é genocida sim! Isso tudo está sendo feito em nome de todos os judeus, para que “o único lugar no mundo seguro para um judeu estar” continue existindo como tal. O problema é que esse único lugar seguro para um judeu estar, Israel, talvez não seja tão seguro assim para um judeu estar.

O que mais me entristece é que talvez Brasil e Israel não sejam tão diferentes assim. Talvez, nós brasileiros, em alguma medida também nos omitimos e, portanto, somos responsáveis por um genocídio de negros, de pobres, de indígenas, de LGBTs.

*Daniel Milhomens é estudante de Relações Internacionais na PUC-Rio. Viciado andar por aí e interagir com o diferente. É apaixonado pelo oriente médio e tem enorme respeito pelo mundo árabe. Voltou da Palestina com a certeza da necessidade de fazer algo para transformar a realidade que vivenciou.

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