Das Paranóias de Ser Mulher

por Marina Sertã

Hoje sentou um cara meio estranho na minha frente na biblioteca. Eu tinha a impressão que ele olhava pra mim volta e meia. Bobagem. Continuei trabalhando na minha monografia.

Foi ficando tarde, a biblioteca começou a esvaziar. Quando bateu umas 22h, estávamos eu, ele e mais uma meia dúzia. É claro que as pessoas que eu conheço e ficam todo dia religiosamente até a biblioteca fechar não vieram hoje. Claro. Porque essas coisas sempre acontecem assim.

Comecei a ficar nervosa. O ponto que eu pego o ônibus pra casa não é dos mais movimentados, e ontem eu perdi o ônibus e tive que ficar um tempão esperando.

Comecei a arrumar minhas coisas pra ir embora. Ele começou a arrumar as dele também. Eu demorei bastante. Até ele sair. Lembrei que o meu amigo estava no segundo andar, subi rezando pra ele não ter ido embora, pedi pra que ele não fosse sem mim.

Meu amigo me acompanhou até o ponto, esperou até eu entrar no ônibus. Agora eu estou em casa, segura.

Não aconteceu nada comigo.

O que aconteceu foi o que acontece todo dia, foi medo. O que aconteceu foi viver num mundo onde uma mulher é estuprada a cada três horas¹. Aí você fica só pensando quando vai chegar a sua vez.

Nada aconteceu.

O cara pode não ser estranho. Ele pode não ter olhado pra mim o dia inteiro. Pode ter pego as coisas na mesma hora que eu por coincidência. Pode ser tudo coisa da minha cabeça.

Mas eu vivo num mundo onde eu posso estar de casaco e calça jeans, como hoje, e ser olhada de cima em baixo como um pedaço de carne. Eu vivo num mundo onde EU tenho que me dar o respeito. Onde eu tenho que me esforçar muito por ele. Eu vivo num mundo onde respeito não é uma coisa dada pra todo mundo. Respeito, e principalmente integridade física, quando se anda nesse mundo sendo mulher, é condicionado a roupa, batom, rebolado e o quanto você bebeu. Só que na real, respeito está condicionado a um babaca achar que tem direito ao seu corpo e que hoje ele vai usufruir dele. E não tem pano cobrindo seu corpo que impeça.

Não aconteceu nada comigo.

Hoje.

Amanhã, quem sabe?

 

  1. http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2016/01/uma-mulher-e-estuprada-cada-tres-horas-no-brasil.html
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