Afinal, que p#$%@ aconteceu na Inglaterra?

por Franco

Na quinta-feira, 23 de Junho, ocorreu no Reino Unido o Referendo sobre a Permanência do Reino Unido na União Europeia. Os meses anteriores foram marcados por debates intensos no R.U. (vamos chamar assim para facilitar), sobre os méritos tanto da permanência quanto da saída.

A sociedade britânica revelou-se bastante dividida, como mostraram todas as pesquisas de opinião feitas antes da votação, que mostravam uma margem de vitória muito apertada para ambos os lados. Grandes jornais escolheram lados diferentes e passaram a constantemente divulgar reportagens que mostravam as vantagens de um lado ou de outro: o The Sun, por exemplo (o tablóide de maior circulação no R.U., pertencente ao magnata Rupert Murdoch, que é frequentemente associado com causas conservadoras e nos EUA é dono da Fox News), apoiou pesadamente o “Brexit” (o nome feio que encontraram para a saída do R.U. da UE, misturando “Britain” com “Exit”), já o The Guardian (maior jornal de esquerda do R.U.) apoiou a permanência. No geral, as declarações de apoio seguiram bastante a afiliação política, com os jornais ‘da direita’ declarando seu apoio ao Brexit e os jornais ‘da esquerda’ apoiando a permanência – talvez, já que se trata de uma questão de soberania nacional, a direita tenha decidido soltar seus cães nacionalistas dessa vez.
Como toda confrontação ideológica, a disputa às vezes assumiu contornos feios – o pior momento foi, sem dúvida, o assassinato da parlamentar trabalhista Jo Cox, no dia 16 de junho, uma semana antes da votação, por um partidário do Brexit. Mesmo com o clima de alta divisão, a maioria das pesquisas apontava uma leve vantagem para o voto pela permanência, o que apontava um cenário parecido com o do referendo pela independência da Escócia, de 2014 – um cenário de vou, não vou, vou, não vou, fiquei. Na hora, o medo das incertezas faria com que as pessoas votassem por manter o estado atual.
É claro, não aconteceu assim.
O Brexit venceu. A votação foi ainda assim muito apertada, com 51% de votos pela saída contra 48% pela permanência, mas ainda assim o resultado surpreendeu muitos que tinham os britânicos como um povo fundamentalmente liberal e cosmopolita (foi lá que nasceu o liberalismo, afinal, e Londres é uma das cidades mais diversas do mundo). Mas quando as estatísticas mais complexas começaram a aparecer, uma das reações foi: ah, é claro. Em áreas como Londres, o voto “sim” (pela permanência) levou a maioria, enquanto que em cidades do interior e antigos centros industriais, o voto “não” acabou ganhando.

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Fonte: CNTV

A explicação para o resultado, então, se centrou naquelas velhas palavras feias: Racismo. Xenofobia. A “culpa” da saída do R.U. seria inteiramente das classes médias-baixas brancas, provincianas, egocêntricas, apegadas à velhas ideias da grandeza britânica e dos tempos do império, e contrária ao multiculturalismo, ao cosmopolitismo e à imigração, os baluartes da civilização no século 21.
Essa explicação, baseada em preconceitos sobre as classes baixas (alguns até fundamentados – afinal, não é a toa que as denúncias de crimes de ódio subiram 800% após o anúncio do resultado), é pior do que elitista: ela é equivocada. Afinal, os resultados da votação na Escócia, que também tem áreas muito pobres para os padrões britânicos, favoreceram majoritariamente o “sim”.
Uma explicação alternativa se obtém se você virar o problema do Brexit de ponta-cabeça. E deixar de ver a divisão do país como entre as elites cosmopolitas do sul e as classes trabalhadoras ignorantes e preconceituosas do norte, e mais entre os vencedores e perdedores da globalização. A União Europeia, que representa a abertura das fronteiras para a circulação de capitais, mercadorias e pessoas, foi um golpe duro nos centros industriais da Inglaterra, mas não foi o único. Desde os anos 1970, a expansão do comércio e do investimento externo colocou o R.U. em competição com os eletrônicos produzidos no Japão, as roupas produzidas na Índia, e aqueles outros clichês que aprendemos na aula de geografia do ensino médio sobre “globalização”. Essa dificuldade de competir em um cenário de comércio cada vez mais livre minou as indústrias tradicionais do R.U., e o berço da Revolução Industrial se viu com cada vez menos indústrias: sob o governo de Margaret Thatcher (1979-1990), dezenas de minas de carvão, como as descritas por Friedrich Engels em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845), foram fechadas. Em 2015, a última mina de carvão profunda em solo britânico foi fechada.
Mas havia uma atividade em que os ingleses se sobressaíam – pelo menos, alguns deles: as inovações financeiras, que transformaram Londres em um dos maiores centros financeiros do mundo . Para quem participava no boom do setor financeiro, a globalização não era só uma festa – era uma obrigação, para que os capitais circulassem cada vez mais, de lugar rentável para lugar mais rentável. O abismo econômico se formou entre essa elite que enriquecia cada vez mais e uma classe trabalhadora que mergulhava no desemprego.
Ao mesmo tempo, se constituía uma poderosa teia de interesses que unia a mídia, as grandes empresas e a intelectualidade, em apoio à globalização e seus benefícios – os benefícios de uma certa classe, claro.
Para a maioria da população britânica, no entanto, os benefícios não eram tão evidentes. O abismo entre essas duas opiniões crescia ao mesmo tempo em que a desigualdade reduzia cada vez mais o contato entre as classes trabalhadoras e as elites, que simplesmente não conseguiam entender como os trabalhadores poderiam votar por algo tão obviamente benéfico – não basta defender a ideologia que te beneficia, para realmente defendê-la, é preciso que você realmente acredite nela e ela se torne como o ar que você respira. Assim, você passa a vê-la como boa para todos, e quem discorda é louco ou mal-intencionado.
O Brexit fica entre um foda-se da classe trabalhadora para os interesses globalistas da classe financeira e uma reação nacionalista xenófoba, com traços de uma vingança contra todos os políticos que diziam saber aquilo que era bom para todos. Teve, então, um forte componente emocional: muitos votaram pela frustração contra o estado das coisas mais do que por achar que a saída iria beneficiá-los de alguma forma, e muitos já declararam se arrepender de seus votos, como as pessoas que ligaram para os centros de votação no dia seguinte perguntando se podiam mudar seus votos, ou o sujeito que disse que votou pelo “não” mas não esperava ganhar, só queria mostrar sua opinião, e agora estava com medo.

A sensação de incerteza e arrependimento é tão grande que já até se criou um novo termo: Bregret, a junção de Britain e Regret (arrependimento).
Mas Bregret ou não, já está claro: apesar dos pedidos para um novo referendo, o Brexit não tem volta. Muitos podem estar arrependidos de seus votos, mas se esse referendo prova alguma coisa, é que, contra a tal “crise da representatividade”, a sensação de que o povo não tem poder e as elites políticas vão decidir tudo sem consultá-las, não existe solução melhor do que a mais óbvia: dar mais poder ao povo para decidir seu destino.

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