Furor Indica (pra caramba): Hamilton – An American Musical

por: Amanda Melo e Carol Grinsztajn

   Nessa semana e na ultima, as eleições norte-americanas passam por dois  importantes eventos: as convenções nacionais dos dois grandes partidos, Republicano e Democrata. Para quem vem acompanhando as convenções e as primárias, temos visto temas essenciais sendo discutidos apaixonadamente: imigração, racismo, o lugar da mulher na política, corrupção,  políticas econômicas. Posicionamentos sobre esses temas acompanham a política norte-americana  há tempos, mas talvez há mais tempo do que normalmente imaginamos- eles se desenvolvem com as próprias condições e contradições desde os primeiros governos norte-americanos. É claro que entede-los exige muita leitura e análise, mas o aprendizado sempre pode ser acompanhado de recursos que nos trazem reflexões e questionamentos, e arte normalmente é uma ótima companheira nessa viagem, então aqui vai a nossa indicação.

Hamilton: An American Musical (Original Cast Recording)

      “Eu estou trabalhando em um álbum de hip hop – um álbum conceitual – sobre a vida de alguém que para mim incorpora o hip hop: o Secretário do Tesouro Alexander Hamilton”. Quando Lin-Manuel Miranda falou essa frase em um sarau de poesia na Casa Branca em 2009 todos na plateia riram. Bom, como o próprio presidente Barak Obama colocou, ninguém está rindo agora. Sete anos depois, Hamilton: An American Musical ganhou um Grammy, um Pulitzer, 11 Tony’s (o “Oscar da Broadway”), e foi proclamado pela primeira-dama Michelle Obama como “a melhor obra de arte em qualquer formato que eu já na minha vida. Ingressos para o show estão esgotados até o final do ano. O elenco já rodou os talk shows mais badalados, já posou para a capa de basicamente todas as revistas de entretenimento – e já se apresentou na Casa Branca. Dizem por aí que até mesmo a retirada de Alexander Hamilton da nota de 10 dólares americanos foi cancelada devido ao sucesso do musical. 

tumblr_ny178wm74j1ukhudfo1_540

      Quem é fã de musicais sabe que essa é uma história muito incomum- musicais são muito frequentemente pouco acessíveis (leia-se: caros) e sem muito impacto cultural- a não ser que se tornem filmes.   O que tornou Hamilton uma exceção é justamente a sua relevância  ao contar a História de forma a apresentar novas reflexões sobre o momento político atual. 

Comecemos pela música em si.  Sim, Lin-Manuel Miranda é um gênio.

tumblr_nx8pe9M8HG1ukhudfo1_500

      O musical narra a Guerra de Independência dos EUA e os seus primeiros governos, porém não só a letra mistura a linguagem contemporânea com a de época para aproximar o expectador dos seus personagens, mas está recheada de referências históricas e musicais.

      A métrica dos versos, as rimas internas, as tiradas brilhantes se entrelaçam com o ritmo intenso do hip hop e R&B. Segundo Miranda, duas coisas o fizeram escolher o hip hop como ritmo predominante: primeiro, porque para ele hip hop é o ritmo que incorpora o conceito de revolução; segundo, porque é também o ritmo com maior número de palavras por segundo, o que permite que o personagem de Hamilton – que escreve e fala sempre como se seu tempo estivesse acabando – possa expressar toda a sua complexidade de ideias e angústias. R&B, Jazz e até mesmo melodias inspiradas na “British Invasion” dos anos 60 se alternam com o hip hop de acordo com o humor dos personagens e da cena.  E sim, absolutamente todas elas ficam na sua cabeça assim que você escuta o álbum pela primeira vez.

tumblr_nx8uqilNkT1ukhudfo1_250

      Apesar de ser um musical com pano de fundo histórico baseado na biografia de Alexander Hamilton escrita por Ron Chernow, Hamilton obviamente não é historicamente preciso, e nem é esse o objetivo de um musical. Incorporando a História dentro da sua arte, Lin-Manuel buscou transmitir mensagens atemporais sobre Política, legados e sobre a própria História.

     Questões sobre a importante participação dos imigrantes (como o próprio Hamilton) na construção da sociedade norte-americana e a seletividade dos beneficiados (leia-se: homens brancos) das primeiras conquistas políticas, por exemplo, são constantemente lembrados ao longo do musical, entrelaçando os problemas políticos da época e contemporâneos.

8b0097b058b21ad21ddbae89d2f375a1

      Para o internacionalista atento, os temas levantados ao longo do musical vão desenhando como a recém-nascida nação via seu papel no sistema internacional. Hamilton e Thomas Jefferson debatem sobre intervencionismo e isolacionismo e os valores presumidos do discurso de política externa estadunidense – como liberdade e democracia – são não apenas recorrentemente lembrados mas também criticados em relação à sua aplicação muitas vezes não passar da retórica.

      O mais interessante talvez seja a originalidade na forma como esses assuntos são abordados. O musical inclui discussões do Cabinete do 1o governo norte-americano em forma de Batalhas de Rap (Cabinet Battle #1 e #2), coreografias que simulam batalhas e duelos ( Yorktown), lições sobre imperialismo e democracia com o hilário Rei George III (You’ll be back, What Comes Next e I know him) – tudo isso incluindo episódios e trechos de obras, cartas e declarações feitas de verdade pelos próprios personagens em suas épocas.

   Em tempos de polarização política, o musical desenvolve uma história de rivalidades sem mocinhos e vilões, mas de seres humanos que se envolvem com ideais e também truques para atingirem os seus objetivos. Ele lembra constantemente à audiência que a História e a Política são e foram tecidas por escolhas e dilemas de cada um dos seus atores.

      Falando em atores, o musical chamou atenção desde o início por seu elenco diversificado que desafia representação tradicional dos personagens brancos, incluindo atores negros, brancos, latinos e de ascendência asiática. Isso é certamente muito incomum na Broadway, que é chamada por muitos críticos de “Great White Way” (a grande via branca). Miranda explica: “Estamos contando a história de homens brancos velhos e mortos, mas usando atores de cor, o que torna a história mais imediata e acessível para a audiência contemporânea”- pessoas brancas não tem o monopólio sobre a História norte-americana – nem ao fazê-la, nem ao contá-la   (apesar da crítica, válida, de que o grande público da Broadway, bem como os personagens históricos, continuam sendo brancos).

The Schuyler Sisters

The Schuyler Sisters

      Bom, se mesmo com a sua inovação musical e discussão racial você ainda está com dificuldades para ver a relevância e a relação de Hamilton com os dias atuais, aqui vai nosso último esforço. Em abril desse ano, o apresentador John Oliver falou sobre a situação econômica precária de Porto Rico, território americano . Com o sucateamento das redes de saúde e educação, entre outros problemas graves, Porto Rico vinha pedindo a aprovação pelo Congresso americano de uma lei que permitiria a reestruturação da sua dívida.

      Lin-Manuel, filho de pais porto-riquenhos, fez um apelo ao Congresso americano para que passassem a lei, e sua preocupação era tanta que chegou a oferecer ingressos para o musical se isso ajudasse, e até ir às casas dos senadores apresentar Hamilton (!). Como convidado de John Oliver, Lin-Manuel faz um rap sobre o problema, pedindo ajuda para Porto Rico, que por sinal é famoso destino de viagem para muitos norte-americanos do continente.

   Quem conta a História?

   “Sim, esse ciclo de eleições está bizarro. Mas não mais bizarro do que as eleições de 1800 [retratadas no musical], quando Jefferson acusou Adams de ser um hermafrodita e Adams respondeu [espalhando rumores] de que Jefferson morreu para ele ser o único candidato viável. Isso de alguma forma me dá esperança” disse Lin-Manuel Miranda.

   Talvez essa já seja uma razão boa o suficiente para olharmos para as lições da história (por que pensar em encarar as bizarrices presentes e futuras dessas eleições não é lá muito animador). Hamilton abre espaço não apenas para discussões de temas ainda delicados e bem abrangentes (como questões raciais e de imigração), mas também para assuntos mais específicos, como o de Porto Rico, para os quais o grande público nem sempre dá muita atenção. Para nós, estrangeiras e estrangeiros, é uma grande chance de aprender um pouco mais sobre a formação de outro país e talvez até achar relações entre as nossas histórias.

     Dito tudo isso, reconhecemos que, ao espírito do personagem de Alexander Hamilton do musical, acabamos falando muito. Pra você que, como nós reles mortais, não tem tempo nem dinheiro para assistir ao musical, os atores publicam toda semana videos nos quais eles se apresentam do lado de fora do teatro para uma multidão que aguarda o sorteio de 2 ingressos para o show. Ou melhor ainda, aqui está o álbum do elenco original completo no Spotify (talvez seja preciso cadastro, mas tem no youtube também) e as letras com tradução.

giphy

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s