12 de setembro: descubra o que os muçulmanos no mundo inteiro estão comemorando apenas um dia após os 15 anos do atentado às Torres Gêmeas

por Thaís Queiroz

Você sabia que os muçulmanos do mundo inteiro estão comemorando algo hoje? Eu também não sabia. E você acha que esta comemoração tem algo a ver com os atentados de 11 de setembro, que fizeram 15 anos ontem, por conta do que você acabou de ler neste título? Eu também acharia. Mas este título é o que se costuma chamar de “desonestidade intelectual”. Uma sacanagem para confundir mentes desinformadas que o sensacionalismo das notícias hoje adora fazer com um objetivo traiçoeiro e só dá mais pano para o toldo do preconceito.

Se formos reler o título, veremos que nenhuma mentira foi contada diretamente. Os muçulmanos do mundo inteiro realmente estão comemorando algo hoje e hoje realmente faz apenas um dia do aniversário de 15 anos do grande atentado da Al-Qaeda aos Estados Unidos em 2001, no dia 11 de setembro. O que acontece, porém, é que estas datas não têm relação comemorativa nenhuma. Simplesmente caíram uma depois da outra desta vez. Mas quem pouco conhece da religião islâmica, ou seja, quase todos nós brasileiros –  já que a maioria do país é católica ou cristã e também pouco se fala nisto ou, quando se fala, se faz afirmações falaciosas – tem todos os motivos para acreditar que há uma conspiração maligna “dessa gente” que corta cabeças e faz atentados na Europa. Porque infelizmente hoje a islamofobia ou o preconceito à religião islâmica e a seus seguidores –  os muçulmanos –  está muitíssimo grande e o que os meios de comunicação em português (ou “ocidentais” em geral, vai) mais vendem para nós são notícias de terroristas islâmicos na Europa. Normalmente relacionadas ao auto intitulado “Estado Islâmico”, grupo terrorista sem precedentes, que é tão absurdo e exagerado que inclusive a Al-Qaeda (sim, a facção terrorista que jogou os aviões contra o World Trade Center em Nova York em 2001) os expulsou por acharem-nos inadequados.

O que os muçulmanos na verdade estão comemorando hoje é o Eid Al-Adha, o décimo dia do mês Dhu Al-Hijjah, conforme o calendário lunar, que representa o dia em que o patriarca Abraão (sim, aquele mesmo da Bíblia, que tu já deves ter ouvido falar na escola ou na missa do domingo), em sinal de seu respeito e submissão a Deus, aceitou sacrificar seu filho. (Você lembra desta história? Que tá lá no Antigo Testamento da Bíblia?). E como os feriados muçulmanos seguem o calendário lunar, não o Gregoriano, que nós usamos, este dia muda todo ano em relação ao “nosso” calendário.

Ou seja, uma coisa não tem relação nenhuma com a outra, mas é muito fácil fazer parecer que tem pra incentivar mais preconceito e instaurar mais terror. Eu só fiquei sabendo que hoje era “Eid Al-Adha” porque vários amigos muçulmanos estavam postando sobre isto em suas páginas do Facebook e eu fui no Google procurar do que se tratava. Porque realmente isso não faz parte do nosso dia-a-dia. Não aprendemos isso na escola nem em outros lugares. Convivemos em nossas comunidades, assistindo nossa televisão de sempre e lendo nossos canais de notícias de sempre e acabamos não tendo acesso a esse tipo de informação ou pessoas diversas de nós. E isso não é totalmente culpa nossa, o sistema assim nos constrange. E isso também não é crítica a ninguém. Eu faço o mesmo. O que é culpa nossa, no entanto, é acreditar em tudo o que lemos, vemos ou ouvimos sem ler de uma segunda, terceira, quarta ou quinta fonte antes e fazermos suposições achando que sabemos de tudo.

E sobre a diversidade, ainda quero fazer mais uma observação: é até possível você tentar me dizer “tá, mas tu vives pelo mundo nessas tuas coisas estranhas e por isso conhece muçulmanos, mas isso não tem nada a ver com Brasil, então não enche o saco”. Mas o fato é que a primeira pessoa que eu vi postar sobre esta comemoração muçulmana foi uma muçulmana que eu conheci no Rio de Janeiro e que é nascida em Rondônia. Aham, brasileirinha, brasileirinha.

Já passou da hora de percebermos que a diversidade vive entre nós e nos despirmos de nossos preconceitos. Pararmos de fazer suposições falsas sobre aquilo que desconhecemos e corrermos atrás de informação e de agregar, em vez de segregar. E pelo amor de Deus (ou de Allah, ou de Javé, ou de qual nome quiseres usar ou de qual força acreditares), deu de desonestidade intelectual na hora de espalhar notícia, né, jornais?!

A todos os meus amigos muçulmanos, termino este texto desejando-lhes um abençoado Eid Al-Adha. Ou melhor: “Eid Mubarak!”

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