O que tem a ver neoliberalismo com depressão? #SetembroAmarelo

por Marina Sertã

Tenho olhado as movimentações em torno do Setembro Amarelo (Setembro Amarelo é o mês da conscientização e prevenção contra o suicídio). E, pra ser muito sincera, tenho me sentido desconfortável com todas elas. E tenho pensado em como contribuir de alguma forma.

Pensei que a melhor forma seria compartilhar um pouco de mim. Faço isso porque acredito que “se faz sentido pra mim, há de fazer pra alguém” ( 😉 ) . Porque eu acredito piamente que falar de mim é falar dos sistemas políticos e econômicos, das regras sociais e costumes culturais e religiosos nos quais eu estou imersa. Porque, sendo assim, falar de mim, é falar de alguma parte de quem quer que esteja lendo isso, e do mundo inteiro.

Há muito tempo eu não tenho estado bem. Eu tenho tido dificuldade pra dormir – deito na cama 22h, 23h, e só consigo dormir lá pra 1h 2h. Todo dia. Acordo com um aperto no peito, um amargo e uma vontade de chorar. E assim eu passo o resto do dia.

A formatura é o grand finale, é o momento de glória a coroar toda a trajetória: o começo assustador e eletrizante, todas as dúvidas e crises do caminho, as aventuras, descobertas e mudanças, e todo o sofrimento e luta contra o último chefão, a monografia.

Mas o que não contam, é que é igualzinho um filme mesmo. Depois do grand finale, rolam os créditos, apagam as luzes, e você está sozinha.

Não que seja a formatura a origem de todos os meus problemas. Eu tenho estado mal há, pelo menos, um ano e meio. A monografia foi traumática e dolorosa. E eu já estive mal assim antes. Até agora, sem novidades.

Os problemas são os mesmos de sempre. Alguém – uma banca, um segundo leitor, um orientador, um professor – vai ler algo que eu escrevi e descobrir meu valor entre a quinta e sexta linha. Eu estou convencida da minha incapacidade de articular os argumentos, eu estou convencida que eles vão ler tudo o que eu escrevi e ter a certeza cabal que encontraram o ser humano mais burro que já pisou nessa terra.

Os problemas são os mesmos de sempre. Medo de mudar de cidade, de perder os referenciais, de não criar raízes, de não fazer amigos. De ficar sozinha. Na tela escura depois que o filme acabou.

E problemas novos: eu acabei a graduação. Era esperado que eu estivesse trabalhando, ganhando o meu dinheiro e me sustentando a essa altura. Mas eu não vejo isso nem no horizonte. Minha maior expectativa é conseguir uma bolsa no mestrado e aliviar um pouco pros meus pais. Eu sei que deveria ser grata que tenho o privilégio de pais que podem me sustentar – e não que dependem de mim – mesmo depois da faculdade, e que não me pressionam em relação a isso. Mas o que eu sinto é culpa. E fracasso.

* * *

Na terça, minha psicóloga me perguntou qual era a real probabilidade disso: de realmente acharem meu projeto uma merda, de terem achado minha monografia uma merda, de me acharem burra e idiota e uma merda inútil e desprezível. De, frente a ter sido uma boa aluna durante a graduação, com professores sempre gostando de mim: qual era a real chance que eles, assim, do nada, passassem a me odiar? Eu respondi que não era um problema de probabilidade, era um problema de possibilidade: existindo a possibilidade de sucesso, também existia a possibilidade de fracasso.

O Vladimir Safatle, o Christian Dunker e o Nelson da Silva Jr.1 fazem esse trabalho de entender como eu – ou você, ou qualquer um nesse sentido – não sou nem um pouco especial por pensar tudo isso, ter esses medos e me sentir assim. E traçam as conexões entre o que chamam de modelos de sofrimento psíquico e modelos socioeconômicos. Eles nos mostram que no final da década de 70, bem quando o neoliberalismo estava começando a bombar como uma política econômica, nas mãos do Reagan e da Thatcher, lançaram a terceira edição do DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Até aí tudo bem, manuais são atualizados todo momento, esse é meio que o propósito deles. Mas essa edição era substancialmente diferente das outras, porque separava a depressão, que antes estava dentro do campo geral das neuroses, e focava muito mais nos aspectos individuais do sofrimento psíquico, ao invés de descrições mais estruturais, mais ligadas com o social, econômico e político ao redor da pessoa sofrendo.2

E isso não é a toa, nem só uma grande coincidência. O neoliberalismo, longe de ser só o conjunto de políticas econômicas que a Thatcher, o Reagan (ou o Pinochet, ou o FHC, ou o nosso atual golpista temerário) implementaram, é uma forma de vida que consiste em estender o pensamento da racionalidade instrumental da economia para todas as áreas da vida da pessoa. É individualizar uma pessoa ao máximo, e retirá-la dos contextos sociais nos quais ela é envolvida e dizer: bom, você fez essa escolha, arque com as consequências. E é nisso que consiste o neoliberalismo pro Foucault: fazer de cada indivíduo uma empresa, que investe em si mesma, que assume riscos, colhe os lucros e arca com prejuízos – e que é única e inteiramente responsável por tudo: vitórias e fracassos. 3

E são estas vitórias e fracassos que definem a pessoa. Por isso eu morro de medo de entregar um projeto merda pra banca de admissão do mestrado; por isso eu morria de medo de entregar um monografia merda pro meu orientador: porque eu sou essas coisas, porque essas coisas me definem, e, se elas forem uma merda, é porque eu sou uma merda, também.4

O Pierre Dardot e o Christian Laval5 argumentam, aliás, que o sintoma depressivo é a negativa da norma neoliberal. Que os sujeitos que ‘não aguentam’ a competição são taxados de perdedores. É nesse momento que, mesmo que eu não tenha depressão, o Dardot e o Laval e o Safatle me ajudam a entender meu medo: porque ‘patológico’ e ‘normal’, porque ‘medo’ e ‘esperança’, só são dois lados da moeda da nossa vida democrática-liberal. Porque a partir do momento em que eu tiro 10, sou elogiada e bem-falada no departamento, é possível que eu tire uma nota muito merda e que todos os meus professores, as pessoas geniais a quem eu passei a adorar e ter como modelos, pensem que eu sou uma merda e me odeiem.

* * *

Há umas quatro/cinco semanas, eu voltei pra terapia.

Nada se consertou magicamente. Eu ainda estou tendo dificuldade pra dormir, ainda estou acordando com um aperto no peito, um amargo e uma vontade de chorar. Mas, devagar, eu estou “melhorando”.

Semana passada, depois de passar a sexta-feira inteira lendo única e exclusivamente coisas que eu amo, no sábado, eu acordei bem. Na terça, eu tive um dia excepcionalmente bom: eu fui à psicóloga, acabei almoçando com uma amiga e conversando sobre a monografia dela, conversei um pouco com meu orientador, li textos muito legais, descobri uma aula que eu posso ser ouvinte que pode me ajudar pra prova do mestrado e jantei com uma pessoa maravilhosa.

No meio disso, os meus óculos caíram no vaso. E, mesmo assim, foi um dia extraordinariamente excepcionalmente bom.

Eu ainda não estou bem. A maioria dos meus dias não é assim. Na maioria dos meus dias tem um elefante sentado do meu peito, meu coração está apertado, eu tenho uma vontade constante de chorar e dificuldade pra respirar antes de dormir. Eu ainda tenho um medo paralisante da banca de seleção para o mestrado. Eu ainda tenho medo de ficar sozinha em uma cidade estranha, grande e a pelo menos 7 horas de tudo que eu conheço. Eu ainda não tenho prospectos de independência financeira.

Eu tenho medo. Eu estou aplicando pra um mestrado em psicologia, uma disciplina da qual eu não sei absolutamente nada. Eu tenho medo de não passar. Eu, mesmo passando, tenho medo de não acompanhar, eu tenho medo de cair nos mesmos padrões de deixar o medo do fracasso e das pessoas me odiarem e me acharem uma merda me consumirem.

Mas, aos poucos, eu estou lidando com o que me aflige. E, aos poucos, os dias bons vão substituindo os ruins. Eu reajo ao que me paralisa, me cerco de pessoas que me fazem bem. E vou acreditando que vai melhorar.


  1. Eu aconselho fortemente a acompanhar o trabalho deles no latesfip, que é o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Eles colocam os textos deles no blog e compartilham os vídeos das palestras no facebook!
  2. Esse é o argumento do Safatle, em uma das palestras do latesfip, mais especificamente a do dia 16 de abril desse ano. Dá uma olhada, porque é sensacional: https://youtu.be/DyV3upSkOZo.
  3. Esse é o argumento do FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica: Curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
  4. O Safatle, a Vrasti e o Rose falam desse momento de transição, calcado nos movimentos de 1968, do trabalho como algo que você faz pra ganhar dinheiro pro que te define enquanto indivíduo, a atividade pela qual você move suas paixões. É bom dar uma olhada em:

5. Sério, o livro deles é sensacional: DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. The New Way of the World: On Neoliberal Society. Londres: Verso, 2013.

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