Ni Una Menos: a inclusão de todas as mulheres na Lei do Feminicídio

   por Julia Zordan

      Está marcada para hoje, às 18:00, uma paralização e passeata de mulheres pela cidade do Rio de Janeiro e por várias cidades da América Latina. Na última quarta-feira, dia 19, Argentina, México e Chile já haviam feito o mesmo. A razão? Lucía Perez. 16 anos. Drogada, violentada e morta no início deste mês. Cerca de 50 organizações convocaram o que foi visto como uma espécie de “greve de mulheres” nestes países [1], justamente para que este não se tornasse apenas mais um feminicídio, mais uma estatística. O movimento da semana passada, que ficou conhecido como “Miercoles Negro” (quarta-feira negra – tradução livre), recebeu apoio de mulheres ao redor de todo o mundo, tendo chegado ao topo da lista de tópicos mais comentados no mundo do Twitter ao longo da tarde, por meio da hashtag #NiUnaMenos.

          O crime do qual Lucía foi vítima se encaixa no escopo do chamado “feminicídio” – ou seja, o assassinato de uma mulher motivado pelo fato de ela ser uma mulher, motivado por uma questão de gênero, como um parceiro inconformado com o fim do relacionamento, sentimento de posse, dentre outros [2]. Este vídeo aqui complementa a caracterização deste tipo de crime.

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12 de setembro: descubra o que os muçulmanos no mundo inteiro estão comemorando apenas um dia após os 15 anos do atentado às Torres Gêmeas

por Thaís Queiroz

Você sabia que os muçulmanos do mundo inteiro estão comemorando algo hoje? Eu também não sabia. E você acha que esta comemoração tem algo a ver com os atentados de 11 de setembro, que fizeram 15 anos ontem, por conta do que você acabou de ler neste título? Eu também acharia. Mas este título é o que se costuma chamar de “desonestidade intelectual”. Uma sacanagem para confundir mentes desinformadas que o sensacionalismo das notícias hoje adora fazer com um objetivo traiçoeiro e só dá mais pano para o toldo do preconceito.

Se formos reler o título, veremos que nenhuma mentira foi contada diretamente. Os muçulmanos do mundo inteiro realmente estão comemorando algo hoje e hoje realmente faz apenas um dia do aniversário de 15 anos Continuar lendo

O problema afeta todos nós – relatos da Palestina

por Thaís Queiroz

[Este texto foi publicado originalmente no dia 1º de março pela própria autora em sua rede social. Ela retornou da Palestina no final do mês de fevereiro de 2016]

“Hoje li esta notícia: Dois soldados israelenses se perderam usando o Waze (aplicativo que indica os melhores caminhos para chegar ao destino desejado) e acabaram entrando em um campo de refugiados perto de um dos piores e mais chatos check-points de Israel (pelo qual passei diversas vezes), Qalandia, e, quando estavam no campo, os palestinos jogaram coquetéis molotov no carro. Os dois soldados fugiram e se esconderam no campo e, para resgatá-los, uma operação militar Israelense foi acionada. Em decorrência, um palestino, estudante universitário, de 22 anos foi morto, 4 foram feridos com tiros, 12 outros foram feridos com balas de borracha e efeitos do gás lacrimogêneo e 10 soldados israelenses foram feridos, um mais gravemente e nove já liberados do atendimento hospitalar. A operação aconteceu entre as 22h e as duas e meia da manhã de hoje.

Sei que a primeira reação de alguns ao ler esta notícia seria “que horror estes terroristas jogando coquetéis molotov no carro dos soldados”. E olha o que tudo isso causou.

E compreendo esta reação: isto é o que conseguimos enxergar em nossos meios de comunicação. Os sites de internet, as notícias acessíveis a nós são estas: são pessoas que se explodem para matar outras pessoas, são pessoas que esfaqueiam outras pessoas. E tudo isso é real. Tudo isto não é inventado ou aumentado. Estas ações existem.

O que não temos, no entanto, é um “background” do que acontece “no outro lado”.  Estas notícias não chegam. Não que matar alguém seja certo quando temos uma justificativa. Nada justifica. Mas é preciso tentar entender os motivos para poder diagnosticar corretamente os sintomas.

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O que descobri sobre o significado de possuir dois passaportes.

por Thaís Queiroz

Devo dizer que não são tão poucas as pessoas que conheço por aqui que têm dois passaportes: normalmente o seu brasileiro e um outro que geralmente é europeu, seja ele português, alemão, francês, italiano etc. Isto acontece porque estas pessoas têm o que chamamos de dupla nacionalidade, ou seja, às vezes um dos pais tem outra nacionalidade ou a criança nasceu em outro país… São muitos os casos. E no fim das contas, pelo que até hoje percebi, ter um passaporte europeu é muito legal. Eu mesma já desejei em algum momento da minha vida ter mais um passaporte. Ia facilitar tanta coisa que quero fazer…

Entretanto, o que eu nunca havia percebido, até três semanas atrás, quando vim aqui para o outro lado do mundo, é que existem situações em que dois passaportes podem ter um significado completamente desalinhado do que o que eu estava acostumada. Esta descoberta foi feita em uma conversa com um amigo palestino.  Eu conheci este meu amigo em Continuar lendo

Disputa Marítima entre Israel e Líbano e o contingente brasileiro nessa fronteira

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

           O Oriente Médio é uma região muito complexa, acho que podemos concordar com isso. Uma vez ouvi uma professora, especialista na região, dizendo que se você acha o Oriente Médio confuso, então você está no caminho certo. Algumas das suas questões datam de milênios e algo novo acontece toda semana, tornando-as mais complexas. Meu objetivo neste post é adicionar mais um fator complicador: a disputa entre o Estado Israel e a República Libanesa pela delimitação da fronteira marítima entre os dois países e, por conseguinte, da extensão da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de cada um. Diferentemente da análise que eu fiz no ano passado sobre as disputas no Mar do Sul da China à luz do Direito Internacional Marítimo, aqui não pretendo tentar achar nem uma resposta ou solução para tal conflito nem dizer quem está certo ou errado, não sou pretencioso de achar que tenho tais respostas. Assim, pretendo apenas informar sobre a existência de mais um conflito no Oriente Médio. Mas, por que esse especificamente? Primeiro porque me interesso por disputas marítimas. E segundo porque 200 militares brasileiros estão nessa fronteira integrando a Força Tarefa Marítima (FTM) da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL, do inglês United Nations Interim Force in Lebanon). Portanto, qualquer beligerância na região, principalmente no mar, deveria ser do nosso interesse e ter nossa redobrada atenção. Continuar lendo

A gente pensa na guerra, a gente esquece da grana

por Thaís Queiroz

Guerra. Guerra mata. Guerra causa sofrimento. Muito sofrimento. Temos horror à guerra. Terrorismo, medo, violência, tortura, mortes. Já havia horrores nas “antigas” guerras, aquelas que estudamos na escola, por conquista de territórios, que faziam “aquela gente que não tem nada a ver com a história” sofrer. Ou seja, os “civis”, aqueles que não eram os soldados. Mas as guerras hoje, como estudamos e questionamos nas Relações Internacionais,  não mobilizam mais exércitos nacionais da mesma maneira que antigamente e nem tão pouco concentram o número de mortos entre aqueles que se dispuseram a pegar em armas e ir para o campo de batalha. Hoje, quem mais sofre com a guerra são pessoas que “não têm nada a ver” com isso. Continuar lendo

Por que as tragédias importam?

por Marina Sertã

Essa semana são os 126 em Paris, os mais tantos em Mariana, outros em Beirute, mais no Japão. Meses atrás foi o Aylaam. No começo do ano foram os cartunistas da Charlie Hebdo. Antes disso, eu não me lembro. Mas tiveram mais nomes, e números, e lugares, e dores. Todas sentidas, choradas, lamentadas. Porque

“No man is an island,entire of itself;
every man is a piece of the continent,
a part of the main.
(…)
any man’s death diminishes me,
because I am involved in mankind,
and therefore never send to know for whom the bell tolls;
it tolls for thee.”

“Ninguém é uma ilha,
completamente separada;
cada pedaço pertence ao continente,
é parte de um todo.
(…)
toda morte me abate,
pois sou parte da humanidade,
assim não pergunte por quem os sinos tocam;
eles tocam por mim.” (tradução livre)
John Donne

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Olhando o passado para compreender o presente.

por Mônica Aguiar.

          Quando eu tinha 9 anos fiquei muito impressionada com uma fotografia que correu o mundo e eventualmente ganhou o prêmio Pulitzer. Tratava-se de uma menina vietnamita de minha idade, correndo nua por uma estrada e com o rosto deformado pelo choro e pelo medo. Por mais que eu tentasse, não conseguia entender as complexidades da Guerra do Vietnã e atribuía essa dificuldade ao fato de ter chegado tarde à História e ter perdido os “capítulos anteriores”. Acreditava que ao me tornar adulta e acompanhar desde o início o desenrolar de um acontecimento seria mais fácil entender as guerras ao meu redor. Os anos se passaram, mas essa sensação de estranhamento nunca me abandonou por completo. Terminei por me dar conta de que os acontecimentos políticos que vemos por aí respondem a dinâmicas cujas origens são mais distantes do que uma geração humana.

          Outro dia, ao assistir a XII Conferência de Segurança Internacional promovida pela Fundação Konrad Adenauer, tive a oportunidade de ouvir o palestrante russo manifestar-se sobre a atuação de seu país na Criméia e na Síria. Verdade seja dita, ele esquivou-se o máximo possível do assunto sob o pretexto de que o Ocidente não compreendia a perspectiva russa. Dentro do espírito do meu parágrafo anterior, resolvi refletir sobre aquela afirmação e buscar no passado as motivações para as decisões tomadas por Moscou no campo das Relações Internacionais. Continuar lendo

Em busca das relíquias perdidas

por Clarissa Reis Guimarães.

Após o texto extremamente bem escrito do Franco, não pude deixar de aproveitar o gancho para falar do meu objeto de pesquisa e da minha paixão de infância: antiguidades e obras de arte. Sou daquelas que adora um museu e me esbaldo quando viajo para algum lugar e posso ter o contato com todo aquele clima de sabedoria, de reverência e opulência relacionada ao passado.

O único problema, que aprendi com a pesquisa, é que nesse mundo, nem tudo é o que parece.

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