Ni Una Menos: a inclusão de todas as mulheres na Lei do Feminicídio

   por Julia Zordan

      Está marcada para hoje, às 18:00, uma paralização e passeata de mulheres pela cidade do Rio de Janeiro e por várias cidades da América Latina. Na última quarta-feira, dia 19, Argentina, México e Chile já haviam feito o mesmo. A razão? Lucía Perez. 16 anos. Drogada, violentada e morta no início deste mês. Cerca de 50 organizações convocaram o que foi visto como uma espécie de “greve de mulheres” nestes países [1], justamente para que este não se tornasse apenas mais um feminicídio, mais uma estatística. O movimento da semana passada, que ficou conhecido como “Miercoles Negro” (quarta-feira negra – tradução livre), recebeu apoio de mulheres ao redor de todo o mundo, tendo chegado ao topo da lista de tópicos mais comentados no mundo do Twitter ao longo da tarde, por meio da hashtag #NiUnaMenos.

          O crime do qual Lucía foi vítima se encaixa no escopo do chamado “feminicídio” – ou seja, o assassinato de uma mulher motivado pelo fato de ela ser uma mulher, motivado por uma questão de gênero, como um parceiro inconformado com o fim do relacionamento, sentimento de posse, dentre outros [2]. Este vídeo aqui complementa a caracterização deste tipo de crime.

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O problema afeta todos nós – relatos da Palestina

por Thaís Queiroz

[Este texto foi publicado originalmente no dia 1º de março pela própria autora em sua rede social. Ela retornou da Palestina no final do mês de fevereiro de 2016]

“Hoje li esta notícia: Dois soldados israelenses se perderam usando o Waze (aplicativo que indica os melhores caminhos para chegar ao destino desejado) e acabaram entrando em um campo de refugiados perto de um dos piores e mais chatos check-points de Israel (pelo qual passei diversas vezes), Qalandia, e, quando estavam no campo, os palestinos jogaram coquetéis molotov no carro. Os dois soldados fugiram e se esconderam no campo e, para resgatá-los, uma operação militar Israelense foi acionada. Em decorrência, um palestino, estudante universitário, de 22 anos foi morto, 4 foram feridos com tiros, 12 outros foram feridos com balas de borracha e efeitos do gás lacrimogêneo e 10 soldados israelenses foram feridos, um mais gravemente e nove já liberados do atendimento hospitalar. A operação aconteceu entre as 22h e as duas e meia da manhã de hoje.

Sei que a primeira reação de alguns ao ler esta notícia seria “que horror estes terroristas jogando coquetéis molotov no carro dos soldados”. E olha o que tudo isso causou.

E compreendo esta reação: isto é o que conseguimos enxergar em nossos meios de comunicação. Os sites de internet, as notícias acessíveis a nós são estas: são pessoas que se explodem para matar outras pessoas, são pessoas que esfaqueiam outras pessoas. E tudo isso é real. Tudo isto não é inventado ou aumentado. Estas ações existem.

O que não temos, no entanto, é um “background” do que acontece “no outro lado”.  Estas notícias não chegam. Não que matar alguém seja certo quando temos uma justificativa. Nada justifica. Mas é preciso tentar entender os motivos para poder diagnosticar corretamente os sintomas.

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FUROR INDICA: As Sufragistas

por Louise Marie Hurel.

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From every corner of the land womankind arise!

Political equality and equal rights with men

Take heart for Mrs. Pankhurst has been clapped in irons again

No more the meek and mild subservience we

We’re fighting for our rights militantly

Never you fear!

(Tradução livre)

De todos os cantos da terra, mulheres ergam-se!

Igualdade política e direitos iguais aos dos homens

Tenham bom ânimo, a Senhora Pankhurst foi aprisionada novamente

Sem mais mansidão e subserviência nós

Nós estamos lutando pelos nossos direitos através da militância

Jamais tema!

Sister Suffragette – Mary Poppins

O filme “As Sufragistas”  se passa em Londres, no início do século XX. Entre a ficção e a realidade, o filme conta a história de um grupo de mulheres (Maud, Violet e Edith) que, devido   aos diferentes rumos da vida, se encontram na luta pelo direito ao voto. Com personalidades e experiências diferentes, suas histórias representam um pouco de cada uma das mulheres que militaram pelo sufrágio feminino.

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Músicas de 2015 ( que todo internacionalista deveria ouvir)

por Franco Alencastro.

Ora, olá. Você deve ter vindo aqui da primeira parte do post, sobre filmes. Bom, vamos cortar a introdução e ir direto para as Melhores Músicas do Ano (Que Todo Internacionalista Digno do Nome Deveria Ouvir):

 

King Kunta, de Kendrick Lamar

Em Março, o rapper americano Kendrick Lamar lançou a obra-prima To Pimp A Butterfly, um álbum-conceitual sobre a situação do negro nos EUA atuais, discutindo questões como o racismo ainda presente na cultura, a violência policial, a auto-estima do negro em uma cultura em que o branco ainda é o padrão de beleza. O álbum se tornou ainda mais relevante com a explosão, esse ano, de manifestações contra o racismo e a brutalidade policial. Para falar desses temas Kendrick costurou, junto com suas letras ácidas e abertamente políticas, um coquetel do melhor da música negra dos últimos 100 anos: Jazz, Rock, Funk, Soul… King Kunta é provavelmente a melhor música do álbum. Confira:


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Filmes de 2015 (que todo internacionalista deveria ver)

por Franco Alencastro.

Chegamos à mais um fim de ano, e nós, internacionalistas e leitores de O Furor, não podemos deixar de olhar para trás e pensar em como ele foi movimentado – muitas vezes, para mal, algumas vezes para o bem. O coração da Europa foi atingido por um ataque sanguinário, os tanques do Estado Islâmico rugem no Oriente Médio e o mundo chega cada dia mais perto de um conflito que, cochicham por aí, pode se tornar mundial. No Ocidente desenvolvido, os populismo de extrema-direita troveja suas acusações diárias contra os inimigos da vez, e no Brasil convivemos com uma crise econômica e política (quase) sem precedentes, em meio as repercussões do pior crime ambiental da história nacional.

Foi também um ano de esperança: as nações do mundo votaram por um novo e ambicioso pacote de metas de desenvolvimento para 2030, que incluem os grandes objetivos de sustentabilidade sem os quais provavelmente não teremos um planeta para nos desenvolver; e, em Paris, os líderes mundiais finalmente chegaram num consenso quanto à mudança climática. Só por isso, podemos dizer que 20125 entrou para a história.

Assim, a tradicional lista de melhores músicas e filmes que encontramos na maioria dos blogs por aí não podia deixar de dar as caras n’O Furor, mas com um twist: decidi escolher não só as melhores obras, mas as que melhor representaram as questões em jogo no mundo hoje!

Os melhores filmes do ano (sem um ranking específico):
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Por que as tragédias importam?

por Marina Sertã

Essa semana são os 126 em Paris, os mais tantos em Mariana, outros em Beirute, mais no Japão. Meses atrás foi o Aylaam. No começo do ano foram os cartunistas da Charlie Hebdo. Antes disso, eu não me lembro. Mas tiveram mais nomes, e números, e lugares, e dores. Todas sentidas, choradas, lamentadas. Porque

“No man is an island,entire of itself;
every man is a piece of the continent,
a part of the main.
(…)
any man’s death diminishes me,
because I am involved in mankind,
and therefore never send to know for whom the bell tolls;
it tolls for thee.”

“Ninguém é uma ilha,
completamente separada;
cada pedaço pertence ao continente,
é parte de um todo.
(…)
toda morte me abate,
pois sou parte da humanidade,
assim não pergunte por quem os sinos tocam;
eles tocam por mim.” (tradução livre)
John Donne

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Rupturas do Silêncio — Agonia, Relações, Empatia

por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama.

Because if it’s not Love
Then it’s the bomb, the bomb, the bomb
The bomb, the bomb, the bomb, the bomb
That will bring us together

Porque se não for o Amor
Então será a bomba, a bomba, a bomba
A bomba, a bomba, a bomba, a bomba,
Que nos unirá (tradução livre).

Smiths, “Ask” [1].

Era quinta-feira. Começo de um novo semestre em Belo Horizonte. Depois do café apressado, meu pai nos levou ao colégio. 6ª série do ensino fundamental. A subida da Praça da Liberdade, o motor a álcool esquentando e a curiosidade da aula de história. Estava quase acabando o Perestroika de Mikhail Gorbatchev. Ganhei no aniversário de 10 anos. O Muro de Berlim já tinha caído e novas ideias eram praticadas na União Soviética. Na TV os jornalistas e o Presidente Collor falavam em terceira guerra mundial. Racionamento de combustível veio junto com uma aliança contra o inimigo da paz: Saddam Hussein.

Da janela do carro, já fora de linha, no sinal de trânsito vejo um menino. Ele segura um jornal do dia 14 de Fevereiro de 1991. Sinal fechado. “Coalizão liderada pelos EUA bombardeia abrigo no Iraque”. Num piscar de olhos, éramos muitos. A bordo, os quatro meninos indo para a escola. Na rua, o menino do jornal. Na mão, crianças mortas. Travados pelas circunstâncias, separados por muros imaginários e tetos de vidro, não nos víamos. Era confortável desconhecer. O mundo era uma folha em branco e nossa imaginação, rascunhos. Naquele instante passamos a existir em concretudes incômodas, uns para os outros. O olhar que escorre para fora da página.

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Por que o de cima sobe e o de baixo desce?

Por Felipe Teixeira

“Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece,
E que o de cima sobe e o de baixo desce”

Tendo em mente as sábias palavras em “Xibom Bombom” do grupo de axé music “As Meninas”, você já se perguntou o que provoca essa dinâmica?

Em épocas de arrastões e crises de migração, vale trazer a tona conceitos que complexifiquem os debates. Para aprofundar os argumentos essa postagem busca esclarecer uma variável relevante presente principalmente em países em desenvolvimento e emergentes. Quando iniciando um discurso é necessário perceber que quando uma grande parcela populacional resolve se converter a criminalidade ou a escapar de seu lugar de origem, o problema está em todo o sistema. Continuar lendo