O que tem a ver neoliberalismo com depressão? #SetembroAmarelo

por Marina Sertã

Tenho olhado as movimentações em torno do Setembro Amarelo (Setembro Amarelo é o mês da conscientização e prevenção contra o suicídio). E, pra ser muito sincera, tenho me sentido desconfortável com todas elas. E tenho pensado em como contribuir de alguma forma.

Pensei que a melhor forma seria compartilhar um pouco de mim. Faço isso porque acredito que “se faz sentido pra mim, há de fazer pra alguém” ( 😉 ) . Porque eu acredito piamente que falar de mim é falar dos sistemas políticos e econômicos, das regras sociais e costumes culturais e religiosos nos quais eu estou imersa. Porque, sendo assim, falar de mim, é falar de alguma parte de quem quer que esteja lendo isso, e do mundo inteiro.

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O problema afeta todos nós – relatos da Palestina

por Thaís Queiroz

[Este texto foi publicado originalmente no dia 1º de março pela própria autora em sua rede social. Ela retornou da Palestina no final do mês de fevereiro de 2016]

“Hoje li esta notícia: Dois soldados israelenses se perderam usando o Waze (aplicativo que indica os melhores caminhos para chegar ao destino desejado) e acabaram entrando em um campo de refugiados perto de um dos piores e mais chatos check-points de Israel (pelo qual passei diversas vezes), Qalandia, e, quando estavam no campo, os palestinos jogaram coquetéis molotov no carro. Os dois soldados fugiram e se esconderam no campo e, para resgatá-los, uma operação militar Israelense foi acionada. Em decorrência, um palestino, estudante universitário, de 22 anos foi morto, 4 foram feridos com tiros, 12 outros foram feridos com balas de borracha e efeitos do gás lacrimogêneo e 10 soldados israelenses foram feridos, um mais gravemente e nove já liberados do atendimento hospitalar. A operação aconteceu entre as 22h e as duas e meia da manhã de hoje.

Sei que a primeira reação de alguns ao ler esta notícia seria “que horror estes terroristas jogando coquetéis molotov no carro dos soldados”. E olha o que tudo isso causou.

E compreendo esta reação: isto é o que conseguimos enxergar em nossos meios de comunicação. Os sites de internet, as notícias acessíveis a nós são estas: são pessoas que se explodem para matar outras pessoas, são pessoas que esfaqueiam outras pessoas. E tudo isso é real. Tudo isto não é inventado ou aumentado. Estas ações existem.

O que não temos, no entanto, é um “background” do que acontece “no outro lado”.  Estas notícias não chegam. Não que matar alguém seja certo quando temos uma justificativa. Nada justifica. Mas é preciso tentar entender os motivos para poder diagnosticar corretamente os sintomas.

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Vida após a monografia ou O Limbo do graduado internacionalista

por Carol Grinsztajn

Essa história é verdadeira. Aconteceu com um amigo de um amigo meu. Ele passou toda a graduação em Relações Internacionais focado na área de pesquisa. Formado, ele pensou que o mais difícil da sua entrada no mundo acadêmico havia passado: sua monografia. Mal sabia ele que a etapa mais difícil não era escrever e sim publicar. Continuar lendo

O começo do fim – o meu

por Marina Sertã

Eu sempre vivi em preparação, em expectativa. Estudar pra passar em uma boa faculdade. Estudar pra conseguir um bom emprego. Me preparar para algo grande à frente. Sempre. Esse se tornou meio que meu modus operandi.

Viver em preparação é uma situação estranha de provisoriedade. De nunca habitar o presente. Só o futuro. Sempre o futuro. De nunca estar, só estar se preparando para. Sempre. Ele traz uma incompletude infinita, uma promessa sempre adiada do amanhã. Grande. Indefinito. Amanhã.

Acho que esse sentimento é um dos motivos pelo qual eu demorei a começar a fincar raízes no Rio, pelo qual eu encarava minha estadia aqui como parte da minha provisória preparação para o grande futuro à frente.

Mas, com o fim da graduação se aproximando, decisões sobre o futuro – o grande e brilhante futuro – sendo feitas e vividas, uma mistura de paz e agonia se instalam no meu coração.

O fim ainda é assustador. Grande. Incerto. Instável. Sozinho.

Mas, a medida em que as minhas escolhas sobre o grande, incerto e assustador vão sendo continuidade da minha vida que já começou há quatro anos, o peso da mudança vai aliviando. A incerteza quase que diluindo. Começa a se instalar de mansinho uma paz que diz que a minha vida já foi começando. Pouquinho por pouquinho. Sem eu sequer perceber. E o meu coração vai se acalmando ao perceber que as mudanças não vão ser tanto as de fora, da chegada de um futuro furacão, mas de dentro, da responsabilidade de perceber que essa é a minha vida. Ela já começou. Eu só tenho que começar a viver.

Carreiras e RI: O que diabos eu estou fazendo com a minha vida?

por Felipe Teixeira

Se você estuda Relações Internacionais provavelmente já se deparou com a seguinte pergunta: “O que diabos eu estou fazendo com a minha vida?”

Todo mundo sabe que RI é um curso muito abrangente, onde aprendemos um pouco de tudo mas muito raramente as aplicações práticas daquilo que estamos estudando. Se você já tem um objetivo em mente ou quer estudar suas opções, essa postagem pode servir como um guia para você se preparar.

Primeiro apresentarei algumas das carreiras possíveis para o graduando em RI, depois citando opções de carreira e algumas alternativas em como preparar seu currículo para tentar a vaga. Temos muitos formandos em RI em um mercado relativamente limitado tanto em questão de vagas quanto em geografia. Enquanto o mercado se abre vagarosamente para o profissional da área as vagas para Relações Internacionais ainda se concentram no eixo dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal.

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Definindo as Relações Internacionais

por Franco Alencastro.

“Relações Internacionais? Que interessante. E o que você faz?”

Quem, no nosso campo, nunca teve que encarar essa pergunta? A reação instintiva geralmente é querer se encolher, pigarrear e pedir pra passarem a farofa (olha, eu to só supondo que a conversa se passa no Natal). E, num segundo momento, pensar muito – problematizar, afinal, está no coração nada-essencializado de nossa disciplina. E tenta-se chegar a uma resposta, o que às vezes leva à fria conclusão de que não temos idéia, mais do que a maioria das pessoas, sobre o que, afinal, somos supostos fazer.

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O que resta (?)

por Marina Sertã

Existem livros que nos inspiram, nos alimentam de alguma forma, nos dão páginas e páginas para falar sobre um tema. Outros livros nos libertam, nos livram de dizer coisas que nos sentíamos obrigados. Essa é a minha relação com o livro International Peacebuilding and Local Resistance: Hybrid Forms of Peace, do Roger Mac Ginty. Esse livro me livrou de escrever uma monografia sobre imposição do Estado moderno na África e suas reverberações na prática do statebuilding e, consequentemente, na dinâmica dos conflitos atuais no continente, mais especificamente na Somália. Foi um processo no qual muito da narrativa que eu vinha contando a mim mesma durante a graduação sobre a minha futura carreira como humanitária vinha perdendo o sentido. Isso acabou me deixando num lugar atordoante de não ter onde me sustentar, mas que foi necessário para que eu sentisse o peso da responsabilidade (ou seria obrigação?) levantar, e alçasse vôo (falling and flying, right?). Uma das formas pelas quais eu trabalhei essa simultaneidade de perda e descoberta de possibilidade – na minha pesquisa e na minha vida, que agora já são uma – foi uma forma de escrita que eu ainda não sei muito bem o nome, mas onde eu venho me encontrando. Gostaria de compartilhar esse momento com vocês na esperança de inspirar alguém a voar na escrita, seja no conteúdo ou na forma.

O que resta

Saber o que escrever, não saber o que escrever, “será que as pessoas se importam?” e política internacional

por Thaís Queiroz

Ufa! Que título grande. Mas é isso aí: temos um blog sobre Relações Internacionais, cada um escreve em um dia, chegou sua vez de novo. Sobre o que escrever?

Semana passada o período ensandecido de provas terminou e com isso o cérebro pôde descansar e voltar a pensar de maneira mais arejada. Com os ventos que sopram do sul (mesmo aqui não sendo Florianópolis – risos), refleti um pouco sobre “o que estou fazendo da vida”, o que consequentemente me levou a pensar “o que estou fazendo da vida com essa tal de RI”.

“AI SOCORRO!! O MUNDO TEM PROBLEMA DEMAIS, AS PESSOAS SE MATAM, TODO MUNDO SE ODEIA, CADÊ O AMOR?! SOCORRO, NÃO QUERO MAIS! PARA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER, POR FAVOR!” – Foi mais ou menos isso que o meu cérebro gritou Continuar lendo