O problema afeta todos nós – relatos da Palestina

por Thaís Queiroz

[Este texto foi publicado originalmente no dia 1º de março pela própria autora em sua rede social. Ela retornou da Palestina no final do mês de fevereiro de 2016]

“Hoje li esta notícia: Dois soldados israelenses se perderam usando o Waze (aplicativo que indica os melhores caminhos para chegar ao destino desejado) e acabaram entrando em um campo de refugiados perto de um dos piores e mais chatos check-points de Israel (pelo qual passei diversas vezes), Qalandia, e, quando estavam no campo, os palestinos jogaram coquetéis molotov no carro. Os dois soldados fugiram e se esconderam no campo e, para resgatá-los, uma operação militar Israelense foi acionada. Em decorrência, um palestino, estudante universitário, de 22 anos foi morto, 4 foram feridos com tiros, 12 outros foram feridos com balas de borracha e efeitos do gás lacrimogêneo e 10 soldados israelenses foram feridos, um mais gravemente e nove já liberados do atendimento hospitalar. A operação aconteceu entre as 22h e as duas e meia da manhã de hoje.

Sei que a primeira reação de alguns ao ler esta notícia seria “que horror estes terroristas jogando coquetéis molotov no carro dos soldados”. E olha o que tudo isso causou.

E compreendo esta reação: isto é o que conseguimos enxergar em nossos meios de comunicação. Os sites de internet, as notícias acessíveis a nós são estas: são pessoas que se explodem para matar outras pessoas, são pessoas que esfaqueiam outras pessoas. E tudo isso é real. Tudo isto não é inventado ou aumentado. Estas ações existem.

O que não temos, no entanto, é um “background” do que acontece “no outro lado”.  Estas notícias não chegam. Não que matar alguém seja certo quando temos uma justificativa. Nada justifica. Mas é preciso tentar entender os motivos para poder diagnosticar corretamente os sintomas.

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Disputa Marítima entre Israel e Líbano e o contingente brasileiro nessa fronteira

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

           O Oriente Médio é uma região muito complexa, acho que podemos concordar com isso. Uma vez ouvi uma professora, especialista na região, dizendo que se você acha o Oriente Médio confuso, então você está no caminho certo. Algumas das suas questões datam de milênios e algo novo acontece toda semana, tornando-as mais complexas. Meu objetivo neste post é adicionar mais um fator complicador: a disputa entre o Estado Israel e a República Libanesa pela delimitação da fronteira marítima entre os dois países e, por conseguinte, da extensão da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de cada um. Diferentemente da análise que eu fiz no ano passado sobre as disputas no Mar do Sul da China à luz do Direito Internacional Marítimo, aqui não pretendo tentar achar nem uma resposta ou solução para tal conflito nem dizer quem está certo ou errado, não sou pretencioso de achar que tenho tais respostas. Assim, pretendo apenas informar sobre a existência de mais um conflito no Oriente Médio. Mas, por que esse especificamente? Primeiro porque me interesso por disputas marítimas. E segundo porque 200 militares brasileiros estão nessa fronteira integrando a Força Tarefa Marítima (FTM) da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL, do inglês United Nations Interim Force in Lebanon). Portanto, qualquer beligerância na região, principalmente no mar, deveria ser do nosso interesse e ter nossa redobrada atenção. Continuar lendo

Como viajei da China ao Brasil em 30 segundos

por Julia Zordan

Por 35 anos a China viveu uma política governamental segundo a qual os casais não poderiam ter mais do que um único filho. Até a semana passada, quando essa política caiu e foi permitido às famílias ter até dois filhos. Como explica Duda Teixeira[1],

A Lei de População e Planejamento Familiar, que deve ser extinta em breve, afirma que:

‘O país determina estar em efeito a política do nascimento, que encoraja o cidadão a casar-se e, em um momento posterior, a ter filhos. Recomenda-se que marido e mulher tenham somente uma criança’

A norma estipula que os pais de filhos únicos podem requerer um ‘certificado de honra para pais de filhos únicos’. Com o documento em mãos, eles passam a ter direito a vários benefícios estatais, como assistência médica e um seguro para a idade avançada.

 Esse controle populacional por parte do governo chinês não é arbitrário: é uma forma utilizada pelo governo de controlar o tamanho de sua população e, assim, controlar várias outras áreas que lhe dizem respeito, como políticas econômicas, educacionais, sociais, previdenciárias[2], etc. Assim, conforme a pirâmide populacional chinesa vai sendo alterada com o tempo, o governo chinês decidiu permitir que os casais pudessem ter, se assim desejassem, dois filhos.

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O TPP, o Congresso americano e o Brasil.

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

            A Parceria Transpacífica (TPP do inglês Trans Pacific Partnership) é um acordo para a criação de uma área de livre-comércio (ALC) entre os EUA, Canadá, México, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Vietnã, Brunei, Chile, Peru, Malásia e Cingapura. Os seus termos foram acertados em uma reunião de ministros na última segunda-feira, dia 5 de outubro, em Atlanta nos EUA. Esse acordo teve as suas negociações iniciadas em 2006, mas só agora todas as partes concordaram com todos os termos. Como sempre, para entrar em vigor, ele ainda precisará ser ratificado por todos os congressos e parlamentos dos 12 países envolvidos. O mais importante é o Congresso americano, por ser a maior incógnita. Passa ou não passa, eis a questão? Neste post falarei sobre o acordo em si e tentarei analisar a disputa entre os partidos norte-americanos para tentar chegar a uma resposta a pergunta acima. Por fim, tentarei ver como o TPP afeta o Brasil.

TPP-Countries

(BRICS Plus) – Países que participam do TPP.

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A Atual Crise e a Política Externa Brasileira.

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

12345Se você abrir agora a página de qualquer jornal de notícias brasileiro, a primeira notícia será, muito provavelmente, algo relacionado à nossa economia e à tão falada crise que nós estamos passando. Como nós chegamos a ela, como sair e (o que todos sempre gostam) os seus culpados, são assuntos que poderiam preencher alguns posts, por isso não vou me concentrar nisso. Pretendo aqui brevemente analisar como a nossa atual situação econômica pode estar influenciando a nossa política externa, para o bem e/ou para o mal. Continuar lendo

Furor Indica 2

por Amanda Melo

Você já deve saber que está correndo no Congresso brasileiro a discussão e votação da Proposta de Emenda da Constituição (PEC 171/93). Essa PEC especificamente propõe a redução da maioridade penal para crimes hediondos, que passaria de 18 para 16 anos, e foi aprovada em primeiro turno pela Câmara dos Deputados no início de julho deste ano, antes do recesso.

Em meio a essas votações, O Furor indica hoje esse vídeo do Nerdologia que pode te dar mais informação sobre o assunto  e te ajudar a formar uma opinião sobre o tema, ou, se você já tiver uma, te apresentar um novo argumento.

Fique à vontade para deixar sua opinião nos comentários!

A Redução da Maioridade Penal foi Reprovada! Vida Longa à Redução da Maioridade Penal!

por Pedro Bedim

Sem querer entrar na discussão sobre a redução da maioridade penal em si, a própria votação da questão já possui fatores duvidosos. Se você não entendeu nada sobre as últimas reviravoltas do reality-show da TV Câmara, então esse texto lhe serve.

A começar pelo começo. A Proposta de Emenda Constitucional 171/93, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos de idade, foi apresentada pelo ex-deputado Benedito Domingos (PP-DF), em 1993, ficando parada nas gavetas da Câmara desde então. No entanto, a partir das eleições de 2014, com o candidato à presidência do PSDB (Aécio Neves) resgatando o debate da redução e com a eleição da Câmara mais conservadora desde 1964, a PEC foi desengavetada.

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Polícia para quem precisa

por Carol Grinsztajn 

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Baltimore, Curitiba, Tel Aviv. O que essas cidades têm em comum? Provavelmente não muita coisa. Mas nas últimas semanas essas três cidades estiveram na mídia por causa de situações semelhantes: violência policial contra manifestantes. Obviamente cada um desses casos possui suas especificidades que merecem um post à parte e também não ignoro os relatos de iniciativas violentas por parte dos manifestantes, que são sim significativos. Mas ao escutar essas noticias, não pude deixar de notar a questão do confronto com a polícia como elemento gritante de como se estruturaram esses casos (e muitos outros recentemente: vide os embates durante os protestos em 2013 no Brasil, protestos contra austeridade na Espanha, protestos contra o regime no Egito, enfim, os exemplos são inúmeros). Não pretendo dar nenhum parecer ou análise, nem sou apta pra isso, mas em momentos em que situações como essas são tão frequentes nas manchetes, e em contextos tão diferentes, acho importante que criemos espaço para reflexões sobre a própria polícia e questões que vem sido levantadas em relação a essa instituição (convido o leitor a compartilhar as suas reflexões também). Continuar lendo

Estamos protegidos da homofobia?

por Rogerio Sganzerla

A linguagem usada no cotidiano está implicitamente cheia de preconceitos e discriminações. Cita-se como exemplo a intolerância religiosa, discriminação racial, idosos, deficientes físicos, mulheres e homofobia. Este último, por várias razões sociológicas, é um dos que tem mais problemas na atualidade em termos de proteção legal. É como aquele candidato político inelegível que possui alta taxa de aprovação e alta taxa de rejeição: ninguém quer apoiá-lo e muito menos defendê-lo.

Apesar de estar sendo um pouco radical no exemplo citado, certo é que a homofobia caminha em passos (muito) lentos para uma proteção efetiva da população. Apesar dos diversos avanços na sociedade, é possível contar nos dedos os reais direitos que a população LGBT possui. Continuar lendo

Perdida nas manifestações insanas

por Thaís Queiroz

Eu sei. Eu sei que o bom senso sumiu faz tempo. Aliás! Que há lugares em que ele nunca existiu. O problema é que às vezes eu me esqueço disso. Ou então que sou ingênua demais para compreender, com tão pouca idade e experiências, os gênios do pensamento político que povoam as esferas privilegiadas do Brasil. Porque sinceramente estou perdida. Minha repetida reação é a incredulidade.

Refiro-me às manifestações verbais escritas em redes sociais (mais especificamente Facebook e tumblrs) e páginas da internet sobre política e sociedade (incluindo jornais, agências de notícias e blogs) a respeito das passeatas de 15 de março e 12 de abril realizadas em múltiplas cidades do Brasil. Continuar lendo