Furor indica: “Queridos misóginos americanos: A opressão das mulheres afegãs não existe para o seu benefício”

por Thaís Queiroz

Nesta semana, para nos ajudar a (des)entender as relações internacionais, gostaríamos de compartilhar com vocês um artigo publicado no fim do ano passado pela ativista afegã Noorjahan Akbar*, intitulado “Queridos misóginos americanos: A opressão das mulheres afegãs não existe para o seu benefício”.

Nele, a autora denuncia como homens dos Estados Unidos frequentemente desqualificam feministas estadunidenses com o discurso de “vá ser feminista no Oriente Médio! Lá elas sofrem muito mais. É a opressão delas que considero opressão. Essa sim deve ser combatida” e assim por diante. No caso, ela fala de estadunidenses e de afegãs, pois são os locais de onde ela fala e de onde ela vem. Mas esta analogia aplica-se a muitas outras relações, principalmente entre pessoas de países “ocidentais” e países “orientais”.

O texto foi traduzido por Vanessa Ribeiro e foi originalmente postado em português pelo blog Não me Kahlo.  Vamos a ele:

Queridos misóginos americanos: A opressão das mulheres afegãs não existe para o seu benefício
(Dear American misogynists: Afghan women are not oppressed for you)

Hoje [10 de dezembro de 2015] é o último dia dos 16 Dias de Ativismo contra violência de gênero. Todo ano, ler os depoimentos poderosos de mulheres que superaram essa forma tão comum de violência me inspira e me lembra do quão importante é a desigualdade global.

 Nos últimos seis anos, eu tenho tido o privilégio de falar em universidades americanas e escolas particulares sobre minha experiência trabalhando e escrevendo sobre direitos humanos na minha terra natal, o Afeganistão.  Uma das reações mais comuns que americanos têm para meus discursos e meus artigos é a invalidação da defesa dos direitos das mulheres nos Estados Unidos comparando as atrocidades que mulheres enfrentam no Afeganistão com as opressões “menos importantes” e “exageradas” que feministas estão lutando em seu próprio país. 

 A marginalização de mulheres afegãs é usada como uma ferramenta para diminuir a percepção do quão injusto é o status quo que eles têm em casa.  Esses homens, e às vezes mulheres, me contam o quanto estão decepcionados com feministas americanas por estarem “reclamando de cantadas que levam nas ruas enquanto mulheres estão sendo massacradas por homens afegãos.”

 Essa é uma reação daqueles que fingem simpatizar com mulheres afegãs – e por extensão também muçulmanas e mulheres do oriente médio em geral – enquanto atacam ativistas dos direitos das mulheres em seu próprio quintal. Continuar lendo

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Mulheres da Vila Autódromo

por Marina Sertã

Estar na Vila Autódromo, ou mesmo o caminho para lá, passa por testemunhar vários tipos de imponência. Começa pela imponência da arquitetura da Barra da Tijuca, com seus prédios, centros empresariais e shopping centers monstruosos e suas largas avenidas. Passa pelas construções do parque olímpico, com uma arena enorme para cada modalidade de esporte, e pelos gigantes espelhados sendo erguidos próximos a Vila. Até chegar às casas, as que foram e as que são. E recai sobre a imponência do silêncio dos espaços que há pouco guardaram vidas e das casas que ainda resistem.

Mas talvez a maior imponência na Vila Autódromo seja – mesmo com seus espaços que contam histórias, mesmo com as suas casas que lutam desafiam todo poder da autoridade e do dinheiro – a das mulheres.

Não há como não entrar na Vila Autódromo e não ser agraciado com uma bênção da Dona Penha, uma palavra de carinho da Nathália, um abraço da Sandra Maria, um sorriso da Sandra Regina. É impossível deixar passar as presenças da dona Denise e Dalva. É impossível não se perceber a firmeza da Rafaela e a paz da Sofia Valentina. Admirar tudo o que representa a Heloísa Helena e a perseverança da Conceição. E tantas outras imponências mais de tantas outras mulheres.

Ser mulher e acompanhar a luta de resistência da Vila Autódromo é encontrar modelos dessa imponência que se coloca das mais diferentes formas. Dessas mulheres que são maiores que os prédios espelhados e complexos esportivos que as cercam. Que têm uma presença mais forte que todas as centenas de guardas municipais que cercam as casas a serem demolidas. Que têm uma voz mais alta que todos o microfones e alto-falantes.

Ser mulher e apoiar a luta de resistência da Vila Autódromo é me curvar diante dessas mulheres-entidades e tomar cada momento na presença delas como aprendizado. É aprender a força que permanecer demanda. É aprender um significado para ‘permanecer’ que nada tem a ver com inércia, mas com a força sobre-humana de uma luta diária. É aprender que ter fé é rezar, acreditar, confiar e, sobretudo, lutar. É testemunhar sorrisos e carinho nos momentos mais inconsoláveis, e entender a que é deles que vem a força para superá-los.

Hoje, na ALERJ, um pouco dessa imponência é reconhecida, em uma homenagem a ser prestada a dona Penha. O que eu desejo para a dona Penha – assim como a todas as mulheres da Vila Autódromo – é que além das homenagens, elas tenham respeitado o seu direito de permanência nas suas casas. E o que eu desejo para todas nós, é o privilegio de continuar aprendendo com elas.

[edição] Hoje, pela  manhã, minutos depois da postagem deste texto, recebemos a notícia que, além da homenagem, dona Penha também receberia a demolição de sua casa.

Viva a Vila Autódromo!

Participe do 1º evento de urbanização comunitária da Vila Autódromo!

Acompanhe a agenda de eventos na Vila Autódromo.

Assine a panela de pressão para Urbanização da Vila Autódromo.

Aceite o Desafio #UrbanizaJá

Como viajei da China ao Brasil em 30 segundos

por Julia Zordan

Por 35 anos a China viveu uma política governamental segundo a qual os casais não poderiam ter mais do que um único filho. Até a semana passada, quando essa política caiu e foi permitido às famílias ter até dois filhos. Como explica Duda Teixeira[1],

A Lei de População e Planejamento Familiar, que deve ser extinta em breve, afirma que:

‘O país determina estar em efeito a política do nascimento, que encoraja o cidadão a casar-se e, em um momento posterior, a ter filhos. Recomenda-se que marido e mulher tenham somente uma criança’

A norma estipula que os pais de filhos únicos podem requerer um ‘certificado de honra para pais de filhos únicos’. Com o documento em mãos, eles passam a ter direito a vários benefícios estatais, como assistência médica e um seguro para a idade avançada.

 Esse controle populacional por parte do governo chinês não é arbitrário: é uma forma utilizada pelo governo de controlar o tamanho de sua população e, assim, controlar várias outras áreas que lhe dizem respeito, como políticas econômicas, educacionais, sociais, previdenciárias[2], etc. Assim, conforme a pirâmide populacional chinesa vai sendo alterada com o tempo, o governo chinês decidiu permitir que os casais pudessem ter, se assim desejassem, dois filhos.

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Furor Indica: Feministas no Youtube

por Marina Sertã.

Eu gasto boa parte do meu tempo (in)útil no youtube. E aí calha de eu descobrir umas coisas legais de vez em quando. Esses dias estava conversando com uma professora (oi, Andrea!) sobre canais feministas, e ela perguntou se tinha uma lista desses canais. Eu já vi várias por aí, mas decidi fazer a minha, com as mulheres que introduzem muito bem alguns debates de gênero com uma mídia mais leve e com uma linguagem talvez mais acessível e atraente. Espero que vocês gostem! =) Continuar lendo

Reflexos e Reflexões

por Julia Zordan 

                Férias. Tempo de descansar, de colocar em dia todos os episódios de séries e todos os livros que ficaram pelo caminho durante o semestre. Pra mim, tempo de aproveitar para passar mais tempo com os amigos e para conhecer novos lugares, fazer coisas novas. Antes mesmo de entrar de férias, já começamos a planejar os passeios que faríamos. Logo, então, fomos – eu, Thaís, Marina e Franco – ver uma exposição sobre a modernidade espanhola, com muitas obras de Pablo Picasso. Depois, fui com a Marina ao MAR, o Museu de Arte do Rio, ver a exposição “Tarsila e as Mulheres Modernas no Rio”. Achei tão interessante a exposição que voltei lá dois dias depois, com outros dois amigos, para revisitar a exposição e para ver a “Rio Setecentista – quando o Rio virou capital”. Desses passeios eu gostaria de compartilhar com vocês algumas impressões que tive – acerca de uma variedade de temas.

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Pelo Jogo. Pelo Mundo – Parte 2

por Julia Zordan e Maiara Folly

Certa vez, voltando de um intercâmbio de curta duração, tive o prazer de estar no mesmo voo da seleção brasileira de futebol, que retornava de um amistoso na França. Durante o voo, conversei com as jogadoras sobre a condição do futebol feminino no Brasil. Bom, sempre soube que a categoria feminina pouco  era valorizada no país. Acreditava, porém, que a realidade das jogadoras da seleção fosse um pouco diferente. Para ilustrar o descaso com nossas craques, mencionarei dois pequenos trechos de nossa conversa.

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A Saga do Suéter Rosa

por Louise Marie Hurel

“I believe in pink. I believe that laughing is the best calorie burner. I believe in kissing, kissing a lot. I believe in being strong when everything seems to be going wrong. I believe that happy girls are the prettiest girls.” – Audrey Hepburn

(Eu acredito no rosa. Eu acredito que sorrir é a melhor forma de queimar calorias. Eu acredito em beijar, beijar muito. Eu acredito em ser forte quando tudo parece estar dando errado. Eu acredito que meninas felizes são as mais bonitas. - tradução livre)

Dilemas como os de Amanda Deibert (abordado no texto de Julia Zordan) tocam em um ponto crucial: eles fazem parte do nosso dia a dia. Somos constantemente guiados pelo nosso julgamento, ele nos indica o certo/errado, possível/impossível, agradável/desagradável, feminino/masculino. O julgamento faz parte de uma construção social complexa que nos envolve, influencia e determina nossas ações. Continuar lendo

E se eu quiser gostar de rosa?

por Julia Zordan

Dia desses eu estava navegando pela internet e me deparei com um texto da revista Time¹ que me chamou muito atenção. Muito disso pelo título – “I Don’t Want My Daughter To Hate Pink” (“Não Quero Que Minha Filha Odeie Rosa”, em tradução livre). Nesse texto, a autora relata uma situação vivida por ela que a fez refletir a respeito da feminilidade. Mãe de uma bebê recém-nascida, ela decidiu, pela primeira vez, colocar um laço no cabelo da filha. Achou bonitinho, fotografou e mandou a foto para uma amiga. Essa amiga respondeu então “Que bom que você colocou um laço na cabeça dela. Assim dá pra saber que ela é uma menina”.

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