O quanto se sofreu por um sufrágio?

‘O pior sistema já inventado’ é uma série de posts trazendo uma visão crítica do sistema político mais difundido no mundo hoje: a Democracia.O título é tirado de uma citação atribuída a Winston Churchill – de que “a democracia é o pior sistema político já inventado, exceto por todos os outros”. Nesta primeira parte da série, Franco vai falar sobre a ideia de sufrágio e as pessoas que foram excluídas dela ao longo dos séculos.

por Franco Alencastro

A ideia que a maioria de nós tem da democracia é de um sistema em que o povo pode escolher seus líderes – em oposição a sistemas autoritários, como monarquias absolutas e ditaduras militares. Isso faz com que muita gente considere a democracia o sistema político mais justo, já que cada cidadão pode influenciar, à sua maneira, o rumo político da nação. Com cada pessoa tendo exatamente um voto, temos a igualdade entre todas os cidadãos.

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Entendendo as (complicadas) eleições americanas e as propostas de cada candidato

por Franco Alencastro e Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

Na terça feira, 1º de março, ocorreu a Super Terça, nos EUA. A votação do Partido Republicano, simultânea com a do Partido Democrata, viu o controverso bilionário e apresentador de reality shows Donald Trump conseguir uma vitória impressionante: levou 7 dos 11 estados em disputa, com margens variando de 33% a 49%, se saindo bem em estados como Alabama, Massachussets e Tennessee. Mais impressionante ainda, na primária do Partido Democrata, Hillary Clinton, que até então enfrentava algumas dificuldades frente ao seu principal competidor, o Senador Bernie Sanders, conseguiu vitórias acachapantes em 7 dos 11 estados, com margens mais do que seguras: entre 64% (Virgínia) e 78% (Alabama). Sanders só se destacou mesmo em seu pequeno estado natal, Vermont, onde conseguiu 86% dos votos, e mais 3 estados.

Espera, mas o que tudo isso quer dizer? Todos esses números? A Hillary foi eleita presidente dos EUA? Ou o Trump (pelo amor de Deus, não diga que é o Trump)? Calma, calma. Não é nada disso. O que acontece é que o sistema americano para eleger o presidente é complicado – muito mais complicado que o nosso, por  exemplo. Continuar lendo

3 meses de Macri: Cuidado para não dançar!

por Franco

A eleição de Maurício Macri para Presidente da Argentina em Novembro último fez com que os jornais brasileiros derramassem muita tinta e fizessem pouca análise. Via de regra, a reação à sua vitória foi um espelho de seu posicionamento frente à Presidente Cristina Kirchner (que governou entre 2007 e 2015), e nos dizem menos sobre as posições e propostas do candidato do que sobre o apoio ou rejeição dos brasileiros à “Dinastia K”. Pela conexão do casal K com a “onda esquerdista” latino-americana dos anos 2000, elogiar Macri e criticar Cristina Kirchner permite transformar a Argentina, por meio de uma comparação muito preguiçosa, em um fantasma da situação política do Brasil, e para a direita brasieira festejar a vitória de Macri como a vitória de “um dos nossos”. Continuar lendo

Músicas de 2015 ( que todo internacionalista deveria ouvir)

por Franco Alencastro.

Ora, olá. Você deve ter vindo aqui da primeira parte do post, sobre filmes. Bom, vamos cortar a introdução e ir direto para as Melhores Músicas do Ano (Que Todo Internacionalista Digno do Nome Deveria Ouvir):

 

King Kunta, de Kendrick Lamar

Em Março, o rapper americano Kendrick Lamar lançou a obra-prima To Pimp A Butterfly, um álbum-conceitual sobre a situação do negro nos EUA atuais, discutindo questões como o racismo ainda presente na cultura, a violência policial, a auto-estima do negro em uma cultura em que o branco ainda é o padrão de beleza. O álbum se tornou ainda mais relevante com a explosão, esse ano, de manifestações contra o racismo e a brutalidade policial. Para falar desses temas Kendrick costurou, junto com suas letras ácidas e abertamente políticas, um coquetel do melhor da música negra dos últimos 100 anos: Jazz, Rock, Funk, Soul… King Kunta é provavelmente a melhor música do álbum. Confira:


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Filmes de 2015 (que todo internacionalista deveria ver)

por Franco Alencastro.

Chegamos à mais um fim de ano, e nós, internacionalistas e leitores de O Furor, não podemos deixar de olhar para trás e pensar em como ele foi movimentado – muitas vezes, para mal, algumas vezes para o bem. O coração da Europa foi atingido por um ataque sanguinário, os tanques do Estado Islâmico rugem no Oriente Médio e o mundo chega cada dia mais perto de um conflito que, cochicham por aí, pode se tornar mundial. No Ocidente desenvolvido, os populismo de extrema-direita troveja suas acusações diárias contra os inimigos da vez, e no Brasil convivemos com uma crise econômica e política (quase) sem precedentes, em meio as repercussões do pior crime ambiental da história nacional.

Foi também um ano de esperança: as nações do mundo votaram por um novo e ambicioso pacote de metas de desenvolvimento para 2030, que incluem os grandes objetivos de sustentabilidade sem os quais provavelmente não teremos um planeta para nos desenvolver; e, em Paris, os líderes mundiais finalmente chegaram num consenso quanto à mudança climática. Só por isso, podemos dizer que 20125 entrou para a história.

Assim, a tradicional lista de melhores músicas e filmes que encontramos na maioria dos blogs por aí não podia deixar de dar as caras n’O Furor, mas com um twist: decidi escolher não só as melhores obras, mas as que melhor representaram as questões em jogo no mundo hoje!

Os melhores filmes do ano (sem um ranking específico):
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Porque o Brasil não deve assinar o TPP

por Franco Alencastro.

A assinatura do TPP, no dia 5 de outubro de 2015, provocou reações acaloradas por todo o espectro político – um volume de reações tão denso quanto a névoa de incertezas cercando o acordo, discutido em segredo por anos entre os governos dos EUA, Japão, Austrália e mais 9 países da área do Pacífico.

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Um epitáfio para Palmira

por Franco Alencastro.

Conheci um viajante de antiga terra
que disse: – Duas pernas destroncadas, pétreas,
estão no deserto. Perto delas, soterra
a areia meia face despedaçada,

cujo lábio firme e poderio de olhar, frio,
diz que seu escultor bem lhe leu as paixões
que sobrevivem, nas meras coisas sem vida,
à mão que zombou e ao coração que nutriu.

E no pedestal tais palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, o rei dos reis:
Vejam minhas obras, ó fortes – desesperem-se!”

Nada resta: junto à ruína decadente
e colossal, de ilimitada aridez,
areias, lisas e sós, ao longe se estendem.

-“Ozymandias”, de Percy Shelley (trad. Tomaz Amorim Isabel)

Em agosto deste ano, o grupo EI – Estado Islâmico – que luta pelo estabelecimento de um Califado nas terras habitadas por muçulmanos, iniciou a destruição do templo de Baalshamin, na cidade de Palmira, na Síria. Fundada hà 4 mil anos, passou pelas dominações dos Impérios Assírio, Selêucida, Romano, do Califado Omíada, Abássida e Mameluco, do Império Otomano e do Colonialismo Francês, antes de terminar sob a tutela da família Assad, na segunda metade do Século 20. Palmira chegou a ser até capital de um próspero mas êfemero império, que durou dois anos (270-272). [1] Continuar lendo

Apropriação cultural: O que é?

por Franco Alencastro

Se você circula pelas mesmas partes da internet que eu, você provavelmente viu, nessas últimas semanas, essa foto acima, acompanhada de uma legenda indignada. As pessoas que a compartilharam, em geral, reclamam da apropriação que as mulheres brancas da foto fizeram de um símbolo cultural afro-brasileiro – no caso, o turbante.

Mas o que seria apropriação cultural?

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Liberté, égalité, fraternité…laïcité?

por Carol Grinsztajn e Franco Alencastro

6 meses após os ataques do Charlie Hebdo, o debate sobre o lugar do Islã na sociedade francesa continua. Dessa vez, o foco da discussão é um velho tema que, com uma rápida polida, se tornou novo: O uso de símbolos religiosos nas escolas públicas francesas.

Vamos voltar no tempo, para o distante ano de… 2004. Nesse ano, o então presidente Jacques Chirac criou uma comissão chamada Stasi (nada à ver com a antiga polícia secreta da Alemanha Oriental. Embora…) com o objetivo de lidar com a questão dos símbolos religiosos usados por alunos nas escolas públicas: Seriam eles um desrespeito à separação entre a Igreja e o Estado?  Continuar lendo