Definindo as Relações Internacionais

por Franco Alencastro.

“Relações Internacionais? Que interessante. E o que você faz?”

Quem, no nosso campo, nunca teve que encarar essa pergunta? A reação instintiva geralmente é querer se encolher, pigarrear e pedir pra passarem a farofa (olha, eu to só supondo que a conversa se passa no Natal). E, num segundo momento, pensar muito – problematizar, afinal, está no coração nada-essencializado de nossa disciplina. E tenta-se chegar a uma resposta, o que às vezes leva à fria conclusão de que não temos idéia, mais do que a maioria das pessoas, sobre o que, afinal, somos supostos fazer.

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Os talheres de metal e o Pós-Pós-11 de Setembro

por Franco Alencastro

Às vezes, os acontecimentos mais anódinos podem provocar uma reflexão sobre o mundo que nos cerca. Foi o que aconteceu comigo da última vez que pisei num avião – mais especificamente, um voo de Lisboa para o Rio de Janeiro.

Estava assistindo “Vício Inerente” e tentando tirar algum sentido da trama sem pé nem cabeça do filme, quando a aeromoça gentilmente perguntou se gostaria de uma refeição de carne ou peixe. Porque era um voo da TAP (a companhia aérea portuguesa) escolhi o peixe, ora pois.
Minha surpresa veio junto com a bandeja. Dentro de um saco de plástico, estavam dois talheres de metal.
Talheres de metal e voos internacionais não costumam se dar bem. Se você viajou para fora em algum ponto dos últimos 14 anos, talvez tenha notado o crescente aparato de segurança cercando a maioria dos voos: Scans de corpo inteiro, revistas, tirar os sapatos…

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O Rio pelos olhos de… Franco

por Franco Alencastro

Os outros membros d’O Furor falaram, nessa série de artigos especiais sobre o Rio de Janeiro, sobre muitas coisas. Falaram sobre o lado bom; falaram sobre o lado ruim, e até sobre fazer esporte X ficar parado. Mas tem uma coisa em que eles não tocaram, pelo menos não diretamente. E é uma faceta importante do Rio de Janeiro – é aquela, afinal, que está em praticamente todos os cartões postais. Falo, é claro, da praia. Continuar lendo

Alexis Tsipras contra o Ciclope Neoliberal

     por Franco Alencastro

     Lar das grandes tragédias do teatro, a Grécia tem vivido nos últimos anos uma tragédia bem diferente: Seu PIB desmoronou, passando de 341 bilhões de dólares em 2008 a 240 bilhões em 2014[1], e o país está no centro da turbulência que se convencionou em chamar, no dia a dia, de “crise econômica”, sendo talvez o país que mais emblematicamente naufragou nesse período, adquirindo um passivo que se revela a cada dia mais impagável[2], e vivendo com isso uma verdadeira crise social, em alguns aspectos pior até do que a Grande Depressão[3]. Continuar lendo

Um Conto de Putin

por Franco Alencastro

2014 foi um bom ano para Vladimir Vladimirovich Putin: Com a ajuda de separatistas ucranianos, anexou o território da Criméia à Rússia, dando à Moscou o controle de um território que perdera em 1991. A economia russa emergira nos anos anteriores como uma das maiores do globo, em conjunto com o grupo dos BRICS, que ameaçava a hegemonia econômica dos EUA, contra quem o líder russo parecia querer travar uma nova Guerra Fria. Popular, amado, admirado e temido para seu povo, Vladimir Putin era cada vez mais reconhecido como um exemplo de liderança no mundo todo, um líder forte e autoritário, um modelo a ser seguido.

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Sobre vagões e locomotivas

por Franco Alencastro

Eu adoro São Paulo. É sério, adoro. Eu nunca fui lá, mas tenho certeza que é um estado fantástico. Agora, todos conhecemos aquele paulista, ou, melhor dizendo, o paulista que tem aquela opinião. Aquele paulista que diz que São Paulo é a locomotiva do Brasil, enquanto que os outros estados ou regiões são os vagões – que uma parte faz todo o esforço enquanto que outra faz todo o descanso. Continuar lendo

A Batalha de Kobanê

No discurso ocidental sobre a recente ascensão do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla anglo-saxã), a imagem mais difundida é a de um Exército implacável de fundamentalistas muçulmanos armados até os dentes, que massacram inocentes, decapitam jornalistas e avançam para cada vez mais perto do Ocidente (faltam apenas uns 1600 quilômetros até o Bósforo)¹. Os únicos capazes de detê-los? Não se sabe até agora, mas o candidato mais provável sem dúvida parece ser o Presidente Obama e seu sempre disposto exército de bombardeiros e drones – uma guerra curiosa, deslocalizada, fruto de uma opinião pública americana receosa de enviar soldados mais uma vez para o Oriente Médio sem uma data de retorno estimada.  Continuar lendo

Política(s)(?)

O abismo

por Franco Alencastro

     As eleições são um período que nos une e nos divide – como na Copa do Mundo, da noite pro dia esquecemos os regionalismos e começamos a falar como Brasileiros. Ela nos divide, porém, em linhas político-partidárias, e não há nada mais natural – todos, pelo menos eu acho, querem o melhor para o país da forma como eles vêem, embora discordem sobre o meio de se alcançar isso. Continuar lendo