20 anos da Declaração de Independência do Ciberespaço

por LOUISE MARIE HUREL

Dia 08 de fevereiro de 1996.

”Governos do Mundo Industrial, vocês gigantes aborrecidos de carne e aço, eu venho do espaço cibernético, o novo lar da Mente. Em nome do futuro, eu peço a vocês do passado que nos deixem em paz. Vocês não são benvindos entre nós. Vocês não têm a independência que nos une”

Há exatos 20 anos que, John Perry Barlow, co-fundador da Electronic Frontier Foundation (EFF) – uma das principais organizações envolvidas na luta pelo direito a privacidade, ativismo e liberdade de expressão no mundo online – lia pela primeira vez a sua declaração para os governantes no mundo inteiro reunidos no Fórum Econômico Mundial em Davos. Carregada de emoção, a declaração afirmava a desvinculação do mundo online com offline. Fazendo frente aos governos e ao enclave Vestfaliano (território, soberania, Estado, poder militar, legitimidade), seu discurso refutava a presença dos Estados e proclamava o espaço cibernético como terra da nova “civilização da Mente”.

“Eu declaro o espaço social global aquele que estamos construindo para ser naturalmente independente das tiranias que vocês tentam nos impor. Vocês não têm direito moral de nos impor regras, nem ao menos de possuir métodos de coação a que tenhamos real razão para temer.

Vocês não nos conhecem, muito menos conhecem nosso mundo. O espaço cibernético não se limita a suas fronteiras. Não pensem que vocês podem construi-lo, como se fosse um projeto de construção pública. Vocês não podem. Isso é um ato da natureza e cresce por si próprio por meio de nossas ações coletivas.

Vocês não se engajaram em nossa grande e aglomerada conversa, e também não criaram a riqueza de nossa reunião de mercados. Vocês não conhecem nossa cultura, nossos códigos éticos ou falados que já proveram nossa sociedade com mais ordem do que se fosse obtido por meio de qualquer das suas imposições”.

Calcada no caráter transfronteiriço proporcionado pela difusão da Internet, Barlow descrevia um mundo flúido, despido de territorialidade, assimetrias e privilégios:

“Nosso é um mundo que está ao mesmo tempo em todos os lugares e em nenhum lugar, mas não é onde pessoas vivem.

Estamos criando um mundo que todos poderão entrar sem privilégios ou preconceitos de acordo com a raça, poder econômico, força militar ou lugar de nascimento.

Estamos criando um mundo onde qualquer um em qualquer lugar poderá expressar suas opiniões, não importando quão singular, sem temer que seja coagido ao silêncio ou conformidade.

Seus conceitos legais sobre propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles são baseados na matéria. Não há nenhuma matéria aqui. Nossas identidades não possuem corpos, então, diferente de vocês, não podemos obter ordem por meio da coerção física”.

A questão é: 20 anos depois da Declaração de Independência do Ciberespaço, aonde foi parar o futuro da Internet?

Entre os dias 20 e 23 de janeiro desse ano, o mesmo Fórum Econômico Mundial (WeF) que Barlow proferia seu discurso em 1996, teve como tema principal a Quarta Revolução Industrial – “Tal revolução refere-se à interseção entre o ambiente físico, digital e biológico, bem como o desenvolvimento de cada um à luz de três variáveis: velocidade, escala e impacto sistêmico”. Noticias acerca da relação entre tecnologia e sociedade tem se tornado mais recorrentes em nossos noticiários. Para listar algumas: documentos vazados por Chelsea Manning publicados no Wikileaks (2011), revelações do Snowden (2013), hack da Sony, disputa cibernética entre EUA e China.

Barlow falava de um mundo da Mente, o local desconectado das regras do offline, uma nova sociedade virtual capaz de produzir suas próprias regras, seu próprio contrato social. O que vemos hoje, é o contrario: a convergência do offline com online. Passamos horas conectados, criando e alimentando nosso perfil nas redes sociais. Precisamos aparentar “isso“ ou “aquilo”, precisamos postar essa ou aquela foto.

Plataformas como o Facebook procuram estabelecer um espaço social virtual limitado, providenciando “amigos”, noticias, fotos, “paginas“ para que possa promover ser blog/empreendimento. Não estamos mais na época de simular uma vida virtual – como era possível no inicio dos anos 2000 com jogos como Sims e Second Life. A perspectiva para o futuro da Internet é uma ligada a hiperconectividade, ou seja, à integração da própria vida com sistemas interligados. Saímos da simulação da vida e passamos para a ligação “artificialmente orgânica“ do individuo com a tecnologia. Sendo assim, palavras como Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (AI), drones, big data, computação quântica, cidades inteligentes, automação, genética vão se tornar cada vez mais recorrentes.

Com isso, surgem diversos desafios. O primeiro deles é entender como produzir políticas públicas que acompanhem o avanço tecnológico. Esse desafio é, em grande parte, produto do descompasso entre os processos (políticos, burocráticos e jurídicos) dentro e entre Estados, e empreendimentos privados – desenvolvimento e aplicação de tecnologias de ponta (ex: Uber vs. Taxis). Outros desafios igualmente importantes são: privacidade, liberdade de expressão, ciberbullying, proteção de dados pessoais,

Também vale ressaltar que a conectividade AINDA NÃO FAZ PARTE da realidade de muitos. De acordo com a International Telecommunications Union (ITU), somente 43% da população global tem acesso a Internet, nas Américas essa taxa é de 59.9% e no Brasil 50%. E os outros 57% não conectados?

Barlow previa um futuro bem diferente daquele que vivemos hoje. Sua visão, mesmo considerada por muitos como tecno-utópica, influenciou e continua influenciando movimentos ciberlibertários (ex: Cypherpunks). Seu discurso ecoa em vozes como Julian Assange e Jacob Applebaum, Anonymous e entre outros.

A diferença entre o ciberespaço de Barlow e o ciberespaço 20 anos depois, é o que Milton Santos apontaria como a diferença entre a globalização como fábula e a globalização como perversidade. A Declaração pinta um futuro esperançoso carregado de conceitos como aldeia global, globalização, transnacionalidade e entre outros. A Internet como fábula, é idealizada e construída por todos e para todos. Mas não foi bem assim que a Internet se desenrolou… Não é construída por todos e nem é ainda para todos.

Finalmente, a ponta de esperança se projeta na “outra globalização” também sugerida por Milton Santos. Essa seria a possibilidade de rearticular o desenvolvimento tecnológico e as técnicas como instrumentos de empoderamento e capacitação da sociedade. Isso inclui o desenvolvimento de impressoras 3D como futuras propulsoras pequenos produtores, Creative Commons como compartilhamento de conhecimentos e entre outros futuros possíveis. Que dentre os diversos caminhos, possamos lutar “por um outro futuro” dentro da “outra globalização” – um futuro de compartilhamento, difusão de novas tecnologias como alimentos para um economia criativa/colaborativa e maior participação e representatividade nos processos políticos.

Para ler a declaracao em ingles (https://www.eff.org/cyberspace-independence ) ou em portugues (http://www.dhnet.org.br/ciber/textos/barlow.htm).

 

https://www.eff.org/about

http://www.itu.int/en/ITU-D/Statistics/Documents/publications/misr2015/MISR2015-w5.pdf

https://sites.google.com/site/historiasobreossitesdebusca/www-world-wide-web

http://www.valor.com.br/opiniao/4407892/armadilha-do-entusiasmo-tecnologico

SANTOS, Milton. Por uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Editora Record. Rio de Janeiro. 19a ed. 2010.

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De volta para o Futuro: A Internet das Coisas

por Louise Marie Hurel

“Great Scott!”

Quem nunca sonhou com uma casa inteligente, capaz de “adivinhar seus pensamentos” e confortavelmente acomodar a sua preguiça de lavar, passar, ligar, desligar, trancar e abrir? Bem, eu idealizo isso pelo menos todos os momentos que alguem resolve entrar o meu quarto e abrir a janela com aqueles raios de sol cortantes para qualquer ser humano que preze pelo sono. OU MELHOR, quem nunca sonhou com a casa dos McFly’s no filme “De Volta para o Futuro”? Fazer pizza em 1 segundo, usar oculos hiper-tech (hoje conhecidos como Google Glass) e TER UMA HOVERBOARD <3?? O SONHO DE MUITOS adeptos da legitima fast food, videogames e skate!

Mas esse post não é sobre preguiça tampouco sobre a sua (minha) insatisfação de não poder andar por ai de hoverboard.

É sobre a internet das coisas.

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