O que tem a ver neoliberalismo com depressão? #SetembroAmarelo

por Marina Sertã

Tenho olhado as movimentações em torno do Setembro Amarelo (Setembro Amarelo é o mês da conscientização e prevenção contra o suicídio). E, pra ser muito sincera, tenho me sentido desconfortável com todas elas. E tenho pensado em como contribuir de alguma forma.

Pensei que a melhor forma seria compartilhar um pouco de mim. Faço isso porque acredito que “se faz sentido pra mim, há de fazer pra alguém” ( 😉 ) . Porque eu acredito piamente que falar de mim é falar dos sistemas políticos e econômicos, das regras sociais e costumes culturais e religiosos nos quais eu estou imersa. Porque, sendo assim, falar de mim, é falar de alguma parte de quem quer que esteja lendo isso, e do mundo inteiro.

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Mulheres da Vila Autódromo

por Marina Sertã

Estar na Vila Autódromo, ou mesmo o caminho para lá, passa por testemunhar vários tipos de imponência. Começa pela imponência da arquitetura da Barra da Tijuca, com seus prédios, centros empresariais e shopping centers monstruosos e suas largas avenidas. Passa pelas construções do parque olímpico, com uma arena enorme para cada modalidade de esporte, e pelos gigantes espelhados sendo erguidos próximos a Vila. Até chegar às casas, as que foram e as que são. E recai sobre a imponência do silêncio dos espaços que há pouco guardaram vidas e das casas que ainda resistem.

Mas talvez a maior imponência na Vila Autódromo seja – mesmo com seus espaços que contam histórias, mesmo com as suas casas que lutam desafiam todo poder da autoridade e do dinheiro – a das mulheres.

Não há como não entrar na Vila Autódromo e não ser agraciado com uma bênção da Dona Penha, uma palavra de carinho da Nathália, um abraço da Sandra Maria, um sorriso da Sandra Regina. É impossível deixar passar as presenças da dona Denise e Dalva. É impossível não se perceber a firmeza da Rafaela e a paz da Sofia Valentina. Admirar tudo o que representa a Heloísa Helena e a perseverança da Conceição. E tantas outras imponências mais de tantas outras mulheres.

Ser mulher e acompanhar a luta de resistência da Vila Autódromo é encontrar modelos dessa imponência que se coloca das mais diferentes formas. Dessas mulheres que são maiores que os prédios espelhados e complexos esportivos que as cercam. Que têm uma presença mais forte que todas as centenas de guardas municipais que cercam as casas a serem demolidas. Que têm uma voz mais alta que todos o microfones e alto-falantes.

Ser mulher e apoiar a luta de resistência da Vila Autódromo é me curvar diante dessas mulheres-entidades e tomar cada momento na presença delas como aprendizado. É aprender a força que permanecer demanda. É aprender um significado para ‘permanecer’ que nada tem a ver com inércia, mas com a força sobre-humana de uma luta diária. É aprender que ter fé é rezar, acreditar, confiar e, sobretudo, lutar. É testemunhar sorrisos e carinho nos momentos mais inconsoláveis, e entender a que é deles que vem a força para superá-los.

Hoje, na ALERJ, um pouco dessa imponência é reconhecida, em uma homenagem a ser prestada a dona Penha. O que eu desejo para a dona Penha – assim como a todas as mulheres da Vila Autódromo – é que além das homenagens, elas tenham respeitado o seu direito de permanência nas suas casas. E o que eu desejo para todas nós, é o privilegio de continuar aprendendo com elas.

[edição] Hoje, pela  manhã, minutos depois da postagem deste texto, recebemos a notícia que, além da homenagem, dona Penha também receberia a demolição de sua casa.

Viva a Vila Autódromo!

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Assine a panela de pressão para Urbanização da Vila Autódromo.

Aceite o Desafio #UrbanizaJá

Remoções: Vila Autódromo

por Marina Sertã

A luta de resistência da Vila Autódromo tem passado por momentos cruciais nas últimas semanas. Na última semana, a sede da Associação de Moradores foi demolida e as casas das moradoras Maria da Penha Macena e Rafaela Silva estão sob a mesma ameaça. Neste contexto, moradores e apoiadores lançam campanhas para a conscientização e mobilização da população em geral sobre a luta da Vila Autódromo. Neste texto, eu busco trazer informações essenciais sobre essa luta de resistência para os que têm recentemente entrado em contato com ela. Continuar lendo

O começo do fim – o meu

por Marina Sertã

Eu sempre vivi em preparação, em expectativa. Estudar pra passar em uma boa faculdade. Estudar pra conseguir um bom emprego. Me preparar para algo grande à frente. Sempre. Esse se tornou meio que meu modus operandi.

Viver em preparação é uma situação estranha de provisoriedade. De nunca habitar o presente. Só o futuro. Sempre o futuro. De nunca estar, só estar se preparando para. Sempre. Ele traz uma incompletude infinita, uma promessa sempre adiada do amanhã. Grande. Indefinito. Amanhã.

Acho que esse sentimento é um dos motivos pelo qual eu demorei a começar a fincar raízes no Rio, pelo qual eu encarava minha estadia aqui como parte da minha provisória preparação para o grande futuro à frente.

Mas, com o fim da graduação se aproximando, decisões sobre o futuro – o grande e brilhante futuro – sendo feitas e vividas, uma mistura de paz e agonia se instalam no meu coração.

O fim ainda é assustador. Grande. Incerto. Instável. Sozinho.

Mas, a medida em que as minhas escolhas sobre o grande, incerto e assustador vão sendo continuidade da minha vida que já começou há quatro anos, o peso da mudança vai aliviando. A incerteza quase que diluindo. Começa a se instalar de mansinho uma paz que diz que a minha vida já foi começando. Pouquinho por pouquinho. Sem eu sequer perceber. E o meu coração vai se acalmando ao perceber que as mudanças não vão ser tanto as de fora, da chegada de um futuro furacão, mas de dentro, da responsabilidade de perceber que essa é a minha vida. Ela já começou. Eu só tenho que começar a viver.

Por que as tragédias importam?

por Marina Sertã

Essa semana são os 126 em Paris, os mais tantos em Mariana, outros em Beirute, mais no Japão. Meses atrás foi o Aylaam. No começo do ano foram os cartunistas da Charlie Hebdo. Antes disso, eu não me lembro. Mas tiveram mais nomes, e números, e lugares, e dores. Todas sentidas, choradas, lamentadas. Porque

“No man is an island,entire of itself;
every man is a piece of the continent,
a part of the main.
(…)
any man’s death diminishes me,
because I am involved in mankind,
and therefore never send to know for whom the bell tolls;
it tolls for thee.”

“Ninguém é uma ilha,
completamente separada;
cada pedaço pertence ao continente,
é parte de um todo.
(…)
toda morte me abate,
pois sou parte da humanidade,
assim não pergunte por quem os sinos tocam;
eles tocam por mim.” (tradução livre)
John Donne

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Furor Indica: Feministas no Youtube

por Marina Sertã.

Eu gasto boa parte do meu tempo (in)útil no youtube. E aí calha de eu descobrir umas coisas legais de vez em quando. Esses dias estava conversando com uma professora (oi, Andrea!) sobre canais feministas, e ela perguntou se tinha uma lista desses canais. Eu já vi várias por aí, mas decidi fazer a minha, com as mulheres que introduzem muito bem alguns debates de gênero com uma mídia mais leve e com uma linguagem talvez mais acessível e atraente. Espero que vocês gostem! =) Continuar lendo