Arábia Saudita: O bonito, o feio e o futuro

por Felipe Teixeira

Em meio as economias emergentes do mundo (que em sua maioria passam hoje por problemas políticos e econômicos) uma se destaca nos meios de comunicação sobre política internacional, nos noticiários econômicos e na maioria dos grandes eventos diplomáticos. Esse país, apesar de não possuir uma economia gigante como o G7[1] ou o E7[2] nunca fica distante de qualquer análise de Relações Internacionais que se preze.

Líder de fato de diversas organizações regionais, políticas e religiosas a Arábia Saudita é um agente fundamental nos jogos políticos mundiais por um motivo simples: petróleo. O ouro negro concedeu uma dádiva da riqueza aos países ao redor do Golfo Pérsico, porém são os sauditas que controlam a maior parte desse tesouro. Dentre as monarquias ao redor do golfo a Arábia Saudita possui o maior território, a maior economia e a maior população por uma ampla margem. Esses fatores, além da posse histórica de locais sagrados para os praticantes do islamismo (Meca e Medina) trazem para esse agente uma ampla margem de poder que é efetivamente utilizada.

Continuar lendo

Anúncios

Disputa Marítima entre Israel e Líbano e o contingente brasileiro nessa fronteira

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

           O Oriente Médio é uma região muito complexa, acho que podemos concordar com isso. Uma vez ouvi uma professora, especialista na região, dizendo que se você acha o Oriente Médio confuso, então você está no caminho certo. Algumas das suas questões datam de milênios e algo novo acontece toda semana, tornando-as mais complexas. Meu objetivo neste post é adicionar mais um fator complicador: a disputa entre o Estado Israel e a República Libanesa pela delimitação da fronteira marítima entre os dois países e, por conseguinte, da extensão da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de cada um. Diferentemente da análise que eu fiz no ano passado, sobre as disputas no Mar do Sul da China à luz do Direito do Mar, aqui não pretendo tentar achar nem uma resposta ou solução para tal conflito, nem dizer quem está certo ou errado, não sou pretencioso de achar que tenho tais respostas. Assim, pretendo apenas informar sobre a existência de mais um conflito no Oriente Médio. Mas, por que esse especificamente? Primeiro porque me interesso por disputas marítimas. E, segundo, porque 200 militares brasileiros estão nessa fronteira integrando a Força Tarefa Marítima (FTM) da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL, do inglês United Nations Interim Force in Lebanon). Portanto, qualquer beligerância na região, principalmente no mar, deveria ser do nosso interesse e ter nossa redobrada atenção. Continuar lendo

O Acordo Nuclear entre o P5+1 e o Irã saiu!

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

12345Finalmente saiu! Depois de 12 anos, várias propostas, idas e vindas, muitas acusações e muita desconfiança de ambos os lados, saiu um acordo final entre os Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha (o chamado P5+1 ou UE3+3) e o Irã sobre o programa nuclear iraniano. O chamado Plano Compreensivo de Ação Conjunta (JCPOA, sigla em inglês para Joint Comprehensive Plan of Action) foi assinado pelos 7 países e pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em Viena na última terça-feira, dia 14 de julho, e marca uma mudança histórica nas relações entre o Irã com o resto do mundo, principalmente com os EUA e a Europa. Mas, o que é esse acordo? Por que ele é importante? E, por que um acordo era necessário? Espero conseguir responder a essas questões agora.

Reuters/Carlos Barria - Ministros do P5+1 e delegação iraniana na sede da ONU em Viena no dia 14 de julho. Da direita para a esquerda: chinês alemão, Federica Mogherini, Mohammad Javad Zarif, Ali Akbar Salehi (chefe da Organização de Energia Atômica do Irã), Sergey Lavrov, Philip Hammond e John Kerry

Reuters/Carlos Barria – Ministros do P5+1 e delegação iraniana na sede da ONU em Viena, 14 de julho. Da esquerda para a direita: Wang Yi, Laurent Fabius, Frank-Walter Steinmeier, Federica Mogherini (Chefe de Política Externa da UE), Mohammad Javad Zarif, Ali Akbar Salehi (chefe da Organização de Energia Atômica do Irã), Sergey Lavrov, Philip Hammond e John Kerry

Continuar lendo

40 anos do início da Guerra Civil Libanesa: fraturas e cicatrizes

por Carol Grinsztajn

40lib

     No dia 09 de junho de 2015 O Furor realizou seu primeiro evento, o painel “40 anos do início da Guerra Civil Libanesa”, do qual tive a oportunidade de ser mediadora. O seguinte texto busca relatar e sintetizar algumas das discussões do painel e, ao mesmo tempo,  acrescentar algumas reflexões e análises sobre o tema. 

     Eu achei que sabia onde estava me metendo quando comecei a estudar o Líbano. Como descendente de libaneses, achava que me salvaria das escorregadas analíticas e como estudante de Relações Internacionais, achava que tinha os instrumentos necessários para compreensão.  Estava enganada. O Líbano apresenta uma série de desafios para os instrumentos tradicionais das Relações Internacionais, que entendem o Estado como unitário, racional, laico (na verdade, ao longo da graduação, me parece cada vez mais claro que nesse aspecto, ele não é uma exceção).

40libgroup

     O painel “40 anos do início da Guerra Civil Libanesa”, organizado pela equipe d’O Furor, surgiu dessa necessidade de buscar diferentes perspectivas sobre um assunto que reflete a complexidade libanesa, e ao mesmo tempo possui um impacto amplo e duradouro nas questões geopolíticas do Oriente Médio. Continuar lendo

Jogando Petróleo no Ventilador Parte 2

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão.

12345Minha vez. Vou me focar em outras regiões, principalmente as consequências para o Irã, Síria, Estado Islâmico (EI ou ISIS, sigla em inglês para Islamic State of Iraq and Syria), Rússia, China e Japão. Vou começar pelo mais complicado, pelo Oriente Médio. Acho importante fazer um pequeno resumo do ator que nós tanto falamos, a Arábia Saudita. O Reino da Arábia Saudita se consolidou como país em 1932, mas só descobriu petróleo em 1938. Hoje, ele é o maior produtor de petróleo do mundo (16% da produção mundial), uma das maiores reservas existentes, 266 bilhões de barris[1], e líder político da OPEP. O maior aliado árabe do Ocidente é uma monarquia regida pela religião sunita wahabista (vertente ultraconservadora do islamismo sunita), sua constituição é a sharia (lei islâmica baseada no Alcorão), todo o poder está concentrado nas mãos do Rei, não existem partidos políticos e as minorias são perseguidas/marginalizadas (como prevê o wahabismo). Essas características ajudam a explicar algumas das nossas suposições para o país manter o preço do petróleo baixo. Continuar lendo

O Revanchismo Jordaniano

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão

            Desde o ano passado o mundo ouve falar do grupo terrorista Estado Islâmico (EI ou ISIS, sigla em inglês para Islamic State of Iraq and Syria), como ele atua, financia seus ataques, rapta seus inimigos e mata inocentes. Isso levou os EUA a liderarem uma coalizão de mais de 30 países que atacam as posições desse grupo no Iraque e na Síria e/ou enviam ajuda financeira e humanitária para a região[1]. Porém, sob fortes desaprovações, a Jordânia (que faz parte dessa coalizão) decidiu negociar unilateralmente com o ISIS, a vida de um piloto jordaniano por uma mulher-bomba iraquiana. Alguns dias depois, dia 03/02/15, ficamos mais uma vez chocados quando as negociações falharam e foram postadas imagens na Internet do piloto sendo queimado vivo. Isso levou a resposta jordaniana de iniciar novos e mais enfáticos ataques ao grupo nos dois países que eles atuam. Continuar lendo

Epitáfio Saudita

por Carol Grinsztajn

     Quem se deparou com as condolências dos grandes líderes mundiais na ocasião da morte do Rei Abdullah da Arábia Saudita  possivelmente ficou em dúvida se quem havia morrido era mesmo o monarca absoluto de um país onde mulheres são negadas direitos básicos e apedrejamentos são punições cotidianas. O rei foi chamado de “modernizador” “comprometido com a paz”, “um homem de sabedoria e visão” e um “amigo genuíno”.  Tudo isso na mesma semana em que a Arábia Saudita aparecia nas manchetes do mundo pela pena de chibatadas de um blogueiro oposicionista e pela decapitação de uma mulher acusada de matar a enteada.  Essas contradições levantam questões sobre um país dirigido por uma elite político-religiosa que segue uma das linhas mais fundamentalistas do islã, bem como sobre as relações entre a Arábia Saudita, seus vizinhos regionais e seus aliados ocidentais. Continuar lendo

O Não Acordo de Anteontem entre o P5+1 e o Irã.

 por Sergio Azeredo da Silveira Jordão

          Era para eu ter escrito na semana passada, mas troquei de dia para poder escrever sobre o Acordo Nuclear Compreensivo que deveria ter sido firmado nessa última segunda (dia 24/11) entre os EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha (o chamado P5+1) e o Irã. Porém, como todos já devem saber, tal acordo não aconteceu, foi postergado… para daqui a sete meses… para a minha frustração. Depois de descer as escadas da minha universidade com alguns membros d’O Furor dizendo que esses negociadores estavam de brincadeira comigo, fui ver quais teriam sido os principais “pontos de tensão” entre os negociadores e percebi o quão idealista eu fui com relação a essas conversas (logo eu que me considero tão realista).

John Kerry, Philip Hammond, Sergey Lavrov, Mohammad Javad Zarif, Frank-Walter Steinmeier, Laurent Fabius, Catherine Ashton e Wang Yi.

Continuar lendo

ISIS e as Negociações entre o P5+1 e o Irã

por Sergio Azeredo da Silveira Jordão

12345Duas semanas atrás, dia 14 de outubro, o Secretário de Estado norte-americano John Kerry, a Chefe de Política Externa da UE Catherine Ashton e o Ministro das Relações Exteriores do Irã Mohammad Javad Zarif, se reuniram em Viena para mais um rodada de negociações para se conseguir chegar ao Acordo Nuclear Compreensivo (Comprehensive Nuclear Agreement) sobre o programa nuclear iraniano. Esse acordo deveria ter sido firmado em julho, mas foi adiado para novembro porque as partes não chegaram a um consenso sobre o seu conteúdo e a sua dimensão. De acordo com o The Washington Post[1], essa reunião foi muito importante, mas muitas questões e problemas ainda precisam ser resolvidos até o deadline, 24 de novembro de 2014. Um oficial do Departamento de Estado afirmou que os EUA acreditam que tal acordo possa ser atingido até o final do ano. Continuar lendo