O problema afeta todos nós – relatos da Palestina

por Thaís Queiroz

[Este texto foi publicado originalmente no dia 1º de março pela própria autora em sua rede social. Ela retornou da Palestina no final do mês de fevereiro de 2016]

“Hoje li esta notícia: Dois soldados israelenses se perderam usando o Waze (aplicativo que indica os melhores caminhos para chegar ao destino desejado) e acabaram entrando em um campo de refugiados perto de um dos piores e mais chatos check-points de Israel (pelo qual passei diversas vezes), Qalandia, e, quando estavam no campo, os palestinos jogaram coquetéis molotov no carro. Os dois soldados fugiram e se esconderam no campo e, para resgatá-los, uma operação militar Israelense foi acionada. Em decorrência, um palestino, estudante universitário, de 22 anos foi morto, 4 foram feridos com tiros, 12 outros foram feridos com balas de borracha e efeitos do gás lacrimogêneo e 10 soldados israelenses foram feridos, um mais gravemente e nove já liberados do atendimento hospitalar. A operação aconteceu entre as 22h e as duas e meia da manhã de hoje.

Sei que a primeira reação de alguns ao ler esta notícia seria “que horror estes terroristas jogando coquetéis molotov no carro dos soldados”. E olha o que tudo isso causou.

E compreendo esta reação: isto é o que conseguimos enxergar em nossos meios de comunicação. Os sites de internet, as notícias acessíveis a nós são estas: são pessoas que se explodem para matar outras pessoas, são pessoas que esfaqueiam outras pessoas. E tudo isso é real. Tudo isto não é inventado ou aumentado. Estas ações existem.

O que não temos, no entanto, é um “background” do que acontece “no outro lado”.  Estas notícias não chegam. Não que matar alguém seja certo quando temos uma justificativa. Nada justifica. Mas é preciso tentar entender os motivos para poder diagnosticar corretamente os sintomas.

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O que descobri sobre o significado de possuir dois passaportes.

por Thaís Queiroz

Devo dizer que não são tão poucas as pessoas que conheço por aqui que têm dois passaportes: normalmente o seu brasileiro e um outro que geralmente é europeu, seja ele português, alemão, francês, italiano etc. Isto acontece porque estas pessoas têm o que chamamos de dupla nacionalidade, ou seja, às vezes um dos pais tem outra nacionalidade ou a criança nasceu em outro país… São muitos os casos. E no fim das contas, pelo que até hoje percebi, ter um passaporte europeu é muito legal. Eu mesma já desejei em algum momento da minha vida ter mais um passaporte. Ia facilitar tanta coisa que quero fazer…

Entretanto, o que eu nunca havia percebido, até três semanas atrás, quando vim aqui para o outro lado do mundo, é que existem situações em que dois passaportes podem ter um significado completamente desalinhado do que o que eu estava acostumada. Esta descoberta foi feita em uma conversa com um amigo palestino.  Eu conheci este meu amigo em Continuar lendo

Por que o de cima sobe e o de baixo desce?

Por Felipe Teixeira

“Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece,
E que o de cima sobe e o de baixo desce”

Tendo em mente as sábias palavras em “Xibom Bombom” do grupo de axé music “As Meninas”, você já se perguntou o que provoca essa dinâmica?

Em épocas de arrastões e crises de migração, vale trazer a tona conceitos que complexifiquem os debates. Para aprofundar os argumentos essa postagem busca esclarecer uma variável relevante presente principalmente em países em desenvolvimento e emergentes. Quando iniciando um discurso é necessário perceber que quando uma grande parcela populacional resolve se converter a criminalidade ou a escapar de seu lugar de origem, o problema está em todo o sistema. Continuar lendo

A loteria da barriga no Sistema Internacional

por Thaís Queiroz

 

O que motiva o post de hoje é uma conversa que ouvi (pasme) dentro do banheiro de um aeroporto.      A conversa aconteceu entre um grupo de meninas que aparentava ter entre 17 e 20 anos de idade e o trecho que me chamou a atenção é algo mais ou menos assim:

– A fulana está ansiosa para abrirem as inscrições.
– Sim, preciso correr pra ser Estados Unidos
– Hahaha Todos querem ser Estados Unidos em um comitê bom como esse.
– Mas o comitê é tão bom que o que importa é participar. Qualquer coisa você pega uma Palestina ou qualquer coisa assim, que o que importa é estar nesse comitê.
– Ah, sim, com certeza qualquer coisa eu pego uma Palestina, mas é que eu queria muito ter poder de veto, sabe? Aí a gente tem que correr pra conseguir pegar esses grandes. Continuar lendo

Saber o que escrever, não saber o que escrever, “será que as pessoas se importam?” e política internacional

por Thaís Queiroz

Ufa! Que título grande. Mas é isso aí: temos um blog sobre Relações Internacionais, cada um escreve em um dia, chegou sua vez de novo. Sobre o que escrever?

Semana passada o período ensandecido de provas terminou e com isso o cérebro pôde descansar e voltar a pensar de maneira mais arejada. Com os ventos que sopram do sul (mesmo aqui não sendo Florianópolis – risos), refleti um pouco sobre “o que estou fazendo da vida”, o que consequentemente me levou a pensar “o que estou fazendo da vida com essa tal de RI”.

“AI SOCORRO!! O MUNDO TEM PROBLEMA DEMAIS, AS PESSOAS SE MATAM, TODO MUNDO SE ODEIA, CADÊ O AMOR?! SOCORRO, NÃO QUERO MAIS! PARA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER, POR FAVOR!” – Foi mais ou menos isso que o meu cérebro gritou Continuar lendo

Perdida nas manifestações insanas

por Thaís Queiroz

Eu sei. Eu sei que o bom senso sumiu faz tempo. Aliás! Que há lugares em que ele nunca existiu. O problema é que às vezes eu me esqueço disso. Ou então que sou ingênua demais para compreender, com tão pouca idade e experiências, os gênios do pensamento político que povoam as esferas privilegiadas do Brasil. Porque sinceramente estou perdida. Minha repetida reação é a incredulidade.

Refiro-me às manifestações verbais escritas em redes sociais (mais especificamente Facebook e tumblrs) e páginas da internet sobre política e sociedade (incluindo jornais, agências de notícias e blogs) a respeito das passeatas de 15 de março e 12 de abril realizadas em múltiplas cidades do Brasil. Continuar lendo

Aquilo que acontece junto de mim e não percebo – o Haiti é aqui?

por Thaís Queiroz

            Passei minhas férias em uma pequena cidade de colonização alemã no estado de Santa Catarina. Blumenau é o nome dela, a minha cidade natal. Em minha rua, uma rua tranquila de um bairro residencial afastado, vi dois novos prédios – de apenas 4 andares (que é o máximo permitido) – que não estavam ali da última vez. Antes, a rua, e praticamente todo o bairro, tinha só casas. Ao passar por estes prédios diversas vezes, quando ia pegar o ônibus, cumprimentei algumas pessoas: todas de pele negra (o que era muito raro em Blumenau) e ouvi também uma língua diferente da minha enquanto passava e eles continuavam a conversar entre si.

            O meu pai trabalhou por alguns anos no Haiti, indo e voltando de tempos em tempos, e por ele eu sabia mais ou menos como soava o creoli, a língua falada pela maioria da população de lá. Eu desconfiava que era essa: tinha bons motivos para tal. Continuar lendo

Deixar-se afundar

por Marina Sertã

Estudar RI (crítica) é frequentemente encontrar-se paralizada em um mar questionamentos sobre intervenção. É encontrar-se imóvel, diante de uma muralha intransponível de pontos de interrogação. É sentir-se afogada em questões como as que nos apresentam Naeem Inayatullah ou Maja Zehfuss naquelas dilacerantes perguntas em “Why do some people think they know what’s best for others?” e “What can we do to change the world?”. Presa no turbilhão. Continuar lendo