O problema afeta todos nós – relatos da Palestina

por Thaís Queiroz

[Este texto foi publicado originalmente no dia 1º de março pela própria autora em sua rede social. Ela retornou da Palestina no final do mês de fevereiro de 2016]

“Hoje li esta notícia: Dois soldados israelenses se perderam usando o Waze (aplicativo que indica os melhores caminhos para chegar ao destino desejado) e acabaram entrando em um campo de refugiados perto de um dos piores e mais chatos check-points de Israel (pelo qual passei diversas vezes), Qalandia, e, quando estavam no campo, os palestinos jogaram coquetéis molotov no carro. Os dois soldados fugiram e se esconderam no campo e, para resgatá-los, uma operação militar Israelense foi acionada. Em decorrência, um palestino, estudante universitário, de 22 anos foi morto, 4 foram feridos com tiros, 12 outros foram feridos com balas de borracha e efeitos do gás lacrimogêneo e 10 soldados israelenses foram feridos, um mais gravemente e nove já liberados do atendimento hospitalar. A operação aconteceu entre as 22h e as duas e meia da manhã de hoje.

Sei que a primeira reação de alguns ao ler esta notícia seria “que horror estes terroristas jogando coquetéis molotov no carro dos soldados”. E olha o que tudo isso causou.

E compreendo esta reação: isto é o que conseguimos enxergar em nossos meios de comunicação. Os sites de internet, as notícias acessíveis a nós são estas: são pessoas que se explodem para matar outras pessoas, são pessoas que esfaqueiam outras pessoas. E tudo isso é real. Tudo isto não é inventado ou aumentado. Estas ações existem.

O que não temos, no entanto, é um “background” do que acontece “no outro lado”.  Estas notícias não chegam. Não que matar alguém seja certo quando temos uma justificativa. Nada justifica. Mas é preciso tentar entender os motivos para poder diagnosticar corretamente os sintomas.

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Como viajei da China ao Brasil em 30 segundos

por Julia Zordan

Por 35 anos a China viveu uma política governamental segundo a qual os casais não poderiam ter mais do que um único filho. Até a semana passada, quando essa política caiu e foi permitido às famílias ter até dois filhos. Como explica Duda Teixeira[1],

A Lei de População e Planejamento Familiar, que deve ser extinta em breve, afirma que:

‘O país determina estar em efeito a política do nascimento, que encoraja o cidadão a casar-se e, em um momento posterior, a ter filhos. Recomenda-se que marido e mulher tenham somente uma criança’

A norma estipula que os pais de filhos únicos podem requerer um ‘certificado de honra para pais de filhos únicos’. Com o documento em mãos, eles passam a ter direito a vários benefícios estatais, como assistência médica e um seguro para a idade avançada.

 Esse controle populacional por parte do governo chinês não é arbitrário: é uma forma utilizada pelo governo de controlar o tamanho de sua população e, assim, controlar várias outras áreas que lhe dizem respeito, como políticas econômicas, educacionais, sociais, previdenciárias[2], etc. Assim, conforme a pirâmide populacional chinesa vai sendo alterada com o tempo, o governo chinês decidiu permitir que os casais pudessem ter, se assim desejassem, dois filhos.

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Em busca das relíquias perdidas

por Clarissa Reis Guimarães.

Após o texto extremamente bem escrito do Franco, não pude deixar de aproveitar o gancho para falar do meu objeto de pesquisa e da minha paixão de infância: antiguidades e obras de arte. Sou daquelas que adora um museu e me esbaldo quando viajo para algum lugar e posso ter o contato com todo aquele clima de sabedoria, de reverência e opulência relacionada ao passado.

O único problema, que aprendi com a pesquisa, é que nesse mundo, nem tudo é o que parece.

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Um epitáfio para Palmira

por Franco Alencastro.

Conheci um viajante de antiga terra
que disse: – Duas pernas destroncadas, pétreas,
estão no deserto. Perto delas, soterra
a areia meia face despedaçada,

cujo lábio firme e poderio de olhar, frio,
diz que seu escultor bem lhe leu as paixões
que sobrevivem, nas meras coisas sem vida,
à mão que zombou e ao coração que nutriu.

E no pedestal tais palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, o rei dos reis:
Vejam minhas obras, ó fortes – desesperem-se!”

Nada resta: junto à ruína decadente
e colossal, de ilimitada aridez,
areias, lisas e sós, ao longe se estendem.

-“Ozymandias”, de Percy Shelley (trad. Tomaz Amorim Isabel)

Em agosto deste ano, o grupo EI – Estado Islâmico – que luta pelo estabelecimento de um Califado nas terras habitadas por muçulmanos, iniciou a destruição do templo de Baalshamin, na cidade de Palmira, na Síria. Fundada hà 4 mil anos, passou pelas dominações dos Impérios Assírio, Selêucida, Romano, do Califado Omíada, Abássida e Mameluco, do Império Otomano e do Colonialismo Francês, antes de terminar sob a tutela da família Assad, na segunda metade do Século 20. Palmira chegou a ser até capital de um próspero mas êfemero império, que durou dois anos (270-272). [1] Continuar lendo

Definindo as Relações Internacionais

por Franco Alencastro.

“Relações Internacionais? Que interessante. E o que você faz?”

Quem, no nosso campo, nunca teve que encarar essa pergunta? A reação instintiva geralmente é querer se encolher, pigarrear e pedir pra passarem a farofa (olha, eu to só supondo que a conversa se passa no Natal). E, num segundo momento, pensar muito – problematizar, afinal, está no coração nada-essencializado de nossa disciplina. E tenta-se chegar a uma resposta, o que às vezes leva à fria conclusão de que não temos idéia, mais do que a maioria das pessoas, sobre o que, afinal, somos supostos fazer.

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Furor indica – Alexandre Garcia fala sobre o número de homicídios no Brasil

por Thaís Queiroz.

No lugar de um post, hoje O Furor indica uma leitura. Na verdade é um vídeo, sobre um assunto de preocupação internacional, mas que o Brasil, infelizmente, é protagonista. Veja a reportagem de Alexandre Garcia sobre os homicídios no Brasil para refletir também e pensarmos formas de modificar este cenário.

 

Sobre o atentado à Charlie Hebdo e a comoção popular

por Thaís Queiroz 

Como a maioria dos que estão conectados à internet ou a qualquer canal de televisão do país já sabem, ontem, dia 7 de janeiro de 2015, 12 pessoas foram assassinadas por dois homens armados e outras onze ficaram feridas na França, mais precisamente na edição da Revista Charlie Hebdo, mundialmente famosa (segundo o que as notícias dizem, é claro, pois eu, na minha humilde ignorância, não tinha nunca ouvido falar) por seu humor baseado em sátiras religiosas e políticas. Continuar lendo

Das mais tristes “novelas” – A Mexicana

por Kayo Moura

Cena 1: A história de um massacre.

            O título desse post tenta chamar a atenção do leitor furorístico para  um infeliz quadro, muito mais dramático que qualquer novela ou gênero literário similar. Porque nele não há nada de fictício, muito menos algo que se assemelhe a um final feliz, pelo menos por enquanto.

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            No dia 26 de setembro de 2014, um grupo de jovens estudantes da comunidade de Ayotzinapa, situada na cidade de Iguala, no México, teve seu ônibus interceptado e atacado por policiais da cidade. Ao que tudo indica, os jovens estavam a caminho da Cidade do México para participar da marcha que lembraria o massacre de Tlatelolco (1968) e o assassinato de dois companheiros pela polícia na estrada federal que vai até Acapulco, em 2011. Além disso, pretendiam angariar fundos para as escolas rurais de sua região e para a organização de novas manifestações [1]. Continuar lendo

Por que eu -f-u-i-(tentei ir) à parada gay

por Marina Sertã

2014-11-17 10.44.15

         Semana passada, a Thaís falou sobre nossa declaração de namoro e depois a nossa declaração de não-namoro e nossos porquês por trás disso. A intenção foi que muito mais que só uma foto ou um vídeo, esse pudesse ser um movimento contínuo de discussões sobre uma prática social horrível, o preconceito, mais especificamente a homofobia. O que, no fim das contas me motivou a ir pra Copacabana ontem, pra participar da 19ª Parada do Orgulho LGBT. Vou tentar levantar algumas discussões sobre preconceito, e mais especificamente homofobia, aqui. Então, por favor, se houver um ponto em que quiserem, engajem!! Continuar lendo